‘Aquaman’ de James Wan resgata a potência do herói nas bancas

‘Aquaman’ de James Wan resgata a potência do herói nas bancas

Rodrigo Fonseca

05 de julho de 2019 | 11h59

RODRIGO FONSECA
Cria das trevas, responsável pelas duas franquias que melhor assombraram as duas últimas décadas na seara do terror, como “Jogos mortais” e “Invocação do Mal”, James Wan assina a produção do atual sucesso “Annabella 3: De volta pra casa” (cuja receita beira US$ 85 milhões em uma semana em cartaz) e carrega no currículo a responsabilidade de ter repaginado um dos mais avacalhados vigilantes dos quadrinhos. Seu “Aquaman”, lançado em dezembro, teve uma receita estimada em US$ 1,1 bilhão, configurando-se como o maior faturamento da DC Comics desde a “Trilogia Batman”, de Christopher Nolan. De uma eficiência espartana na arte de assombrar, Wan foi contratado pela DC/Warner para dirigir a saga do senhor dos mares não apenas por sua artesania sofisticada ou por sua forte comunicabilidade com multidõe. A intimidade do realizador australiano (de DNA meio malaio, meio chinês) com a fantasia pesou. Era necessário alguém com o entendimento do que existe de subtexto fantástico… ou mais, de mágico… nas jornadas heroicas a fim de eliminar do Rei dos Mares toda a chacota em torno de sua figura. Chacota decorrente do desenho animado caricato estrelado por ele de 1967 a 1970 na rede CBS, com direito a cavalo marinho como montaria. É o domínio (crescente) de Wan sobre as narrativas da magia que torna esta aventura solo do super-herói  criado em 1941 (por Paul Norris e Mort Weisinger, na edição número 73 do gibi “More Fun Comics”) uma das pipocas mais saborosas de 2018, ano em que a Marvel reinou só, com “Pantera Negra” e “Vingadores: Guerra Infinita”. E graças a ela, hoje, a Panini Comics vê as edições especiais do super-herói nas bancas se esgotarem ou, no mínimo, mobilizarem os leitores, dado o apelo que o personagem angariou.


Vigilante marvete algum pode se queixar da verve heroica (e debochada… e abusada… e sexy) de Jason Momoa como Arthur Curry, o alter ego do legítimo Rei da Atlântida. Momoa é um poço de carisma, alinhado à incorreção política, salpicando provocação a uma narrativa que lembra “Excalibur”, de John Booman. A trama, supervisionada pelo editor e quadrinista Geoff Johns (de “Gavião Negro”), é pautada pela guerra ao trono do Reino Submarino. E é temperada pela marca autoral de Wan: seus filmes sempre se estruturam sob a lógica de alguém que produz o Mal por algum ato negligente (como se vê aqui na gênese do humanizado vilão Manta Negra), sobre formas de orfandade (Curry é abandonado pela mãe, Atlanna, vivida por Nicole Kidman, quando guri) e sobre manifestações de amor um tanto fora de época, assumidamente cafonas, como se vê no cinema romântico da Ásia. Há uma breguice explícita no enamoramento entre Aquaman e a princesa Mera (Amber Heard), assim como nas tramas melodramáticas paralelas, ligadas ao fato de o inimigo nº1 do protagonista ser seu irmão invejoso, Orm, o Mestre do Oceano, vivido por Patrick Wilson, ator xodó de Wan. A explícita cafonice personaliza o filme como fábula, sem diluir a injeção de adrenalina que o diretor aplica no roteiro a cada virada, com sequências de ação de rigoroso apuro plástico (sobretudo a luta de Atlanna nos minutos iniciais). Repleto de bons atores, incluindo Willem Dafoe como Vulko (o Paulo Guedes da Atlântida), o longa-metragem ainda repagina o astro brucutu Dolph Lundgren, perfeito no papel do Rei Nereus.
Nas cópias em versão brasileira, um dos melhores dubladores do país na atualidade, Francisco Júnior, dá voz a Aquaman.

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