‘Assim é a Vida’ é a comédia mais saborosa do ano

‘Assim é a Vida’ é a comédia mais saborosa do ano

Rodrigo Fonseca

20 Dezembro 2017 | 15h09

Rodrigo Fonseca
Tempos de guerra fomentam a necessidade de comédias, como um analgésico para o desespero diante da brutalidade; porém, quando a crise que reina sobre o mundo é de ordem econômica, e não bélica, o alívio do riso não se sustenta, e o sombrio (o horror) emerge como tônica dominante, impondo a dúvida do suspense, no lugar da certeza da gargalhada. Foi assim que o noir ganhou as telas do planeta, a partir do crack da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, e é assim que o terror ganhou este ano, com Corra!, It: A Coisa e companhia… No Brasil, nem a neochanchada resistiu: narrativas cômicas mais popularescas, inspiradas na emergência financeira das classes C e D, na linha Até Que a Sorte Nos Separe ou De Perna Pro Ar, caíram de prestígio com o povão, uma vez que até essas classes perderam os trilhos da evolução com a bagunça em nossas finanças. No mundo todo a comédia agonizou, excetuando-se um filmaço francês, que se impôs pelo requinte narrativo e pela pimenta por trás de suas tiradas observacionais: Assim É a Vida (Le Sens De La Fête). Na direção, estão Olivier Nakache e Éric Toledano, dupla de maior prestígio popular da França na atualidade, quando o assunto é fazer rir. O título Intocáveis (2011) fala por eles. Ou melhor, os 20 milhões de ingressos que Intocáveis vendeu em sua pátria fala por tudo.

Coroado com 2,8 milhões de pagantes em sua bilheteria francesa, e mais uma fortuna em diferentes países da Europa por onde passou, Assim É a Vida é a comédia de maior apelo do Velho Mundo neste ano em que o gênero agonizou pelo estado de coisas na saúde econômica do planeta. E, em termos estéticos, pode fácil ser definida como a melhor comédia varejão do ano – no terreno das comédias finas, The Square – A Arte da Discórdia, ganhador da Palma de Ouro de 2017, com estreia por aqui prevista para janeiro, ocupa este lugar. Mas a narrativa de Toledano e Nakache também tem seus momentos de sofisticação, sobretudo pela presença de uma lenda autoral do cinema na França: o ator e dramaturgo Jean-Pierre Bacri (de O Gosto dos Outros).

Gilles Lelouche encarna um cantor abilolado em “Assim é a Vida”

Pontuado pelo absurdo ao longo de 115 hilários minutos, onde confusões se misturam a debates culturais de inclusão, Assim É a Vida flagra tudo o que pode sair errado na celebração de um matrimônio. O noivo é um chato, a noiva é uma alienada, entre os convidados o hedonismo rola solto. Enfim… é fuzarca certa. O erro da festança começa pela escolha de um cantor (Gilles Lellouch, em deliciosa atuação) que faz o oposto do que os noivos pedem. O empresário Max Angély (papel de Bacri), que organiza eventos de gala, tenta controlar sua ave canora, mas não consegue. E erra em outros pontos também. A cada deslize, a trama vai descortinando, virada a virada, o quão atrapalhada é a equipe responsável pela cerimônia funcionar.

Jean-Pierre Bacri: empresário em crise

Falta esmero e invenção à fotografia, deveras bem comportada. Mas a edição inova por ela, aproveitando o melhor dos diferentes cantos do local da festa. Existe, na forma, uma escancarada (e declarada) inspiração em Cerimônia de Casamento (1978), de Robert Altman. Mas o resultado final descamba mais pra chanchada do que pro humor cínico de Altman. E tudo funciona na margem da graça, do alto astral e da provocação.

Cotação: muito bom