Aronofsky volta pacificado… produzindo

Aronofsky volta pacificado… produzindo

Rodrigo Fonseca

23 de setembro de 2019 | 10h30

Darren Aronofsky (com a câmera) produz “Pacificado”, rodado nas periferias do RJ


RODRIGO FONSECA
Intrigante é a conexão entre o diretor americano Darren Aronofsky e a representação da vida nas periferias cariocas – um link inusitado que os espectadores da Espanha vão conhecer antes do Brasil, já nesta terça-feira. É o realizador de “Cisne Negro” (2010) quem produz esse experimento EUA-RJ, chamado “Pacificado”, junto com Paula Linhares e Março Tellechea. Ninguém sabe ao certo o que esperar desse longa-metragem, encarado na Europa como o filme brasileiro da competição pela Concha de Ouro de 2019 no 67º Festival de San Sebastián, com estreia aqui nas telas bascas no dia 24 de setembro: só se sabe que o Rio de Janeiro é seu cenário. Estrelado pelo sempre genial Shirley Cruz (a Gláucia da novela “Bom Sucesso”), por José Loreto e por Débora Nascimento, além de um elenco de talentos egressos de periferias do RJ, o tal “Pacificado” foi filmado em solo carioca pelo diretor, jornalista e cinegrafista americano Paxton Winters. Na trama, que foi gestada numa troca entre Winters e a população do Morro dos Prazeres, uma menina de 13 anos tenta reestabelecer seu vínculo afetivo com o pai, um ex-presidiário. E seu produtor, Aronofsky, anda sumido do circuito há dois anos, desde a joia “mãe!”, indicada ao Leão de Ouro de 2017.

Em tempos de “Midsommar”, uma aeróbica metafísica como “mãe!” coroa com os louros da autoralidade um momento de apogeu do terror como catarse dos esgotamentos e das falências morais do mundo contemporâneo. Em épocas de conflito armado ou ameaça de guerra, a comédia é o que mais desponta. Mas quando o esfacelamento das potências – e das harmonias globais – vem pela economia, o resultado estético são as trevas. A crise da bolsa de Nova York em 1929, por exemplo, gerou, como saldo de seu crack, uma nova forma de grand guignol (de teatro de horrores), agora audiovisual, chamada “filme noir”, na qual a escuridão dos becos e submundos se refletia no tenebrismo das almas, entre heróis ambíguos e femme fatales. Agora, com o crack financeiro nas Américas, piorado pelo “bolsonarismo” de Donald Trump, o grand guignol é das lugar a fantasmagorias, a assombrações nas quais o virtual institucionaliza a loucura e rasga as cartas de direitos das virtudes. É o que vemos no delirante regresso de Aronofsky (de “O Lutador”) à direção, com o amparo do Velho Testamento como seu calço num espetáculo dramatúrgico de quiprocós vestidos de paranoia.

Cronista do excesso, especializado em figuras exuberantes cujo viço é comprometido pela desmesura – seja de drogas, como em “Réquiem Por Um Sonho” (2000); seja de esperança no amor, em “A Fonte da Vida” (2006); seja na perfeição, como em “Cisne Negro”; seja na Fé, o que era o caso de “Noé” (2004) –, Aronofsky faz da Sagrada Escritura e dos escritos do Talmude seus prismas de entendimento do mundo. Poucos realizadores de hoje – talvez só Terrence Malick – gravitam tanto pela esfera messiânica do Absoluto quanto ele. Há filmes mais da ordem da carne, como o já citado “The Wrestler”, pelo qual ele ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 2008. E há filmes de um simbolismo transbordante, caso de “mãe!”, em que a sempre superestimada Jennifer Lawrence enfim faz jus ao prestígio de que goza, por encarnar uma versão humana da Tradição. Entenda Tradição como a soma das virtudes que balizam positivamente as ações humanas, como a maternidade. Na trama, em forma de oroboro (a serpente que devora o próprio rabo), ela é só uma menina, sem nome, casada com um escritor de alto quilate (Javier Bardem, sublime, como sempre), que estranha o descaso dele para com suas opiniões e seu desejo. Há uma aura de aparente machismo e desdém, que se incrementa com a chegada de um casal de potenciais vizinhos, vividos por um vetusto Ed Harris e por uma mefistofélica Michelle Pfeiffer. Eles se instalam na casa de Jeniffer e Javier e, aos poucos, levam a moça a devorar a maçã da curiosidade, levando-a a penetrar por espaços interditados do Éden de concreto que assumiu como lar. Aos poucos, mais pessoas aparecem, o que deflagra uma série de rituais soturnos, da brutalidade ao canibalismo, que só se exponenciam, incontroláveis, nos 40 minutos finais. Uma espécie de micareta macabra sintetiza naquele lar a Babel das nossas tolerâncias, todas de pavio curto, que, acesos frente ao desamparo de uma força maior, ateiam fogo num paiol de egos, de incongruências, de paganismos afetivos. A fotografia de Matthew Libatique lê aquele pandemônio por filtros ocres e amarronzados, sem a clareza da iluminação. Como “Pi” (1998), filme pilar do diretor, mãe! é um berro histérico de alerta sobre o nosso descontrole. Um grito dionisíaco: imperfeito, mas obrigatório. Ou seja… é Aronofsky no estado bruto. No Brasil, Luiz Carlos Persy, um dos maiores dubladores do Brasil, empresta a voz a Bardem. A ótima Mariana Torres é a dubladora de Jennifer no país.

A aposta desta segunda em San Sebastián foi “The other lamb”, da diretora polonesa Malgorzata Szumowska (de “Body” e “Mug”), centrado nos feitos de uma seita religiosa. Egresso do Festival de Toronto, o projeto marca a estreia da cineasta em língua inglesa, numa trama com forte influência (visual e dramatúrgica) de Lars von Trier, sobre um grupo de mulheres que formam uma congregação religiosa sob o comando de um fundamentalista chamado de Pastor (vivido por Michiel Huisman). Quando uma das fiéis, a jovem Selah (Raffey Cassidy) entra em fase menstrual, os poderes sexistas do Pastor são postos em xeque. “O fundamentalismo é uma questão que me instiga. O desafio maior desse longa, filmado na Irlanda, foi driblar o frio”, disse Malgorzata ao JB.

Até o momento, no evento, que abriu as portas na sexta-feira, o longa em concurso com maior carinho dos críticos é “Próxima”, da francesa Alice Winocour (de “Augustine”), no qual Eva Green vive uma astronauta com conflitos em um planeta não muito distante, chamado Maternidade. O evento termina neste sábado.

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