Ás do humor, Marão anima as fossas abissais do cinema nacional

Ás do humor, Marão anima as fossas abissais do cinema nacional

Rodrigo Fonseca

12 de abril de 2019 | 14h02

Cena do primeiro longa de Marão, baseada no armarinho de seu pai, em Nilópolis

Rodrigo Fonseca
É a hora e a vez de um dos mais respeitados (e premiados) animadores da América Latina pisar na seara dos longas-metragens: “Bizarros peixes das fossas abissais” é a (tardia, porém mais do que bem-vinda) estreia de Marcelo Marão (diretor de curtas-metragens aclamados como “Até a China”) no formato, assegurando uma futura carreira em salas de exibição. Aos 47 anos, o realizador do cult “Eu queria ser um monstro” (2009), egresso de Nilópolis, já participou de 610 festivais com seus 14 filmes curtos, arrebatando 120 prêmios. Seu atual projeto, que corre a pleno vapor, antes se chamava “Minha Bunda É Um Gorila”… assim, com cada palavra em caixa alta. Era uma referência à sua protagonista: uma super-heroína cuja região glútea dá lugar a um símio gigante.

“Após catorze curtas em mais de vinte anos trabalhando com animação, este é meu primeiro longa-metragem de animação e também é meu primeiro filme com uma protagonista feminina”, diz o cineasta, que cercou-se de um time de mulheres em diversas áreas de sua equipe.

47 anos de vida, 610 festivais

Em recente entrevista ao site português C7nema, Marão afirmou: “O filme seria muito diferente se eu não tivesse a ventura e a privilégio de poder ouvir as opiniões da Rosaria (que está dividindo a animação principal – lead animator, como se diria em créditos gringos – comigo), da Letícia Friedrich (produtora executiva dos meus filmes há seis anos), Ana Luiza Pereira (responsável pelo som dos meus filmes há mais de dez anos), Stephanie Romano (assistente de produção de arte e que acompanha cada frame individualmente, escaneando e pintando). Está sendo um aprendizado pra vida toda; não só para este filme. O filme está mudando graças a elas e eu também”.

Segundo Marão, “Bizarros peixes das fossas abissais” traz ainda dois personagens exóticos: uma tartaruga com transtorno obsessivo-compulsivo e uma nuvem com incontinência pluviométrica, que tem vergonha de chover na frente dos outros. Originalidade não lhe falta.
“Acho que o componente central de todos os meus filmes (desde um longa live action feito em VHS na adolescência até o primeiro longa em animação, passando por todos os curtas) sempre foi a família”, diz Marão. “Mesmo que pareça sutil, o foco sempre foi a união da família, principalmente quando a família é formada por integrantes muito distintos – como em qualquer família. Pode ser um filme com um pai e uma mãe e um menino, mas também pode ser um ornitorrinco com cebolas azuis ou um camaleão e um bebê ou um passarinho e um jacaré. Em todos os filmes que faço, há uma unidade familiar incomum unida. Minha família sempre foi – e é – essencial e presente na minha vida. E também foi e é nos filmes”.

Famoso também como um aglutinador de talentos nos diferentes festivais nacionais que apostam em produtos animados, Marão explica que o humor de seus filmes acontece mais pela bizarrice e pelo que é verídico do que pelo intuito de fazer rir: “Muitas vezes fico bem surpreso com as reações das pessoas, principalmente em sequências que não tinham nenhum intuito de comédia”.

p.s.: Não perca o programa “Drops de cinema” que o crítico Roberto Cunha tem feito na Rádio Cidade (#102,9 FM), no Rio de Janeiro, às quintas e sextas, às 9h e às 16h. Ali tem sabedoria e simpatia aliadas em prol das melhores dicas de programação. O P de Pop virou fã. Espero ouvi-lo falar sobre Hirokazu Koreeda, diretor japonês ganhador da Palma de Ouro de 2018 (com “Assunto de família”) a quem Cunha aplaudiu, em 2013, na projeção do delicioso “Pais e filhos”, em sua fina cobertura de imprensa. As dicas dele sobre “De pernas pro ar 3” (que, de longe, é o melhor da franquia, sobretudo na sequência com Cauã Reymond) ajudam muito na compreensão e na fruição de uma comédia que desafiou padrões morais.

p.s.2: A ed. Mythos acaba de brindar o mercado nacional de quadrinhos com uma imperdível edição P&B da “Heavy Metal” inglesa. A HQ “Absalom”, de Gordon Rennie, sobre um veterano investigador do sobrenatural, é pra ler e reler.

p.s.3: Billy Crystal voltará às telonas este ano, via Festival de Tribeca (24 de abril a 5 de maio) à frente da comédia “Standing Up, Falling Down”, sobre um humorista fracassado que tenta dar a volta por cima em sua carreira.

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