Apoteose para ‘Alemão 2’ no Festival do Rio

Apoteose para ‘Alemão 2’ no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

18 de dezembro de 2021 | 11h51

Vladimir Brichta encara a violência do tráfico em “Alemão 2”, uma das apostas do cinema brasileiro para 2022, que fará pré no Festival do Rio esta noite

RODRIGO FONSECA
Visto por 955,8 mil pagantes em sua carreira em circuito e reelaborado como um híbrido de jornalismo e ficção numa série semidocumental da TV Globo, “Alemão” (2014), thriller de José Eduardo Belmonte, ganhou uma continuação, rodada em terras cariocas em 2019, que terá sua primeira projeção pública neste sábado, em projeção hors-concours no 23º Festival do Rio. É um dos eventos mais aguardados da maratona cinéfila do RJ, que termina neste domingo, após nove dias de uma Première Brasil (a seleção de filmes nacionais do evento) apinhada de joias como “Medida Provisória”, “A Viagem de Pedro”, “Uma Baía”, “O Melhor Lugar do Mundo É Agora”, “O Livro dos Prazeres” e “VIVXS!”. Escrito por Marton Olympio e Thiago Brito, sob a direção de Belmonte, “Alemão 2” retoma a luta contra o tráfico num subúrbio que se estende de Bonsucesso à Penha a partir do refluxo gerado pela carnificina retratada do longa original, do qual ficou a resiliente Mariana, personagem vivida por Mariana Nunes, uma atriz em fase de apogeu. A produção é da RT Features, de Rodrigo Teixeira.
Agora, não se trata mais de uma história de tiras infiltrados lutando pela vida e, sim, de uma operação de invasão. Sob o comando de Machado (Vladimir Brichta, no que promete ser uma de suas atuações mais inspiradas, pós “Bingo”), a policial Freiras (Leandra Leal) e seu colega Ciro (Gabriel Leone) realizam uma ação no Complexo do Alemão, oito anos após a instalação das UPPs. Eles são instruídos a capturar, sem conflito, um dos maiores chefes do crime do morro: Soldado (Digão Ribeiro, hoje um dos atores mais arrebatadores de nosso cinema, por sua inteligência cênica em erupção). Em uma virada inesperada, eles se veem presos em uma emboscada armada pelo grupo criminoso rival. Enquanto isso, a delegada Amanda (Aline Borges), a titular da missão, tenta enviar um grupo de resgate, mas enfrenta um problema corporativo igualmente desafiador.
Em 9 de maio de 2019, o ESTADÃO visitou os sets do longa, no Grajaú. “O filme agora vê a Mariana, que era mulher de traficante no longa original, como uma figura reestruturada, embora ainda moradora de favela”, disse Mariana Nunes ao P de Pop, à época. “Essa nova história mostra pânico, mostra a opressão que as populações periféricas, sobretudo em suas populações negras sofrem. É um filme sobre o que a gente é, de fato, esta cidade. Mas é, também, sob a ótica desta mulher, um filme sobre escolhas. É muito importante, pra mim, ajudar o cinema a mostrar que espaço as pessoas que vivem em locais como o Complexo tem em uma sociedade racista como a nossa”.

Mariana Nunes era um dos destaques do “Alemão”, de 2014

Laureada (merecidamente) com o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio duas vezes, em 2012 por “Éden”, e em 2013, por “O Lobo Atrás da Porta”, Leandra Leal era o destaque da sequência que o P de Pop acompanhou, nas filmagens: uma festa de aniversário de criança, na família de Machado (Brichta). Ela compõe Freitas como uma figura idealista. “Ela tem fé no ideal da função em uma cidade de pouca mobilidade social, onde as bolhas são fechadas, e convivem sem se relacionar num abismo bizarro onde a vida é medida pelo CEP”, disse Leandra no set, em 2019.
Depois de uma passagem pela Mostra de São Paulo com “As Verdades”, Belmonte promete arrebatar o Festival do Rio com uma reflexão sociológica catártica. E falam-se em sequências de ação exuberantes. “Estamos falando de pessoas cujo trabalho é colocar a vida em risco sob ordens de quem age, muitas vezes, por interesses políticos. O que se investe de dinheiro em inteligência, na guerra contra o tráfico, é infinitamente menos do que se gasta em munição”, disse o prolífico cineasta, que contou com Fabrício Tadeu como fotógrafo. “Impera uma cultura do medo no Brasil, inerente a um discurso primitivo na guerra antidrogas”.
Longe do arquétipo Dirty Harry, Machado, o personagem de Brichta, problematiza os signos da segurança pública. “O medo sempre foi moeda de barganha no Rio”, diz o ator, que exclui a dimensão de heroísmo de sua interpretação. “Se você constrói essa figura falando em herói, corre-se o risco de olhar para a favela atrás de um vilão, o que só reforça estereótipos”.

Longa foi rodado no Grajaú, em Pilares, Curicica e na comunidade de Tavares Bastos

Antes de “Alemão 2”, às 20h deste sábado, o Cinépolis Lagoon dá ao Festival do Rio uma dose extra de Vladimir Brichta no faiscante “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane. O novo longa do pilar do Cinema de Invenção sagrou-se “o” vencedor da 16ª edição do Fest Aruanda, encerrado na quarta. Conquistou os troféus de melhor filme, direção, figurino (Maria Aparecida Gavaldão) e ator coadjuvante (dado a Enrique Diaz), além do Prêmio da Crítica, votado pela Abraccine, a associação nacional de imprensa cinematográfica. No longa, Bressane faz uma reflexão sobre a maneira como os personagens de “Dom Casmurro” (1899) são representados nas leituras de Machado de Assis (1839-1908), usando Diaz como uma espécie de narrador da saga de Capitu (Mariana Ximenes) e Bentinho (Brichta, em iluminada participação).

p.s.: Ganhador do Candango de melhor filme no fecho da competição de Brasília, “Saudade do Futuro”, de Anna Azevedo, vai ser exibido no 23º Festival do Rio neste sábado, às 17h, no Cinépolis Lagoon. A produção transcende os traumas coloniais ao passear por Portugal, Brasil e Cabo Verde com uma mirada documental pautada por uma onipresente ausência… ora de sentido, ora de revolução, ora de paz. Países ligados pelo mar e pela cultura da falta se desenham na lírica narrativa da cineasta carioca que passou várias vezes pela Berlinale, seja para exibir curtas como “BerlinBall” (2006), “Dreznica” (2008), “Em Busca da Terra Sem Males” (2017), além de ter sido curadora de exposição no Forum Exoanded, em fevereiro de 2020. Anna percorre três continentes à caça de personagens marcados por ausências, decorrentes de eventos que transformaram a História, como o fascismo, a colonização e a escravidão. Conversas à beira-mar rendem um envolvente estudo sobre a resiliência cultural.

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