‘As Verdades’ de Belmonte libertam o olhar

‘As Verdades’ de Belmonte libertam o olhar

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2022 | 18h58

O set de “As Verdades” com direção de José Eduardo Belmonte, tendo Lázaro Ramos como protagonista – Fotos de Taylla de Paula

Rodrigo Fonseca
Cerca de três meses depois de lançar “Alemão 2”, hoje em marcha para o cabo, via Telecine, José Eduardo Belmonte volta às telas com um de seus filmes mais intimistas e, ao mesmo tempo, mais requintados na escuta da solidão. abre mais um ano com o aríete da diversidade. Em streamings multinacionais como o Star Plus, o realizador é representado por uma comédia: O Auto da Boa Mentira (2021). Na Netflix, tem Entre Idas e Vindas (2016), um refrescante flerte com a romcom. Na GloboPlay, ele brinca com a tradição brasileira da chanchada, as comédias musicais, com Billi Pig, produção que abriu a Mostra de Tiradentes em 2012. Mostra essa que, em 2009, prestou a ele uma homenagem pelo conjunto de uma obra que era então pequena e hoje, 19 anos após sua estreia em longas, expandiu-se nas mais variadas latitudes, alcançando picos de prestígio quando ele conquistou o troféu Redentor de Melhor Filme do Festival do Rio com “Se Nada Mais Der Certo”, em 2008. Ganhou ainda o prêmio principal do MIP TV, prestigiado festival internacional de televisão, em Cannes, pela série Carcereiros, em 2017. Mas agora, a partir desta quinta, é a vez de ele encarar o mercado com uma trama de múltiplas perspectivas.
Em “As Verdades”, Lázaro Ramos encarna o policial Josué, incumbido de resolver um crime contra o empresário Valmir (Zécarlos Machado), em um pequeno município do sertão. Assim como acontecia no filme de culto de Akira Kurosawa (1900-1998) citado acima, a investigação de Josué se envereda por três pontos de vista. Primeiro: o crime é contado por Cícero (Thomás Aquino), um matador de aluguel. Segundo: a história é narrada pelo ponto de vista de Francisca (Bianca Bin), a noiva do empresário. Terceiro: é revelado o ponto de vista de Valmir (Machado), que sobreviveu.
Na conversa a seguir, Belmonte avalia a dimensão trágica do Brasil a que volta às telas, pilotando um roteiro de Pedro Furtado supervisionado por George Moura e Guel Arraes.

“As verdades” é um filme que se aproxima vertiginosamente do potente cinema que você fazia no início dos anos 2000 – como “Meu mundo em perigo”, sobretudo – e que deu uma guinada para um cinema mais pop, mas igualmente autoral e possante, em “Billi Pig” (que a TV Brasil exibe a toda hora) e em “Carcereiros”. Que extremos você acredita explorar em sua relação com o circuito exibidor? E o que esse intimismo de “As Verdades” carrega do Belmonte de ontem e do Belmonte de agora?
José Eduardo Belmonte:
Olhando para trás, vejo que, inconscientemente, tive ciclos muito bem definidos de produção. Nos anos 1990, eram curtas anárquicos, de humor ácido, pops, mas com experiências de linguagem. Nos anos 2000, fiz longas dramáticos mais densos, existenciais, mas também com experiências de linguagem. E, nos anos 2010, basicamente fiz filmes (e séries) a convite de produtores. No geral, eram obras que buscavam um grande público. Acho que isso acentuou o lado pop que sempre tive. Também fiz mais filmes de gênero. Estes ciclos refletem momentos que vivi, mas nunca tirei da cabeça a ideia de fazer experiências de linguagem: persistiu a minha natureza de inventor. O ciclo de filmes que chegaram a mim por meio de produtores se encerra com “As verdades”, filmado em 2019, e “O pastor e o guerrilheiro”, rodado no início de 2020 e que estreia em outubro. Quando comecei esse ciclo, em 2011 com “Billi Pig”, fiz por questões pessoais. Queria “sair um pouco de mim” e me confrontar. E o fiz também por questões políticas. Nós, realizadores independentes, precisávamos ocupar mais espaços. E o fiz ainda por questões práticas, uma vez que precisava viver do meu ofício. Todas as escolhas tiveram o mesmo peso. E foi interessante, porque acompanhou um processo interno de cura, no qual eu me entendi melhor como pessoa. Entendi minhas qualidades e defeitos. Penso que me tornei um diretor com maior domínio das técnicas e meios para contar uma história. Então, penso que o filme “As verdades”, assim como “O pastor e o guerrilheiro”, está na fronteira dos novos caminhos que quero apontar, unindo humanismo e experiências estéticas. E o popular tem que ser consequência da organicidade da ideia.

Você tem se mostrado um dos mais habilidosos diretores de narrativas policiais e de ação no país. O que esse espaço dramatúrgico te oferece de mais desafiador? A que dramaturgias você se refere nessa construção?
José Eduardo Belmonte:
É uma questão interessante. “Se nada mais der certo” tem uma trama policial, mas é um pretexto para contar o drama de pessoas marginalizadas, que criavam uma família com desconhecidos, baseadas nos afetos. Quando comecei a realizar projetos de produtores, achei que era chamado por causa dessa experiência. Os roteiros que vinham para mim eram sempre filmes de gênero, muito violentos. Foi uma crise para uma pessoa como eu. Mas entendi que, como vivemos em um país violento, não há como fugir de um grande tema, de interesse recorrente. Era assim ainda que, no filme popular, a abordagem fosse pela catarse. Não era pelo drama, como em “Se nada mais der certo”. Pensei: “ok, vamos fazer o gênero, mas vamos enxertar drama”. Até porque uma das grandes motivações para os convites que eu recebia vinha do fato de que, como sou um diretor de atores, conseguia agregar bons nomes ao elenco. Foi (e ainda é) um desafio e tanto trabalhar com temas e cenas sensíveis, dar densidade dramática, responsabilidade social nas representações e ainda fazer entretenimento em uma sociedade jovem e cheia de contradições. Por fim, à época do “Se nada mais der certo”, o Carlão Reichenbach colocou na dedicatória de um livro que me deu de presente: “Do admirador do seu cinema físico.” Antes de fazer o gênero, sempre tentei entender as personagens não pela psicologia, mas pela ação física e pelas questões do corpo. Isso ajudou a me adaptar ao gênero que é extremamente físico.

Bianca Bin é o epicentro de uma investigação

Que heroísmo cabe em “As Verdades”?
José Eduardo Belmonte:
Vivemos nos últimos anos em estado de beligerância permanente. Parte da população, que sequestrou para si o termo conservador, está em guerra contra pretos, indígenas, direitos das mulheres… Samuel Fuller dizia que, numa guerra, a grande glória é sobreviver. Penso que hoje é mais do que isso. Precisamos estar abertos ao diálogo e, principalmente, ao acolhimento, à escuta. Ir além do nosso entendimento e se posicionar contra a opressão. Betinho, já nos anos 1980, falava que o problema do Brasil é a falta de amor. O filme lança essa pergunta ao fim. Que entendamos o significado dessa palavra. Aí está o heroísmo.

Que realismo cabe em “As Verdades”?
José Eduardo Belmonte:
Quando me chamaram para o projeto, eu me interessei pela ideia de várias versões. Desde os meus primeiros curtas, a dificuldade do indivíduo em se conectar à realidade foi um tema. Mas, ao adentrar no projeto, conversar com as colaboradoras, vi que independente das versões, havia um tema maior. Falar dessa cultura de violência impregnada em tudo, que, sem transparência emocional, gera distorções e tragédias. O filme fala principalmente da violência contra a mulher, mas também da masculinidade tóxica (tema que vou desenvolver em outro projeto) e que, tanto na esfera íntima como para o tecido social, é fonte de muita dor.

Que Brasis cabem em “As Verdades”?
José Eduardo Belmonte:
O filme mostra muitas situações de opressão, mas, no fim, mostra uma reação de libertação à violência. O país que aparece na conclusão de “As verdades” é o que desejo mostrar. O Brasil que reage, se cura, amadurece e se liberta.

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