‘As Boas Maneiras’ de se proteger do Coronavírus

‘As Boas Maneiras’ de se proteger do Coronavírus

Rodrigo Fonseca

21 de março de 2020 | 10h03

Rodrigo Fonseca
Em tempos de pandemia, sob a (necessária) quarentena do Coronavírius, um filme nacional de lobisomem uiva para a Lua atrás de sucesso: “As Boas Maneiras” terá exibição no Canal Brasil neste domingo, às 21h, quando será digno, uma vez mais, do adjetivo “obra-prima”, agora em sua apresentação na TV a cabo. Há nele uma precisão narrativa cirúrgica no exercício da tensão… na conversação com cartilhas clássicas (“Sangue de Pantera”) e modernas (“Grito de Horror”) do gênero sinistro no qual foi gerado… na edificação de viradas. Rui Poças assina sua fotografia, cheia de marcas expressionistas, desta produção de DNA paulistano coroada com 32 prêmios no Brasil e no exterior. Consagrado com o troféu Redentor de Melhor filme do Festival do Rio de 2017, onde rendeu à brilhante Marjorie Estiano a láurea de Melhor Coadjuvante, o thriller sobrenatural de Juliana Rojas e Marco Dutra trouxe consigo lá da Suíça o Prêmio do Júri do Festival de Locarno e, lá da França, uma menção honrosa de Biarritz. E cada vitória foi justa e necessária, a julgar pela mandinga que o bruxo Poças (mais ousado fotógrafo ibérico da atualidade) faz com a Lua Cheia, tendo a atriz – e que atriz! – Isabél Zuaa como cavalo para uma pombajira de múltiplas encruzilhadas. Diz o Caetano que, enquanto seu lobo não vem, “vamos passear na floresta escondida, meu amor; vamos passear na avenida; vamos passear nas veredas, no alto, meu amor; há uma cordilheira sob o asfalto”. E, de fato, enquanto o licantropo de garra afiada, boca grande e olho grande vivido pelo ator mirim Miguel Lobo (um achado!) não entra em cena, essa é a travessia que fazemos levados pela mão dos diretores Juliana Rojas e Marco Dutra. Os dois demonstram aqui uma evolução – exponenciada ao risco e ao amadurecimento – da água para o Brunello Di Montalcino numa comparação com o longa de estreia em duo de ambos: o gramsciano “Trabalhar Cansa” (2011).

Numa estética de garoa fabular, na raia das narrativas mágicas, “As Boas Maneiras” tem uma metafísica que parece incompatível com o engenho do terror, capaz de evocar o misticismo suarento de Apichatpong Weerasethakul (e a selva ontológica de seu “Tio Boonmee”) a cada plano, em dois hemisférios nos quais uma aspirante a babá, Clara (Isabél), passa de personagem a pessoa. O primeiro deles, ao norte, frio, porém taquicárdico, acompanha a entrada de Clara num mundo (supostamente) de altíssima classe média, no qual uma jovem grávida cheia de cicatrizes afetivas, Ana (Marjorie Estiano), requer ajuda para cuidar de seu bebê. Tem um troço esquisito que se passa com ela quando a Lua Cheia reina nos Céus. Algo ligado a uma insaciável sede de sangue e a um sonambulismo quase walking dead.

Aos poucos, o sucesso de Clara faz com as mulheres – a sequência da cantada nela dada pela usina nuclear cênica chamada Gilda Nomacce é digna de aplausos – se reproduz na casa da patroa. Ana se deixa a atrair pelo cheiro de Clara. Dali, beijos e amassos rolam. Isso até o neném chegar, num engatinhar de sensualidade e mistério que a montagem de Caetano Gotardo equilibra com maestria. Aí começa o hemisfério dois, mais ao sul do Equador, quente como o ódio e o amor de mãe (os extremos aqui se comungam). Mas desse hemisfério é melhor não se falar muito, para evitar revelações formalistas e não estragar “a” Revelação deste bem torneado thriller de assombro. Minuto a minuto, Juliana e Dutra fazem valer a vocação do terror num torvelinho de inquietudes que vão do existencial ao perigo físico, esculpindo mulheres com couraças de titânio e cenas de esvaziar o fôlego do peito. E o fazem – amparados no fotômetro de Poças e na direção de arte de Fernando Zuccolotto – sem perder uma finesse que, no filão do horror, talvez só Dario Argento tenha – aliás, evoca muito uma das joias dele, “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970). É provável que, desde “SuperOutro” (1989), o Brasil não tenha se arriscado tanto no inusitado quanto esse par de cineastas faz aqui. E o lobisomem é bem feito mesmo. Dá medo mesmo. Coisa de adulto…
Ainda falando de Canal Brasil, este sábado à noite tem “Mussum, Um Filme do Cacildis”, de Susanna Lira na programação, às 19h45.

p.s.: Ainda acerca de programação de TV, o “Domingo Maior” deste 22/3, às 23h20, exibe “A Família” (“Malavita”, 2013), um dos melhores filmes de Luc Besson, com Michelle Pfeiffer e Robert De Niro como um casal mafioso.

p.s. 2: Quer uma opção de leitura boa nestes dias de quarentena? Corre pro nº1 de “Demolidor”, com roteiro de Chip Zdarsky e arte de Chip Zdarsky, Lalit Kumar Sharma e Marco Checchetto. Só a sequência inicial, de Matt Murdock em uma transa casual, que ocorre em paralelo à lembrança de uma batalha malfadada, já vale a aquisição do quadrinho.

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