As pepitas de Roterdã

As pepitas de Roterdã

Rodrigo Fonseca

04 de fevereiro de 2021 | 11h43

Matheus Nachtergaele dá mais um olé na arte de atuar em “Carro Rei”

RODRIGO FONSECA
Até o dia 7, o Festival de Roterdã, na Holanda, segue online, demarcando a preocupação das grandes maratonas competitivas do cinema em preservar suas atividades nestes tempos de Europa em lockdown e toque de recolher, por conta da covid-19. Do que foi visto pelo P de Pop, em meio ao vastíssimo cardápio do evento holandês, responsável por inaugurar o circuito do G7 dos maiores festivais mundiais (na sequência, temos Berlim, Cannes, Locarno, Veneza, Toronto e San Sebastián), eis o que mais brilhou:

CARRO REI, de Renata Pinheiro (Brasil): “Transformers” meets Bob Wilson meets Stuart Hall, embalado numa direção de arte inventiva e aditivado por um Matheus Nachtergaele com aura de Gollum. Filme provocativo e inquietante em sua reflexão sobre a “maquinização” do humano. Uma tradução precisa de Renata Pinheiro para o “Manifesto do Ciborgue”, de Donna J. Haraway. É o primeiro grande filme brasileiro de 2021, egresso de Pernambuco, a partir de Caruaru. A trama lembra muito “Bumblebee” (2018) em seus momentos iniciais, quando um garoto é salvo de um atropelamento por um carro com quem ele estabelece uma estranha conexão. Por “estranha” leia-se: ele fala com o tal carro. Anos depois, dedicado ao ativismo ambiental, o moço (Luciano Pedro Jr.) retoma relação com o veículo, mas percebe que existe uma aura totalitária nele, mas vê seu tio (Nachtergaele) se conectar com esse totalitarismo.

LA NUIT DES ROIS, de Philippe Lacôte (Costa do Marfim): No universo prisional africano, um rapaz vai parar uma cadeia violentíssima, cujo “xerife” tem um problema respiratório severo. Ao ver que o garoto recém-chegado tem resiliência, o chefão do xilindró resolve escalá-lo para ser o contador de histórias oficial da população carcerária. Lançado no Festival de Veneza, o longa ganhou um prêmio especial em Toronto.

RAIDERS OF JUSTICE, de Anders Thomas Jensen (Dinamarca): Com situações hilárias, este thriller de ação de tintas cômicas abriu Roterdã apoiado no talento de Mads Mikkelsen, que vai para a competição do Globo de Ouro com “Another Round”. Neste novo trabalho, ele é Markus, um Rambo escandinavo, que trabalha em operações militares longe de sua família. Depois da morte de sua mulher, em um acidente ferroviário, Markus volta ao lar, para cuidar de sua filha adolescente. Mas ele é procurado por um sujeito que estava no trem acidentado e tem a desconfiança de que o desastre foi um atentado terrorista, encomendado por uma célula criminosa. Daí pra diante, Mikkelsen vai incorporar o Stallone que tem dentro de si.

MADALENA, de Madiano Marcheti (Brasil): Erigido a partir de uma delicadíssima montagem, esta produção do Centro-Oeste, rodada em Dourados, incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule, em fina atuação) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

SUZANNA ANDLER, de Benoît Jacquot (França): A partir da peça homônima de Marguerite Duras (1914-1996), o realizador de “Adeus, Minha Rainha” (2012) reafirma sua marca autoral: a reflexão sobre o moralismo nas instituições. Parceira de Jacquot em “3 Corações”, de 2014, Charlotte Gainsbourg volta a trabalhar com ele, inspiradíssima, no papel de uma mulher infeliz em seu casamento que tenta se reinventar numa viagem à Riviera.

Pamella Yule em “Madalena”

QUO VADIS, AIDA, de Jasmila Zbanic (Bósnia): Indicado ao Leão de Ouro em Veneza, em setembro, este frenético estudo sobre o conflito entre bósnios e sérvios, nos anos 1990, marca a volta da realizadora de “Em Segredo” (Urso de Ouro de 2006) aos holofotes europeus. A atriz Jasna Djuricic implode nosso olhar num desempenho comovente, no papel de uma tradutora da ONU que tenta salvar sua família em meio a um atentado à cidade de Srebrenica. A diretora revê o passado de alegrias daquela localidade que, em 1995, vê sua paz ruir, sob o impacto de bombas. O dilema da personagem de Jasna, Aida, é uma discussão ética entre o dever o querer, entre proteger os seus ou cumprir sua missão. Destaque para o ator belga Johan Heldenbergh (de “Alabama Monroe”) no papel do coronel Karremans.

BIPOLAR, de Queena Li (China): Uma delicadíssima reinvenção do mito de Orfeu. Uma jovem chega a Lhasa, no Tibete, como peregrina, impelida pela dor diz ela – mas na realidade ela não tem muita idéia do porquê de estar aqui. Ela foi levada até Lhasa pela dor de uma perda; dor que ela ainda não sabe como lidar. Em meio à viagem, ela tem um alumbramento ao se deparar com uma lagosta num aquário. Trata-se de um crustáceo sagrado, criado à luz de um farol na Ilha Ming. Eis que ela resolve ir até lá, arrastando suas mágoas.

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