Aos 7.1, Silvio Tendler põe o ‘Dedo na ferida’

Aos 7.1, Silvio Tendler põe o ‘Dedo na ferida’

Rodrigo Fonseca

12 de março de 2021 | 10h17

Tendler aniversaria nesta sexta-feira

RODRIGO FONSECA
Papa do documentário histórico brasileiro, cada vez mais próximo da geopolítica que do ensaio memorialístico, o diretor carioca Silvio Tendler completa 71 anos nesta sexta-feira com sua sempre prolífica produtividade mais a mil do que de costume: prepara agora três longas-metragens – “A Bolsa ou a Vida”, “Saúde tem Cura” e “A Luta Continua?” – e uma série, chamada “Arte Urbana”. Falar da obra dele é falar das maiores bilheterias do cinema de não ficção no Brasil, como “Jango” (1984), “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1981), “Anos JK” (1980), e mergulhar num olhar crítico dos mais provocativos sobre os sintomas do capitalismo. E ele ainda deu uma injeção de ânimo no Festival de Brasília ao assumir a curadoria de sua última edição, num trabalho memorável. Há quatro anos, horrorizado pelas turbulências políticas que nos assolam desde o Impeachment de Dilma Rousseff, ele ainda preparou algo próximo de uma obra-prima, na interseção entre o Cinema e a Geografia: “Dedo na Ferida”, laureado com o prêmio de júri popular do Festival do Rio 2017. Aliás, o longa, produzido por sua filha, Ana Rosa Tendler, foi aclamado com uma ovação, acompanhada de gritos de “Bravo!”.

Cena de “Dedo na Ferida”

Há muito (de bom) o que se pensar acerca das frases que Tendler colhe, em “Dedo na Ferida” na discussão do papel cancerígeno da engenharia capitalista e das especulações bancárias. Até Costa-Gavras vem pro papo, falando de democracia. A melhor das frases vem do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “O Capital Financeiro é o inimigo de qualquer Justiça”. Num estudo do estado de coisas da Europa atual, sua conterrânea de Península Ibérica, a professora Maria José Fariñas Dulce, bamba em sociologia jurídica ibero-americana, causa tétano ao dizer: “A Grécia não é mais dos gregos, é dos bancos”. A jornada de um podólogo que vai, dia a dia, de Japeri para Copacabana, num trajeto de 1h44m de conduções ferroviárias, calça a narrativa jogralesca de Tendler, que olha pro mundo a partir do Brasil. Desde a metade da década passada, tem aparecido uma safra de filmes nacionais de respeito agindo assim, ou seja, olhando pro planeta, tipo o belo “Olmo e a Gaivota” (2015), de Petra Costa; tipo “Curumin” (2016), de Marcos Prado; tipo “No Intenso Agora” (2017), de João Moreira Salles; e tipo “Yoga: Arquitetura da Paz” (2017), de Heitor Dhalia. Tendler está antenado com esse movimento.
Mas o que mais impressiona em “Dedo na Ferida” é a habilidade com que ele evoca, em sua arquivística, a tradição formadora do cinejornal, a fonte de informação audiovisual mais popular do mundo pré-televisão. Com seu uso de vinhetas, de animação e de narração (feita pelo poeta e ator Eduardo Tornaghi), Tendler recicla um conceito que está na gênese da cultura cinematográfica. Mas seu exercício de cinejornalismo é menos factual e mais reflexivo, funcionando como uma pensata. Triste, mas necessária. É o melhor Tendler em anos. É um exercício de forma (e forma na ética de um conteúdo crítico, tardiamente frankfurtiano). Tendler é o Marcuse de nosso cinema (seu maxismo é o do eros) e este filme (definitivo) é seu “O Homem Unidimensional”.
Feliz aniversário, mestre. Obrigado por existir.

p.s.: Líder do Grupo Mulheres do Brasil em Recife, Roseana Faneco participa de debate, neste sábado, depois de sessão virtual do espetáculo “O jogo”, que trata de relações abusivas. Ela estará ao lado das atrizes Milah Coutinho e Geovana Metzger. Ingressos pelo Sympla (http://www.sympla.com.br/espetaculoojogoonline).

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