‘Army of the Dead’: o ‘Apocalypse Now’ zumbi

‘Army of the Dead’: o ‘Apocalypse Now’ zumbi

Rodrigo Fonseca

22 de maio de 2021 | 12h22

Richard Cetrone vive Zeus, um zumbi inteligente que lidera os mortos de “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas”: já está na streaminguesfera o primeiro monstro da Era Joe Biden

Rodrigo Fonseca
Calçado em figuras femininas que transbordam vigor, sem cair em qualquer esquematismo, exultando tridimensionalidades afetivas, como a piloto Marianne, esculpida em mármore por Tig Notaro, “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas” flui crescente, ao longo de seus 148 minutos de dor, de susto e de balas ricocheteando em mesas de jogo, com direito a um ápice de poesia. Num dado momento de perseguição, um arrombador de cofres de jeitão Odara, Dieter (o ótimo Matthias Schweighöfer, dublado à perfeição por Wirley Contaifer), opta por um gesto nobre, fora da caixinha de autoproteção em que optou por viver, para ajudar um colega de missão, o impávido Vanderohe (Omari Hardwick), que o hostilizou muitas vezes. A índole de Vanderohe é a guerra, no filme escrito e (muito bem) dirigido por Zachary Edward Snyder, hoje no ar na streaminguesfera. Já a índle de Dieter é a marola da paz e do amor. Mas um vai modificar o outro numa cruzada por tostões, aos milhões, numa narrativa de vertigem e de estudo social. Dieter e Vanderohe formam um afluente de amizade, a mais pura e leal, no leito de um rio em que Snyder se põe à prova (mais uma vez, em sua bem-sucedida carreira) o tempo todo, a fim de reciclar um filão que nasceu alarmista, no fim dos anos 1960 – o filme de zumbi –, dando a ele um componente de melodrama vívido. É o segundo acerto do diretor em 2021, uma vez que seu “Liga da Justiça de Zack Snyder” – criado a partir do filme de 2017 que ele não teve como concluir – virou um fenômeno de audiência na streaminguesfera, a partir de março, ao sair na HBO MAX. O mesmo se espera agora de seu atual trabalho, engatado na grade da Netflix, e produzido a um custo estimado em US$ 70 milhões. Em poucas horas na web, o frenético longa-metragem já arrancou aplausos para Hardwick e Schweighöfer e vem ampliando a star quality da mexicana Ana de la Reguera, excepcional em cena, no papel de Maria Cruz, integrante da tropa de soldados da fortuna que invadem a pátria dos cassinos. Fotografado pelo próprio Snyder com especial apreço pelos tons de vermelho, como já uma peculiaridade plástica dele, “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas” é uma espécie de “Apocalypse Now” do cinema de zumbi – pela força de sua carpintaria e pela dimensão política de sua investigação sobre os EUA – o que vem justificando os aplausos ao diretor planeta afora. É “filme de zumbi” pra quem gosta de “filme de zumbi” e também pra quem detesta “filme de zumbi”, da mesma forma como foi seu “Madrugada dos Mortos” (2004). Foi ali – ao faturar US$ 102 milhões com um longa orçado em US$ 26 milhões – que ele despertou a atenção de Hollywood para o seu domínio absoluto das cartilhas de ação e por sua habilidade de renovar um gênero que veio de George A. Romero (1940-2017), a partir de seu seminal “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), mas que parecia esgotado nos códigos de seu criador. Todos os longas dessa linhagem – à exceção de “Extermínio” (“28 Days Later…”, 2002), de Danny Boyle, e de “Guerra Mundial Z” (“World War Z”), de Marc Forster – são uma xerox da matriz Romero, que se impôs na história como derivação (macabra) do cinema catástrofe dos anos 1950. Coube a Snyder provar que ainda havia sumos frescos a serem extraídos daquele limão, preservando o que nele havia de mais cítrico em seu olhar sobre as (im)posturas americanas de governo e de levante econômico.

Atento ao desastre reverberante desde o 11 de Setembro, Snyder recauchutou essa seara do terror ao reaproveitar a premissa do próprio Romero, aplicada em “Despertar dos Mortos” (1978) – na qual um grupo de pessoas se vê acossada num prédio, por cadáveres ambulantes – e deu a ela uma dinâmica adequada à prosódia cinéfila dos anos 2000. E deu mais: adicionou um toque autoralíssimo, que virou seu registro, ao inserir um certo catastrofismo, numa percepção de que mesmo o mais nobre dos empenhos heroicos pode tender ao fracasso. Essa mesma marca volta em seu novo filme, que independe do legado de Romero, apoiado em um roteiro (de desenvolvimento impecável em suas viradas e em suas reflexões sociológicas) escrito pelo próprio cineasta, a partir de um argumento dele mesmo, em parceria com Shay Hattene Joby Harold. Como no longa que deu holofotes a seu nome, Snyder usa a histeria de carniças que andam, famintas, como metáfora para o capitalismo canibal à nossa volta, com o diferencial aqui de que ele parece ter feito o filme mais adequado ao fim da Era Trump. Seus zumbis lembram os trumpistas que invadiram o Capitólio, em janeiro. São hienas que não querem largar a carne de um mundo em mutação. É difícil olhar pra Zeus (Richard Cetrone) – o macho alfa dos zumbis, capaz de pensar e de se proteger com um elmo de elmo, pra não ser alvejado na cabeça – sem pensar em Jake Angeli, o líder do grupo pró-Trump que foi lutar pela permanência de seu (ex-)líder usando um cocar de chifres de búfalo. Além de gerar essa evocação, a figura de Zeus é um achado, pois avançar, e muito, a representação dos mortos-vivos no cinema, configurando-se como um monstro singular (e assustador). O primeiro grande monstro da Era Joe Biden.
Mas apesar de o assombro que Zeus causa, o longa é menos linkado ao horror, aproximando-se mais de thrillers de ação híbridos, como “Aliens, o Resgate” (1986), de James Cameron. A tal Maria Cruz, de Ana de la Reguera, é sua Ripley, interpretada por uma quase Sigourney Weaver. Maria entra na trama por amor àquele que é o real astro de “Army of the Dead: Invasão em Las Vegas”: Dave Bautista, o Drax de “Guardiões da Galáxia”. A versão brasileira dele, feita por Mauro Ramos, é uma aula de dublagem como, há tempos, não se ouvia. Mauro se supera, em um trabalho de interpretação vocal formidável.

Ana de la Reguera é uma aspirante a Sigourney Weaver, com um talento em ebulição

Como protagonista, Bautista empresta à figura clássica do OMAC (One Man Army Combat, o Exército de um Homem Só, à la Rambo) uma esbagaçada fragilidade. A ressaca do mercenário Scott Ward, papel que Bautista edifica com maturidade invejável, reflete a própria condição existencial de Snyder. O medo do personagem é o medo de perder sua filha, Kate (Ella Purnell) pra praga que encheu a capital estadunidense da jogatina de mortos que devoram pessoas. Uma premissa dessas, vinda de um realizador que perdeu a filha num processo de filmagem – um de seus rebentos, a jovem Autumn, cometeu suicídio enquanto “Liga da Justiça” era rodado – não é por acaso, e reverbera pela trama, ampliando o humanismo. E não é só aí que Snyder se desnuda.

Zack Snyder opera a câmera nos sets de filmagem

Egresso de videoclipes de Rod Stewart, Morrissey e My Chemical Romance, Snyder criou uma série de assinaturas personalíssimas em sua direção, não apenas no ritmo acelerado de seu planos e na sua aposta em tons ocres (vermelhos e marrons) em situações mais passionais e trágicas. Mas a marca mais pessoal de sua “escrita fílmica” está em seu niilismo inato. Desde seu “Madrugada dos Mortos”, ele se fez notar como uma espécie de profeta da lógica niilista em Hollywood. Seus filmes refutam finais felizes e contestam a soberania da Bondade nas narrativas, pois cada the end filmado por ele carrega em si uma centelha de desesperança, uma percepção de que herói é aquele que precisa ser imolado, o Cordeiro de Deus a sangrar pelo pecado do Homem e pela vaidade de Titãs. Foi assim em “300” (2007), com cabeças a rolarem pelas Termópilas; era esse o destino de Roschach em “Watchmen” (2009); deu-se o mesmo com as corujas falantes de “A Lenda dos Guardiões” (2010); e com as internas do manicômio de “Sucker Punch” (2011). Nem Kal-El ele livrou de ter de sujar as mãos em “Homem de Aço” (2013). Lá, longe da égide paladina do “Superman” de Richard Donner, de 1978, com Christopher Reeve, o bom moço máximo das HQs foi forçado a matar para nos salvar da fúria de seu algoz, Zod. Não por acaso, no meio de “Batman Vs. Superman” (2016), Kal-El profetiza: “Nem tudo permanece bom!”. Ele tem razão: na América sobre a qual Snyder fala, as virtudes do altruísmo viraram tão irreais e impalpáveis como os quadrinhos… ou como os mortos que andam. Snyder levou alma ao pop, deu espírito aos zumbis e dá, agora, uma aura autoral à grade da Netflix que injeta potência cinemática aos streamings. É um dos melhores filmes do ano… de longe.

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