Ardentemente Fanny

Ardentemente Fanny

Rodrigo Fonseca

22 de novembro de 2020 | 14h05

Fanny Ardant e François Truffaut (1932-1984): saltitantes companheiros na arte e no amor

Rodrigo Fonseca
Eternamente lembrada pelas vísceras existenciais que compartilhou com plateias do mundo todo em “A Mulher do Çado” (1981), Fanny Marguerite Judith Ardant tem dois filmaços neste Festival Varilux, em cartaz até o dia 3 de dezembro em 89 salas de exibição de 42 cidades do Brasil, com o apoio da Unifrace, o órgão responsável por dar suporte e visibilidade a criações audiovisuais da França. Ela brilha sob a direção de Maïwenn em “DNA” (“ADN”) – delicado drama sobre afirmação da identidade argelina – “La Belle Epoque”, um fenômeno popular de Nicolas Bedos, visto por um milhão de pagantes. “Trabalhar é ter prazer. Mas para saber preservar este prazer é necessário valorizar o que temos em nosso lar, nossa família. E é bom saber conhecer e valorizar os mundos aos quais o cinema nos leva. Fui a São Paulo, a trabalho, e vivi uma experiência acolhedora”, disse Fanny ao P de Pop em Paris, durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em janeiro. “Eu gosto de filmes sobre tensões familiares em parte porque eu tenho uma conexão muito forte com minhas filhas e todos os meus parentes. Sou protetora, gosto de ter todo mundo perto e iria até às últimas consequências para resguardar quem eu amo”.

“DNA”, de Maïwenn, foi ovacionado em San Sebastián

Chancelado com a Palma de Cannes, “DNA” traz Fanny num papel pequeno, mas crucial para a saga de autodescoberta empreendida pela protagonista Neige, vivida pela própria Maïween, em seu trabalho mais maduro. Sua sessão no Festival de San Sebastián foi ovacionada. Na trama, Neige, divorciada e mãe de três crianças, visita regularmente Emir, seu avô argelino, vivendo agora num asilo para idosos. Ela adora e admira aquele que exerce o papel de sustentáculo da família. Seu vô foi o homem que a criou e que protegeu-a da atmosfera tóxica do relacionamento entre seus pais. As relações entre os muitos integrantes da família são complicadas e a morte do avô acabará por desencadear uma tempestade entre essas figuras já fraturadas. O luto leva Neige a buscar suas raízes. “São as histórias de amor que nos constituem. E a primeira experiência de amor que vivemos é no seio da família… o amor protetor, por vezes conciliador. Por isso eu sempre me esforço para me manter próximo dos meus parentes. Quando eu faço um balanço da minha história, percebo que a Vida foi mais forte do que eu: foi ela quem me conduziu, quem me tirou de casa e me levou para o cinema, para a arte. Foi mais pelo sentimento do que pela razão. Entre num filme como ‘Conselho de Família’, de Costa-Gavras, menos por ambição comercial de estar num potencial grande sucesso e mais pelo desejo de conhecer as pessoas iluminadas que aquele renomado diretor apresentou para mim. A Arte sempre me deu grandes encontros, a começar da minha história com François Truffaut, que me ensinou muito, sobretudo sobre a disciplina de saber aprender e de saber me surpreender. Mas a vida nunca me afastou dos meus laços de afeto familiar. Pelo contrário…”.

Com sessão neste domingo no Rio, no Espaço Itaú, às 18h; no Estação NET Ipanema, às 19h45; no Knioplex Fashion Mall, às 20h; e no Estação Net Gávea, às 18h15, “La Belle Époque” é uma comédia romântica de arrancar suspiros e rendeu a Fanny o troféu César (o Oscar francês) de melhor atriz coadjuvante. Sua personagem, Marianne, mexe com as certezas Victor (Daniel Auteuil), um sexagenário desiludido, que vê sua vida ser transformada no dia em que Antoine (Guillaume Canet), um empresário brilhante, propõe a ele um novo tipo de atração: combinando recursos teatrais e reconstituição histórica, sua empresa oferece aos clientes uma imersão na época da sua preferência. Victor opta, então, por reviver a semana mais marcante da sua vida: aquela em que, 40 anos antes, ele encontrou o seu grande amor. “Os belos dias são aqueles em que a gente luta para valorizar o que temos e o que somos”, disse Fanny ao Estadão em Paris. “O cinema me deu a oportunidade de dirigir filmes, em paralelo ao meu trabalho como atriz. E, como diretora, eu aproveitei muito do que colegas cineasta ensinaram a mim e a outras atrizes e atores: estar atento a tudo, fazer do set um processo coletivo de descobertas”.

Em 1974, Fanny, que crescera em Mônaco, engatou uma carreira no teatro. Sete anos depois de muitas imersões nos palcos, emprestou sua fina inteligência ao cinema, ao protagonizar “A Mulher do Lado”, tendo Gérard Depardieu (seu grande amigo e colaborador até hoje) como parceiro de cena, trabalhando sob a direção de Truffaut. Ela e o cineasta se apaixonaram, tiveram uma filha (Joséphine, em 1983) e fizeram mais um filme, “De Repente Num Domingo”, que rendeu a ela uma indicação ao César em 1984. Naquele mesmo ano, Truffaut morreu, em decorrência de um tumor no cérebro, deixando para trás um dos mais poéticos legados do cinema francês. Dele, Fanny guardou saudades e lições sobre como se comportar nos sets.
“Foi uma parceria forte e renovadora. A primeira vez que encontrei com ele para filmar ‘A Mulher do Lado’, ele me perguntou se eu tinha lido a sinopse do projeto e se tinha alguma questão sobre a personagem. Eu disse que não, sem demonstrar nenhuma dívida. Isso porque eu sentia que só no set, no corpo a corpo com a história, eu entenderia na inteireza o que aquele projeto representava. Ele percebeu aquilo e suspirou, pois a gente se entendeu ali naquele gesto. Aprendi com ele que, no cinema, você não pergunta, você sente. Você se abre para os sentimentos. E eu continuo a atuar buscando aquilo que me surpreenda. A gente vive para fugir do que existe de mais castrador na rotina. Aceito cada novo papel atrás desse sentimento de me deixar surpreender e de sair da inércia”.

“A Mulher do Lado” (1981)

Ícone de força feminina desde os anos 1980, Fanny chegou ao Rendez-vous de Paris na garupa de uma moto, ostentando anéis prateados em formato de serpente, incluindo uma medusa. As joias reforçam o encanto de sua figura, celebrada em uma participação memorável em “A Grande Beleza” (2013), de Paolo Sorrentino. “Gosto muito dessas figuras e do que elas simbolizam, não apenas sobre mim, mas sobre a França onde vivo. Fui roubada há a alguns anos e, desde então, as serpentes se tornaram um símbolo de proteção para mim. Um dia, levaram várias joias minhas. Desde então, comecei a usar as cobras nos dedos. A medusa está aqui por que é um ser mitológico que tem serpentes no lugar dos cabelos. Cobras ninguém me rouba. E prefiro prata a ouro, pois corta o Mal”, disse a mítica atriz, que já se firmou como realizadora, ao pilotar cults como “Cinzas e sangue” (2009) e “Candences Obstinés” (2013), no qual dirigiu o galã português Ricardo Pereira e o eterno Django Franco Nero. “Dirigir não chegou a mudar a minha forma de atuar, mas ampliou a minha percepção sobre companheirismo nos sets. Eu dirijo histórias que me fascinam por me conduzirem a mundos novos, diferentes dos meus. Encontrando uma história que me gere estranheza, eu aposto nela”.

Maior maratona de cinema francês das Américas, o Varilux – pilotado por Emmanuelle e Christian Boudier – tem 17 longas inéditos no cardápio, além de uma projeção celebrativa dos 60 anos de “Acossado”. Entre as opções obrigatórias, vale correr atrás das sessões de “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem: no RJ, tem exibição dele nesta segunda, às 16h30, no Estação Net Ipanema. O ator e realizador do memorável “Chocolate” (2016) faz neste feérico thriller uma releitura do cult brasileiro “O Invasor” (2001), de Beto Brant, assumindo o papel de Anísio (aqui chamado Moïse), celebrizado por Paulo Miklos no longa original, escrito por Marçal Aquino. Moïse é um assassino que se livra de um dos sócios dos donos de uma empreiteira, Maxime (Raphaël Personnaz) e Montero (Nicolas Duvauchelle, em brilhante atuação). Outra atração imperdível é “Slalom”, de Charlène Favier, que será exibido no Estação Casal Barra Point, nesta segunda, às 17h15. Com a fotografia mais sofisticada deste Varilux, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder, segundo Foucault, segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões e os desrespeitos de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).

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