Assombrações de Desplechin

Assombrações de Desplechin

Rodrigo Fonseca

24 Abril 2018 | 19h19

Rodrigo Fonseca
Filme de abertura do Festival de Cannes 2017, visto por 250 mil pagantes em seu início de circuito na França, Os Fantasmas de Ismael, de Arnaud Desplechin, ganhou enfim uma data de estreia no Brasil: 3 de maio. O rosto altivo de Marion Cotillard é a isca para fisgar o coração do público para este drama construído sob a argamassa da metalinguagem. Uma venda de ingressos que gravita entre 450 mil e meio milhão de espectadores é uma marca que o badalado diretor francês esta acostumado a alcançar em sua terra natal, com tramas sempre afetivas sobre personagens alquebrados em sua sanidade, sempre cercados por um colo quente. Bom exemplo é o sucesso Três Lembranças da Minha Juventude (2015), seu longa anterior, centrado na doçura, que explodiu nas bilheterias. Aqui, em seu novo trabalho, definido como um exemplar do chamado “melodrama mauricinho”, a dor é soberana, com raros momentos de riso. Com um roteiro confuso, em sua aposta nas idas e vindas de um filme dentro do filme, esta produção narra os efeitos que o regresso de uma mulher dada como morta por duas décadas tem sobre seus entes queridos. E que mulher mais chave de cadeia é Carlotta, personagem de Marion.

“O fantasma aqui não é um signo de Além, de sobrenatural, e sim de algo que ficou no passado e ainda dói… como todo amor abortado não resolvido”, disse Deplechin ao P de Pop em Cannes.

Durante duas décadas, o marido de Carlotta, o cineasta Ismael (Mathieu Amalric, quase um alter ego de Desplechin, de quem é ator fetiche) amargou o luto da viúvez. Estava crente que Carlota havia morrido. Ele arruma até outra namorada, por quem se apaixona: Sylvia, interpretada pela sempre efervescente atriz Charlotte Gainsbourg. Porém quando Ismael começa um delicado filme de espionagem sobre o herói Ivan Dédalus (Louis Garrel, em grande atuação), Carlotta regressa, levando-o a rever um passado de dor e de traições a fio. A atuação de Marion, como sempre, é imponente.

“Tentei abrir mão da melancolia que por vezes guia meus filmes e apostar em uma narrativa viva sobre recomeços”, disse Desplechin.

A trilha sonora de Les Fantômes d’Ismaël arrebatou elogios em Cannes. “Tento trocar o máximo possível com os músicos com quem trabalho, como Grégoire Hetzel, um compositor que, há anos, aguenta as minhas exigências e tira poesia das minhas propostas absurdas. Para este filme, desse o roteiro, chegamos à conclusão de que algo transpirava ao folk, evocando Bob Dylan, porque as letras dele traduzem quem é Carlotta: uma desaparecida que clama seu lugar de volta no afeto alheio”, diz Desplechin, que estreou na direção em 1991, com La Vie des Morts. “Filmo para celebrar o prazer do recomeço”.