‘Ar Condicionado’ desregula as CNTP do cinema

‘Ar Condicionado’ desregula as CNTP do cinema

Rodrigo Fonseca

19 de outubro de 2020 | 09h26

Filme angolano atraiu elogios em sua passagem pelo Festival de Roterdã

Rodrigo Fonseca
Conhecido cá por estas bandas pela obra de Zezé Gamboa (“O Herói” e “O Grande Kilapy”, com Lazinho Ramos) e pelo brilhante “Serpentário” (2019), o audiovisual angolano renova seus votos de invenção e sua conexão com os espaços de exibição do Brasil com Ar Condicionado”, que entra na grade do Cine Sesc de São Paulo (vide o Cinema #EmCasaComSesc), graças a uma parceria com a distribuidora Fênix, de Priscila Miranda. Esta anda comemorando a valer, e com mérito, a vitória na competição oficial do Festival de Stiges, em Barcelona (o maior do mundo no quesito fantasia e terror), de onde saiu com o prêmio de melhor longa documental por “Ivan, o TerrirVel”, de Mario Abbade, ainda inédito nestas bandas. No quesito fantástico, na seara do realismo fantástico ou mágico, muito explorado pelas ex-colônias das nações ibéricas, em um gesto de exorcismo do ranço exploratório do passado, o filme de Angola recém-chegado por aqui leva nota 10 com louvor. Não por acaso ele foi um ímã de elogios em sua passagem pelo Festival de Roterdã, na Holanda, no início do ano, onde seu realizador, Fradique (Mário Bastos), nascido em Luanda em 1986, saiu consagrado como uma das mais ousadas vozes d’África nas telas, no que envolve invenção, transgressão e mistério. O atual longa-metragem do diretor de “Kiari” (2007) e “Alambramento” (2011) se afina com um termo atualmente em voga nas franjas de risco das narrativas autorias que é o chamado “extra-ordinário”, verbete que substitui a noção clássica do “sobrenatural”. Foi o que se viu em bons filmes brasileiros de anos recentes como “Mormaço” (2018), de Marina Meliande, “A Febre” (2019), de Maya Da-Rin, “O Lodo”, de Helvécio Ratton, onde a Natureza manifesta sua inquietação com o fenômeno humano. Apoiado numa fotografia apolínea de um rigor cirúrgico, assinada por seu (co)roteirista, Ery Claver, o thriller social pilotado por Fradique tem algo de “O Inquilino” (1976), de Polanski, em seu olhar sobre os vetores do assombro ligados a um parque arquitetônico, com a diferença de que na Luanda desse jovem cineasta a claustrofobia é ditada por algo mais duro do que blocos de concreto. É o desnível de classes o que mais oprime seus personagens centrais: a doméstica Zézinha (Filmonena Manuel, num show de inteligência) e o segurança Matacedo (José Kiteculo, nos silêncios mais expressivos vistos na ficção este ano). Os dois são acossados e cobrados pela assombração de um Grande Irmão de bolsos cheios: um chefe que lhes cobra uma eficiência espartana no enfrentamento de uma “enfermidade” metafísica na região. A intriga de predestinação que une os dois é a percepção do mistério: sem qualquer razão lógica, os aparelhos de ar condicionado da capital começam a cair. Não existe um motivo para isso, mas existe um efeito no clima, que nos leva a uma imediata recordação do “Recife Frio” (2009), de Kleber Mendonça Filho. Os telejornais não param de anunciar uma transformação climática e Zézinha não cessa de reportar ao colega os desmandos do patrão. É um sinal de alerta para um país que está buscando equilíbrio em seus colapsos econômicos e seus desajustes na pirâmide de renda. Nada mais justo do que um fantasma aparecer aí, em forma de força de empuxo, o que leva Fradique a mapear as ruas interessado em inventariar as cicatrizes econômicas locais numa mirada documental (ressaltada em andanças nas ruas e jogos de dama com chapinhas de garrafa), mas sem abrir mão de estilizações que reforçam o fantasmagórico tom do enredo, expressas na queda fortuita dos aparelhos de ar em meio a diálogos sobre o cotidiano. No melhor deles, Matacedo diz “Se eu conseguir ao menos morrer deitado…” e Zézinha, sábia, retruca: “Deitados, todos vamos morrer. Triste mesmo é não ter ninguém que carregue o teu corpo”.

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