Até ‘Domingo’… que passa hj, no Canal Brasil

Até ‘Domingo’… que passa hj, no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

09 de abril de 2020 | 13h06

Rodrigo Fonseca
Crônica com ecos de conto moral, e com um gostinho de Éric Rohmer lá no recheio de suas observações sobre as condutas do desejo, “Domingo” vai aproveitar esta Semana Santa para expor, no Canal Brasil, todo o profano que conjuga os verbos “querer” e “poder” na alta classe média nacional. Tem sessão nesta quinta-feira, às 22h25, com repeteco no sábado (11 de abril) às 20h25, e no dia 15, à 1h55. Exibido na sessão Venice Days, no Lido, em 2018, e aclamado em sua passagem por festivais em Lima, Havana, Brasília e Rio, onde rendeu o troféu Redentor de melhor atriz à veterana Ítala Nandi, a produção volta ao passado, trafegando até os momentos iniciais da chegada de Luiz Inácio Lula da Silva ao comando de sua nação. Isso lá no início dos anos 2000. A dupla de cineastas Clara Linhart e Fellipe Gamarano Barbosa, parceiros no premiado “Gabriel e a montanha” (2017), assinam a direção desta bem-humorada crônica sobre as mudanças éticas que a sociedade brasileira viria a sofrer com a eleição de um operário para presidente, mesmo sobre os narizes torcidos de uma parcela mais endinheirada da pátria. Sinuosa, em seu passeio pelas vaidades de diferentes integrantes de um clã gaúcho abastado, sua narrativa se passa em 1º de janeiro de 2003, um sábado. Enquanto o Brasil celebra a histórica posse de Lula, numa transição democrática rara em nossa História, um churrasco regado a champanhe reúne duas famílias do interior sulista, cujas máscaras estão prestes a cair. O cheiro de carneiro assado perfuma um ambiente cheio de joguinhos eróticos e de práticas de humilhação. Da sogra que retorna à sua antiga mansão, dilapidada, à filha da empregada de origem não discutida, todas e todos por lá têm seus pecados. No elenco, além de Ítala, como a matriarca cheia de desmandos e de mandos, brilham em cena Camila Morgado, Martha Nowil, Ismael Caneppele, Michael Wahrmann e (um inspiradíssimo) Augusto Madeira, um ator em seu apogeu. Segundo Clara contou ao P de Pop, Lucas Paraizo (de “Aos Teus Olhos”) escreveu o roteiro de “Domingo” em 2005 e convidou Fellipe para dirigi-lo em 2007. Dez anos depois, em 2017, ela se juntou a Fellipe na realização e os dois rodaram o filme num contexto político completamente mudado, pós Impeachment, pós PT no Planalto. A trama expõe o medo da suposta “nobreza” do país de uma “revolução dos pobres”. Louise Courcier assina a fotografia, que filtra qualquer excesso deste xadrez de aparências, cuja montagem, de Waldir Xavier, amealha diferentes personagens numa pirâmide social e sensorial de contradições.

p.s.: Esta tarde, a Lança Filmes vai promover a primeira live da animação “A Cidade dos Piratas”, desenho de verve documental de Otto Guerra. Questões de identidade de gênero, o cenário político atual e a própria narrativa do realizador gaúcho estarão na pauta. Estarão presentes a cartunista Laerte, cuja obra (sobretudo “Piratas do Tietê) é o foco da narrativa, e a jornalista e política Manuela d’Ávila. A transmissão vai acontecer neste 9 de abril, às 17h00, e será publicado no Instagram da Lança Filmes e de Manuela d’Ávila.

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