‘ARTE’, uma série a sério sobre o ato de criar

‘ARTE’, uma série a sério sobre o ato de criar

Rodrigo Fonseca

11 de dezembro de 2020 | 11h38

RODRIGO FONSECA
Resistir é o verbo de ação que costura os papos em duos da série documental “ARTE: Atravessando a Pandemia”, um projeto estruturado por Rod Carvalho e Emanuel Orengo, tendo ainda Cavi Borges e Paulo Henrique Fontenelle entre as cabeças de criação. Em busca de um canal de TV ou de uma plataforma de streaming, o projeto se estrutura a partir de uma conversa entre um par de áses de diferentes saberes artísticos falando de processos criativos e de resiliência em relação ao atoleiro gerado pela Covid-19. O episódio piloto, de 28 minutos, é um mimo tanto em sua porção jornalística quanto em sua plasticidade cinematográfica. Nele, os realizadores armam um papo entre dois expoentes das artes plásticas, de gerações distintas: de um lado, vem Carlos Vergara, gravador, fotógrafo e pintor; do outro, Maxwell Alexandre, eleito como um dos 30 jovens artistas mais promissores pela conceituada plataforma ARTSY.
Na entrevista a seguir, Carvalho e Orengo respondem em conjunto, a uma só voz, ao P de Pop como o projeto foi estruturado.

Qual é o sentido de se fazer arte neste momento de tanta incerteza e como o Brasil vem reagindo em múltiplos campos?
Diante do acúmulo de incertezas provenientes do isolamento, do maior tempo ocioso, da falta de trabalho, dos problemas de descaso e corrupção na saúde, na ausência de perspectivas, no acirramento de questões políticas e principalmente na dor da perda de entes queridos, a Arte voltou a ter sua importância percebida. Casos e mais casos foram noticiados no mundo em que vizinhos compartilhavam a dor, a compaixão, o apoio e o acalento por meio das canções e dos instrumentos de músicos em suas janelas, reverberando cumplicidade e força por meio da música. Isso sem contar as lives musicais internacionais e principalmente BRASILEIRAS, que explodiram nas plataformas e redes sociais e – como mostramos nesse episódio – as criações geradas por esse momento imprevisível. Nesse período, o consumo de novelas, documentários, filmes e séries foram elevados. Essa procura por alguma forma de diversão e entretenimento, trouxe consigo uma reflexão sobre nós e sobre os outros frente à sociedade. As cores e poesias de artistas serviram como um remédio para a alma nesses tempos sombrios e nesses dias cinzentos. Arte como sempre trouxe beleza, abstração, felicidade e sonhos. Como seria nosso cotidiano e realidade sem uma música para ninar ou dançar? Sem um quadro pintado na parede? Na ausência de uma lembrança proveniente de uma bela fotografia? Numa história para ver e ouvir? Numa ilustração em sua camisa? Não há dúvidas de que, na inexistência da Arte, viveríamos na escuridão de nossa consciência. Isso tudo, então, deu pra gente a base para criar a narrativa dessa série para mostrar que o mundo sem arte é um mundo sem alma. O valor dela é, e sempre será, inestimável.
O que o papo Maxwell + Vergara te deu de mais precioso em relação a esse período histórico?
Eles trouxeram uma reflexão sobre o encontro, sobre o ser social que somos e sobre a necessidade que temos de nos comunicar, de nos entender, de nos relacionar e de perceber que não estamos a sós neste momento. As angústias que muitos sentem nesse período histórico são superadas e transformadas nas mãos desses artistas em algo bom, belo e que seja o oposto da dor. O olhar e o pensamento dos artistas nos faz também voltar a perceber as sutilezas da vida que deixamos passar, que são esquecidas frente a uma forma objetiva e diminutiva da realidade. Uma lembrança, um cheiro, uma troca de olhares, de carinho e de contato físico também fazem parte de nossa essência e na nossa construção de subjetividade e constituição como seres humanos.

Maxwell Alexandre e Carlos Vergara falam sobre artes plásticas no episódio piloto da série, que prima por um capricho visual inegável

Que novos artistas estão no escopo de vocês?
Surgiram alguns nomes como o do Bruno Big (Artista Grafite), Sher Santos (Fotografia), Chico Chico ( Música), entre outros. Mas, acabamos abrindo o leque no sentido de que não precisam ser exatamente pessoas consagradas com pessoas ainda não tão conhecidas do público em geral, mas, também, duplas de personalidades que não se conhecem muito bem e estão se reinventando/ criando nessa pandemia, como por exemplo Seu Jorge/ Arnaldo Brandão, Selton Mello/ Raphael Logam, Frejat/ Teresa Cristina. Vale o arranjo que possa render uma ótima conversa e um encontro inédito como foi o do Maxwell com o Vergara. Eles só tinham se encontrado uma vez, quando o Vergara foi numa exposição do Maxwell e trocaram algumas palavras.
p.s.: Está no ar a campanha de financiamento coletivo que vai beneficiar patrimônios culturais, materiais e imateriais, de todo o país. O Matchfunding Edição Lab, da Benfeitoria e BNDES, é voltado para projetos que queiram utilizar a internet como ferramenta para extrapolar as fronteiras físicas de contato e interação do público com os patrimônios. Para cada real doado, o banco entra com mais dois reais. As inscrições ficam abertas até 18/12, no site da Benfeitoria.

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