As primeiras pepitas do garimpo de Cannes

As primeiras pepitas do garimpo de Cannes

Rodrigo Fonseca

20 de maio de 2022 | 16h04

“Un Beau Matin” bateu ponto na Quinzena dos Realizadores

RODRIGO FONSECA
Depois de quatro dias de folias cinéfila, as mostras paralelas de Cannes, sem conexão com a briga pela Palma de Ouro, abrem suas jazidas e entregam seu ouro ao olhar dos espectadores. Vai aqui uma lista da primeira leva de imperdíveis, descobertos no garimpo:
ALMA VIVA, de Cristèle Alves Meira (Portugal): Que joia esta combinação aparentemente não encaixável de fantasia e naturalismo, com algo de “Lázaro Feliz” (2018) e de Lucrecia Martel. É uma espécie de filme de fantasma, num flerte com a liturgia do luto e com a corrente chamada Extraordinária, na qual se cultuam eventos misteriosos sem explicações no Além. Uma menina (Lua Michel) vira um canal de carne e osso para sua família, abalada por uma perda, sintonizar fenômenos do Além… ou do vazio. É uma narrativa inquieta, de uma elegância notável na fotografia de Rui Poças, gênio da imagem hoje na Europa.
THE STRANGER, de Thomas M. Wright (Austrália): Lealdade, viga central das amizades, cheia de devires de honra quando aplicada ao universo masculino, é o vetor de empuxo deste thriller lento, a passos de cágado, mas de um domínio singular da engenharia sonora. Sean Harris faísca em cena no papel de Teague, um silencioso criminoso com o passado enevoado. Ao conhecer um sujeito igualmente taciturno e de índole similar num voo, Mark (vivido por um Joel Edgerton com ares de Capitão Caverna), Teague terá de enfrentar suas falhas d’outrora.

Na Semana da Crítica, Rui Poças ilumina os medos portugueses na fotografia de “Alma Viva”, dirigido com rigor por Cristèle Alves Meira

DALVA, de Emmanuelle Nicot (Bélgica): Longas belgas invadem Cannes com fome de prêmios neste ano em que os Dardenne, divos audiovisuais daquele país, regressam. Mas, antes dele, Nicot fez um estrago nas glândulas lacrimais da Croisette ao narrar as agruras de uma guria de 12 anos que acredita ser uma adulta, vestindo-se como tal.
MI PAÍS IMAGINÁRIO, de Patrício Guzmán (Chile): Cada vez mais certeiro em sua concepção dramatúrgica, o octogenário documentarista por trás do premiado “O Botão de Pérola” (2015) revisita os protestos em prol da democracia que mobilizaram sua pátria em 2019. Passeatas que evocam o Golpe de 1973, na era Allende, são decantados sob uma lupa crítica, que mira nos soldos ditatoriais das Américas. Há dois anos, Guzmán saiu de Cannes com o troféu L’Oeil d’Or, a Palma da não ficção, por “A Cordilheira dos Sonhos”. Este ano, ele pode repetir o feito.
UN BEAU MATIN, de Mia Hansen-Løve (França): Numa curva criativa ascendente, a diretora de “A Ilha de Bergman” (2021) ilumina a Quinzena dos Realizadores com seu regresso ao seio do intimismo francês, evocando Éric Rohmer com a ajuda de uma Léa Seydoux em estado dr graça. Léa vive Sandra, uma mãe solteira às voltas com a saúde depauperada de seu pai. Mas quando menos espera, um velho amigo (Melvil Poupaud) brota em seu caminho, trazendo algo mais do que um ombro generoso.

Joel Edgerton ostenta um ar de Capitão Caverna de “The Stranger”

HUNT, de Lee Jung-Jae (Coreia do Sul): É um “John Wick” à moda asiática, numa mistura de thriller de espionagem, suspense noir e pancadaria à la Chuck Norris. Indicado ao Globo de Ouro por “Round 6” (“Squid Game”/ “Ojing-eo Geim”), o ator Lee Jung-jae fez sua estreia na direção com esse filmaço, numa sessão de meia-noite abarrotada de gente, entupida até o talo, onde deu um banho de adrenalina no evento. Ele vive um agente que caça um espião num processo de troca presidencial. Falta estilo, mas a sequência final, de quase 20 minutos de pura TNT, é antológica.
CORSAGE, de Marie Kreutzer (Áustria): Cada vez mais gigante em cena, a cada novo filme, a luxemburguesa Vicky Krieps, revelada em “Trama Fantasma” (2017), encarna a imperatriz Elisabeth da Áustria ()1837-1898), apelidada de Sissi, como um espírito inquieto que encara xenofobias e ilusões afetivas em busca do desejo de afirmação. A direção de arte de Monika Buttinger estonteia, galvanizada pela luz da fotografia de Judith Kaufmann.

O Festival de Cannes segue com sua programação até o dia 28 de maio. Há 21 longas no páreo pela Palma dourada. O concorrente mais premiável, até agora, é “EO” (“Hi-Han”), uma louquíssima mistura de fábula com realismo e toques de experimentação de artes visuais, cujo protagonista é um burrico (um asno) retirado à força do circo onde cresceu. Ganhador do Urso de Ouro da Berlinale, em 1967, com “Le Départ”, o artista plástico, ator e diretor polonês Jerzy Skolimowski constrói sua narrativa como um libelo contrário à brutalidade contra animais.

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