As meninas superpoderosas

As meninas superpoderosas

Rodrigo Fonseca

02 de março de 2016 | 11h02

“Cinco Júlias”: musical em cartaz no Teatro das Artes

Tétano para almas carentes, as redes sociais implodiram no futuro que fica ali do lado, em 2017, retratado na peça teatral Cinco Júlias, já em cartaz no Rio. Nela, um engraçadinho metido a terrorista criou um site no qual os segredos trocados pelo mundo todo entre e-mails, twitters e curtidas de Facebook vazou, entregando podres de alcova, traições e imposturas. Em meio ao furdunço gerado por esse vazamento, um verdadeiro Jardim das Delícias se forma em um quarto de motel, no qual cinco meninas, todas xarás, todas Júlias (vividas por Isabella Santoni, Malu Rodrigues, Bruna Hamú, Gabi Porto e um cometa Halley chamado Carol Garcia) vão se esconder à caça de abrigo. Todas cresceram cevadas a muito Bob Esponja, algumas amam batata Pringles, uma tem o sonho (comovedor) de conhecer o pai a quem nunca viu e uma delas abusou de remedinhos para entorpecer aquela bandida que a gente apelida de Vida. Cada uma tem um drama pra chamar de seu. Cada uma tem uma roupa para lavar. E o fazem cantando, em um musical que, lá no fundo, tem um recheio de Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy, mas diluído em referências de 2000 para cá.

Se você quiser encontrá-las, e provar do ponche de rum que o fel delas produz, dá um pulinho, segunda ou terça, até 5 de abril, lá no Teatro das Artes do Shopping da Gávea. Se tiver um baixinho frenético, correndo para cima e para baixo conferindo se tudo deu certo com o espetáculo (e tudo dá, assim que Gabi entra em cena, com um jeitão bukowskiano de fim de festa, para dar a narração inicial), não se assuste: esse k-marada é o diretor e autor: Matheus Souza.

Cinco Júlias As beldades

Houve uma vez um mês de outubro, no palco do extinto Cine Odeon, o maior templo cinéfilo do Centro do Rio de Janeiro, quando Matheus, então um futuro diretor com 20 aninhos cravados, conquistou o prêmio especial do júri do Festival do Rio 2008 com um filme encarado como a súmula estética das inquietações românticas da geração ctrl + alt + del. Era o romance cômico (ou quase dramédia) Apenas o Fim. Da mesma maneira como se vê em Cinco Júlias, era um parlatório, no qual os personagens faziam da palavra um veio para escorrer os nós que a gente guarda no peito. É uma estética na qual saliva vira água benta, para purificar sentimentos doídos pelo abandono.

Matheus Souza entre os atores de

Matheus Souza entre os atores de “Apenas o Fim”

A este filme seguiu-se um lírico ensaio sobre o vazio existencial da juventude: Eu Não Faço a Menor Ideia do que Tô Fazendo com a Minha Vida (2012). Agora, maiorzinho (só na idade), o cineasta – um carioca nascido em Brasília com uma estatura de Joe Pesci, uma pelugem de Chewbacca e uma “fome de viver” digna de David Bowie – usa sua conexão com o teatro, depurada ao no frigir dos ovos de uma parceria profissional com Domingos Oliveira, para se firmar como encenador. Cinco Júlias  é uma prova de risco em sua conexão com o palco, uma vez que busca um olhar contemporâneo para a cartilha do musical a partir de um diálogo com linguagens da teledramaturgias das séries e mesmo com o cinema palavroso de Woody Allen.

O espetáculo fica em cartaz no Rio até 5 de abril

O espetáculo fica em cartaz no Rio até 5 de abril

Num equilíbrio quase jorgralesco, as atrizes de Cinco Júlias se complementam para gerar uma ciranda de desabafos geracionais sobre impotências pós-modernas na forma de conjugar o verbo “amar”. Duo televisivo em Malhação, Isabella Santoni e Bruna Hamú repetem a mesma química no teatro. Tudo começa com micromonólogos onde cada uma compartilha com a gente as angústias que as conduziram àquele tal quarto de motel. Depois, vão rolando diferentes jogos de interação entre elas, que levam o quinteto à planície da amizade (e duas delas ao planalto do desejo). Mas a comédia – das boas – fica por conta das intervenções da força da natureza Carol Garcia, cuja atuação, na pele de uma loraburra de cabelo escuro, é aplaudida em cena aberta mais de uma vez. E com razão.

Nos planos de Matheus, tem ainda uma comédia abrasiva sobre volta por cima pronta para estrear. Mas Tamo Junto, previsto para ser lançado ainda este ano, não é uma comédia qualquer: é um exercício narrativo com a ferocidade do cinema de Judd Apatow com seu espírito de crônica geracional. A trama descrita por Matheus faz soar referências a John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado) e de Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos): “Felipe termina o namoro de anos para curtir a vida, mas acaba descobrindo que a vida de solteiro é mais dura do que ele esperava”. Matheus integra o elenco do longa, que traz nos créditos de produção um nome que hoje é toque de Midas no Brasil: a RT Features, de Rodrigo Teixeira, que participou de sucessos indie multinacionais como Frances Ha (2013), de Noah Baumbach.

Não temos Júlias em Tamo Junto, mas tem a poesia de um guri que anda tirando nota boa na (re)educação sentimental do nosso olhar, com o frescor dos 20 e poucos (quase 30) anos. Dê crédito a ele e suas ninfas teatrais. O miocárdio agradece.

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