As boas do Festival do Rio 2019

As boas do Festival do Rio 2019

Rodrigo Fonseca

08 de dezembro de 2019 | 11h41

RODRIGO FONSECA
Eis as boas do Festival do Rio 2019, que arranca nesta segunda, com “Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig, e vai até o dia 19.
Retrato de uma jovem em chamas, de Céline Sciamma: Laureado com o prêmio de melhor roteiro em Cannes, este caudaloso ensaio sobre a paixão, ambientado na França de 1770, faz um pleito em prol da liberdade de expressão artística, de carona na relação amorosa entre uma pintora (Noémie Merlant) e uma jovem que tem um casamento arranjado – papel da genial Adèle Haenel. A fotografia traz uma intensidade fervente para o clima suarento em que as duas se envolvem.
Primeiro amor, de Takashi Miike: Batizado originalmente de “Hatsukoi”, o novo thriller do Quentin Tarantino do Japão acompanha o empenho de um pugilista fragilizado por uma doença terminal para ajudar uma jovem acossada por delírios persecutórios num embate contra uma guerra de gangues. As cenas de ação exuberantes surpreenderam mesmo os fãs do prolífico cineasta. “Eu me inspiro muito nos clássicos de samurai de Kurosawa, ainda que eles já não sejam mais um objeto de estudo para as novas gerações no Japão. Mas meu empenho não está em roubar ideias de Kurosawa e sim em levar questões do presente, do meu mundo, para um universo que ele lapidou”, disse Miike ao P de Pop.
O filme do Bruno Aleixo, de João Moreira e Pedro Santo: O misto de urso e cachorro que virou febre na web numa série de curtas vindos de Portugal, onde joga “Street Fighter” com uma estátua, tem aqui um longa para chamar de seu. Nele, seus amigos vão ajuda-lo a preparar sua cinebiografia. Ou coisa assim.
Madre, de Rodrigo Sorogoyen: Vivendo uma fase de apogeu no streaming e na TV, o novo audiovisual da Espanha fincou a bandeira da excelência na mostra Orizzonti de Veneza, com o folhetim “Madre”, de Rodrigo Sorogoyen. É Douglas Sirk em versão “La casa de papel”. Um exercício rigoroso de estudo sobre fraturas afetivas. Sua trama? Uma mulher (Marta Nieto, laureada em solo veneziano por sua excelência) passa anos atrás do filho desaparecido. O guri some numa praia. Para encontra-lo, ela monta um restaurante no local onde seu moleque foi visto pela última vez e, lá, trava amizade com um adolescente pimpão muito parecido com seu rebento.
Quarto 212, de Christophe Honoré: Chiara Mastroianni ganhou o primeiro (e até agora único) prêmio de interpretação de sua carreira por seu trabalho transbordante como uma advogada que se vê às voltas com o término de seu casamento. A fim de assegurar uns dias a mais para seu afeto de ontem, ela se hospeda em um hotel em frente a seu apartamento – local onde esteve com seu (agora) ex pela primeira vez. Mas algo de mágico vai ocorrer, aproveitando a maturidade de Honoré como realizador – coisa que demorou a acontecer.
Veneza, de Miguel Falabella: Desenhada com a luz mais bonita da carreira de Gustavo Hadba como fotógrafo, Carmen Maura nos encanta no papel de Gringa, cafetina que trocou a paixão de sua vida por $. O preço por sua escolha vem na forma de uma cegueira e do desejo de ir atrás de seu amado. Dira Paes está em estado de graça, como a garota de programa n.1 de Gringa, assim como Carlo Castro, laureada em Gramado com o Kikito de melhor coadjuvante por seu desempenho digno de Anna Magnani.
Zombi Child, de Bertrand Bonello: Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade.
Anna, de Heitor Dhalia: Um dos mais versáteis realizadores do país, o diretor de “O cheiro do ralo” (2006) investiga o universo do teatro, narrando os conflitos entre uma atriz e um encenador nos bastidores de uma montagem de “Hamlet”.
Sinônimos, de Nadav Lapid: Urso de Ouro de 2019, a cruzada de Yoav (Tom Mercier) para enterrar seu passado de israelense e se reinventar como francês, amparado por um dicionário, é uma explosiva reflexão sobre identidade de nação, construído de maneira resfolegante.

Nas apostas do que ainda está por vir, o coração bate forte de curiosidade por “O caso Richard Jewell”, no qual Clint Eastwood revê a dura situação de um segurança (Paul Walter Hauser), que impediu um atentado em Atlanta, em 1996, mas foi injustamente acusado de ser um dos autores do ataque terrorista. Kathy Bates, Jon Hamm e Sam Rockwell estão no elenco. Mas o P de Pop fareja potência em “Doidos de pedra”, documentário de Luiz Eduardo Ozório, sobre a agitação cultural de uma comunidade artística em Pedra de Guaratiba, nos anos 1960. Luiz Kiko, imparável guerreiro do audiovisual, é um dos responsáveis por essa produção que promove um mergulho afetivo ao passado e discute questões ambientais essenciais. E algo nos diz que “M8 – Quando a morte socorre a vida”, com o sempre surpreendente Juan Paiva, pode dar o Redentor a Jeferson De (“Bróder”), hoje em momento de apogeu como realizador.

Tendências: