‘As Boas Maneiras’ de se fazer uma obra-prima do terror

‘As Boas Maneiras’ de se fazer uma obra-prima do terror

Rodrigo Fonseca

05 Junho 2018 | 13h46

Rodrigo Fonseca
Neste momento em que as atenções cinéfilas estão voltadas para o terror, na forma do triller de Suspiria, o remake de Luca Guadagnino fez do giallo dei gialli, pilotado por Dario Argento em 1977, um filme brasileiro de lobisomem uiva para a Lua atrás de sucesso: As Boas Maneiras estreia nesta quinta-feira digno do adjetivo “obra-prima” em sua apresentação. Há nele uma precisão narrativa cirúrgica no exercício da tensão… na conversação com cartilhas clássicas (Sangue de Pantera) e modernas (Grito de Horror) do gênero sinistro no qual foi gerado… na edificação de viradas. Rui Poças assina sua fotografia, cheia de marcas expressionistas, desta produção de DNA paulistano coroada com 21 prêmios no Brasil e no exterior.

Consagrado com o troféu Redentor de Melhor filme do Festival do Rio de 2017, onde rendeu à Estrela de Belém Marjorie Estiano a láurea de Melhor Coadjuvante, o thriller sobrenatural de Juliana Rojas e Marco Dutra trouxe consigo lá da Suíça o Prêmio do Júri do Festival de Locarno e, lá da França, uma menção honrosa de Biarritz. E cada vitória foi justa e necessária, a julgar pela mandinga que o bruxo Poças (mais ousado fotógrafo ibérico da atualidade) faz com a Lua Cheia, tendo a atriz – e que atriz! – Isabél Zuaa como cavalo para uma pombajira de múltiplas encruzilhadas. Diz o Caetano que, enquanto seu lobo não vem, “vamos passear na floresta escondida, meu amor; vamos passear na avenida; vamos passear nas veredas, no alto, meu amor; há uma cordilheira sob o asfalto”. E, de fato, enquanto o licantropo de garra afiada, boca grande e olho grande vivido pelo ator mirim Miguel Lobo (um achado!) não entra em cena, essa é a travessia que fazemos levados pela mão dos diretores Juliana Rojas Marco Dutra. Os dois demonstram aqui uma evolução – exponenciada ao risco e ao amadurecimento – da água para o Brunello Di Montalcino numa comparação com o longa de estreia em duo de ambos: o gramsciano Trabalhar Cansa (2011).

Estrela de Belém do cinema nacional, Marjorie Estiano seduz Isabel Zuaa

Numa estética de garoa fabular na raia das narrativas mágicas, As Boas Maneiras tem uma metafísica que parece incompatível com o engenho do terror, capaz de evocar o misticismo suarento de Apichatpong Weerasethakul (e a selva ontológica de seu Tio Boonmee) a cada plano, em dois hemisférios nos quais uma aspirante a babá, Clara (Isabél), passa de personagem a pessoa. O primeiro deles, ao norte, frio, porém taquicárdico, acompanha a entrada de Clara num mundo (supostamente) de altíssima classe média, no qual uma jovem grávida cheia de cicatrizes afetivas, Ana (Marjorie Estiano com ares de Nicole Kidman), requer ajuda para cuidar de seu bebê. Tem um troço esquisito que se passa com ela quando a Lua Cheia reina nos Céus. Algo ligado a uma insaciável sede de sangue e a um sonambulismo quase walking dead. Aos poucos, o sucesso de Clara faz com as mulheres – a sequência da cantada nela dada pela usina nuclear cênica chamada Gilda Nomacce é digna de ser adotada – se reproduz na casa da patroa. Ana se deixa a atrair pelo cheiro de Clara e beijos e amassos rolam. Isso até o neném chegar, num engatinhar de sensualidade e mistério que a montagem de Caetano Gotardo equilibra com maestria.

Aí começa o hemisfério dois, mais ao sul do Equador, quente como o ódio e o amor de mãe (os extremos aqui se comungam). Mas desse hemisfério é melhor não se falar muito, para evitar revelações e não estragar “a” Revelação deste bem torneado thriller de assombro: minuto a minuto, Juliana Dutra fazem valer a vocação do terror num torvelinho de inquietudes que vão do existencial ao perigo físico, esculpindo mulheres com couraças de titânio e cenas de esvaziar o fôlego do peito. E o fazem – amparados no fotômetro de Poças e na direção de arte de Fernando Zuccolotto – sem perder uma finesse que, no filão do horror, talvez só Dario Argento tenha – aliás, evoca muito uma das joias dele, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970). É provável que, desde SuperOutro (1989), o Brasil não tenha se arriscado tanto no inusitado quanto esse par de cineastas faz aqui. E o lobisomem é bem feito mesmo. Dá medo. Coisa de adulto…