Aprendizagem de Clarice no palco da Laura Alvim

Aprendizagem de Clarice no palco da Laura Alvim

Rodrigo Fonseca

19 de junho de 2022 | 11h36

Melise Maia e Rafael Queiroz refletem sobre a dimensão existencial da entrega afetiva em “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”

Rodrigo Fonseca
Enxutíssima, cravando uma hora no relógio, a imersão da atriz Melise Maia, uma fina artesã da dublagem, nas páginas de “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, publicado por Clarice Lispector (1920-1977) em 1969, inunda o palco da Casa de Cultura Laura Alvim de tensão. É uma tensão metalinguística entre o que é escritura, o que é vivência e o que é representação. Sua estrela esbanja viço na maneira de esgrimar frases de concreto armado, tipo: “Somando as incompreensões se ama” ou “a alma tem o peso da palavra nunca dita”. Partindo de falas como essa, Melise promove uma engenhosa reflexão da dimensão existencialista do querer (a si mesmo e ao próximo), ao mesmo tempo em que desnuda o ferramental filosófico do próprio teatro, no flerte com uma gigante do porte de Lispetor. Chega a ser uma heresia aplicar o “redutor” conceito de “adaptação” para definir o quão sofisticado é o diálogo estabelecido por M. Maia, sob a direção inquieta de Ernesto Piccolo, com o texto literário no qual finca suas paliçadas para erguer, ao longo delas, um processo investigativo sobre os dilemas da doação amorosa. O que vemos, em cena, é algo mais próximo de uma “conversação” entre literatura e espetáculo, uma espécie de “deslizamento”, do verbo escrito ao verbo encenado, qual se viu na recente versão cinematográfica da mesma prosa, feita nas telas pela realizadora Marcela Lordy, com uma Simone Spoladore faiscante. Com tantas faíscas quanto as de Melise.

Nas três vias – o romance, o filme de Marcela e a peça de Melise -, nós conhecemos Loreley – professora chamada entre seus pares só de Lóri – pelo vácuo em seu peito, que a leva a se desgarrar de qualquer possível relação amorosa duradoura. Na prosódia de Clarice, caímos em seu buraco a partir de uma vastidão de pensamentos, numa estrutura existencialista vista de dentro de sua cabeça, mas ali bem perto de seu coração selvagem. Já o longa prefere morder a maçã no escuro e trabalhar seu desejo numa tradução exteriorizada, preferindo o estar ao ser, amplamente realista. É mais vida e menos ontologia. Já a releitura dirigida por Piccolo prefere uma condensação do que é narrado. Posiciona-se entre a arrancada do processo de escrita de um romance – por uma autora da qual pouco ou nada sabemos – e o conteúdo desta peça literária, expressa como um inventário de incertezas de Lóri e uma cartografia de quereres do coprotagonista, o professor de Filosofia Ulisses. Ele é defendido com escudo de Adamantium (metal fictício dos gibis Marvel, conhecido por ser a liga mais sólida do universo) por Rafael Queiroz, num deslumbre de atuação. Seu gestual é contido, sua impostação das sílabas é sóbria e seus movimentos, na direção de Melise, são de acolhimento, na percepção de que um abraço pode ser um abrigo. Juntos, ele e ela criam uma tradução de aconchego. Um aconchego assombrado pelo nosso medo da simbiose sensível, da alquimia emotiva. Isso se traduz numa fala de Lóri: “Aprendi a viver com o que não se esconde”.
Frases como essa vem da escrita de Clarice. No site https://site.claricelispector.ims.com.br/, a pesquisadora, professora e oráculo dos códigos lispectorianos Clarisse Fukelman define “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” como um experimento reflexivo acerca do que o romance pode oferecer de potência narrativa num pugilismo com substantivos e conjugações verbais. “Do ponto de vista formal, o texto inicia com uma vírgula, avisando de imediato o leitor sobre o que o espera: enquanto Lóri faz a sua travessia em direção ao amor e ao prazer genuínos, superando obstáculos internos, também o texto propõe uma provocação a quem o lê. Como se dissesse: ‘não venha ao livro em busca apenas de um bom enredo; tenho mais a oferecer’. A experimentação revela de pronto que a vida é uma permanente transformação e que esta se dá dentro, e não fora da linguagem”.

O filme de Marcela Lordy baseado no texto que hoje ilumina a Laura Alvim

Em “O Livro dos Prazeres”, o filme, exibido no Festival do Rio 2021, víamos o momento Chantal Akerman de Marcela Lordy, com muitas conexões com o cinema existencialista da cineasta belga supracitada, a promover uma sofisticada operação de “deslizamento” em seu corpo a corpo com a prosa homônima de Lispector. Vemos, na tela, que o livro é um engrama (um traço residual) a partir do qual o longa (na belíssima fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) cria uma Lóri particular, uma Lóri pra chamar de sua. E é uma Lóri como a heroína escrita por Lispector em “A Bela e a Fera”: ao dimensionar que a ferida do viver é grande demais (na incapacidade de lidar com a perda da mãe, na pulsão de debelar o machismo, na dificuldade de ritualizar a entrega afetiva), ela olha para dentro de seu abismo e se deixa olhar por ele. A atuação de Simone permite que a gente olhe junto pra esse fosso tão grande. A partir dele, Marcela desconstrói modelos arcaicos sem medo de ser ácida. E ele, com maturidade, desnuda vícios de modelos históricos nocivos.
No teatro, na Laura Alvim, o olhar de Melise vai prum outro fosso, que não o da inadequação aos ritos do cotidiano. Seu fosso é o da entrega e da confiança. No espetáculo, em cartaz no Rio até o fim deste mês, Eduardo Salino é o responsável pela iluminação, que opta por um caminho de brandura. Um caminho leve, quase translúcido, vestindo o duo de intérpretes com um cetim de luz tênue, azulado, sem excesso. O charme da trilha sonora de Edu Lobo, no sopro de Mauro Senise, nas teclas de Cristóvão Bastos e no contrabaixo de Jorge Helder, ressalta essa linha de leveza, que é demarcado no sorriso farto de Melise, que se rasga no palco como um “emocionário”, capaz de comportar todos os signos da insegurança, do riso e do abismo.
Tem sessão dele hoje. Vale encarar o frio.

p.s.: “Le petit Nicolas: Qu’est-ce qu’on attend pour être heureux?”, dirigido por Amandine Fredon e Benjamin Massoubre, conquistou o troféu Cristal de Annecy, o mais renomado festival de animação do mundo, realizado na França. O filme recria o processo de criação do personagem e suas primeiras aventuras, misturando fato, imaginação e História. Ao mesmo tempo em que cria situações de divertidas para o herói mirim, a dupla de animadores explora como René Goscinny (1926-1977) e Jean-Jacques Sempé elaboraram seu menino maluquinho. As narrações são feitas por Laurent Lafitte, Alain Chabat e Simon Faliu.

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