Ao mestre Jean Thomas, com carinho: ‘Feliz Aniversário’

Ao mestre Jean Thomas, com carinho: ‘Feliz Aniversário’

Rodrigo Fonseca

27 de novembro de 2019 | 13h59

Jean-Thomas Bernardini abriu a Imovision em 14 de julho de 1989, numa queda da Bastilha da inércia cinéfila

RODRIGO FONSECA
Imovision… este nome simboliza a circulação, nas telas nacionais, de longas-metragens consagrados de Agnès Varda, Hirokazu Koreeda, Alain Resnais e mais uma lista de cineastas autorais. Cineastas que fizeram jus a um jargão do passado, “O cinema é a maior diversão”, nas últimas três décadas da vida da ala cinéfila deste país. O responsável por essa marca, por essa distribuidora de biscoitos finos, é Jean Thomas Bernardini. Francês radicado por estas bandas desde os anos 1980, ele comemora nesta sexta-feira, com todo o direito, 30 anos de excelência na luta por oxigenar nossas salas exibidoras com lufadas de invenção. Sua Imovision, distribuidora de cults em potencial, virou um porto seguro para a transgressão das cartilhas de dramaturgia. Dono de uma inteligência aguçada, expressa em escolhas precisas e num sorriso de acolhimento, ele manteve o Brasil na rota migratória dos longas-metragens autorais da Europa, da África e da Ásia, tendo especial carinho com sua França natal e com a produção local. “Deslembro”, de Flávia Castro; “Praça Paris”, de Lúcia Murat; “Febre do Rato”, de Claudio Assis: esta é parte da lista de premiados títulos de DNA carioca, paulista, pernambucano e de toda a Federação que Jean Thomas ajudou a encontrar espaço no coração do público pagante. A celebração de seus feitos está agendada para sexta, no Reserva Cultural de Niterói, ligado ao RJ pela Ponte e pelas barcas, onde vai receber Cédric Kahn e Juliette Binoche, tendo o reforço de um par classe AA de estrelas de nossa pátria: Hermila Guedes e Irandhir Santos. Juliette vem acompanhar a projeção de “A Liberdade é Azul” (1993), de Krzysztof Kieslowski. Kahn traz na mala seu mais recente filme: “Feliz aniversário”, com Catherine Deneuve e Emmanuelle Bercot.
“O cinema não está perdido, como alguns dizem: eu acredito nele, pois tem muita coisa boa. Há uma sempre uma tribo interessada em um tipo de filme que tem características específicas, de nicho. É importante saber trabalhar o que um filme tem a partir de um critério: a qualidade. A badalação é importante. Mas se o filme não for bom, não adianta ter o prêmio que for. Tive uma excelente experiência este ano, no Brasil, com “O confeiteiro”, que caiu no gosto do público, mesmo parecendo nichado”, disse Jean Thomas ao P de Pop.

Com passagem assegurada pelo 18º Festival de Marrakech, que começa nesta sexta (ô diazinho movimentado), “O Paraíso Deve Ser Aqui” (“It Must Be Heaven”), do palestino Elia Suleiman, é uma das atrações mais quentes da distribuidora para os próximos meses. Espera-se quentura também de “Fim de festa”, de Hilton Lacerda, que vai ser exibido no Reserva durante o convescote de “joyeux anniversaire” do complexo niteroiense. Juliette chega aqui na esteira de uma série de sucessos recentes e de sua experiência à frente do júri da Berlinale, em fevereiro. “Tento optar por papéis que me ofereçam risco, desafiem a comodidade e me permitam jogar luz sobre o humanismo”, disse Juliette ao Estadão na Berlinale.
Entre os cineastas de verve crítica em relação às convenções mercadológicas do audiovisual, Jean Thomas destaca o francês Robert Guédiguian como uma certeza de surpresas na venda de ingressos – surpresas boas. A Imovision trouxe para nós o drama que deu a Guédiguian os prêmios SIGNIS e Unimed no Festival de Veneza 2017: “Uma casa à beira-mar” (“La villa”). Por aqui, este estudioso do marxismo, cronista dos desajustes nas lutas de classe, tem uma legião de fãs. “Vira e mexe, recebo, por Facebook, um recado de brasileiros querendo discutir política ou apenas sendo carinhosos”, orgulha-se o cineasta, que começou a filmar em 1975, tendo a atriz Ariane Ascaride, com quem é casado desde 1975, como estrela de toda sua obra.
Ele conversou com o P de Pop em janeiro, durante o Rendez-vous Avec Unifrance, em Paris. “Há anos, eu promovi uma retrospectiva do Guédiguian aqui no Brasil e, à época, muita gente estranhou o fato de eu estar apostando em alguém que não era um astro autoral. Mas tinha prazer com seus filmes e via em seu modo de trabalhar, quase num esquema de trupe teatral, uma marca própria. Ele não é um Almodóvar, mas sempre, de filme a filme, faz bem e cativa para si um público fiel”, disse Jean-Thomas.

Este ano, a companheira de vida e de obra de Guédiguian, Ariane, conquistou a Copa Volpi de melhor atriz, em Veneza, por “Gloria Mundi”, que a Imovision já assegurou. Igualmente constantes nos filmes dele são os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan, também em cena em seu novo longa: “Não é equipe, é família”, explica Guédiguian.
Na trama deste longa que Veneza aplaudiu, um ex-presidiário volta para casa quando sua filha acaba de ter um bebê, mas vê seu genro, que ganha a vida como motorista, ser atacado por taxistas numa luta por reserva de mercado. Fã da dialética maxista, Guédiguian cresceu num tempo em que o cinema se divida entre filmes políticos e filmes para mercado, sem ideologia de levante. Hoje se cultua, mesmo nas searas mais combativas do cinema, a ideia do “filme de gênero”. Mesmo sendo um cineasta de causas sociais, Guédiguian se volta para o noir, um filão de mercado, em “Gloria Mundi”. Segundo ele, é “um filme dá voz à essa contradição a partir de um olhar para o fato de que o servo hoje concorda com o patrão, ri do que o patrão ri. Escravidão começa assim”. Mas por que a aposta na ambiguidade noir?
“Pela possiblidade de ampliar meus interlocutores”, responde o diretor. “Um filme político, cru, sem qualquer brecha para o humor, o amor, o suspense, vai ter uns 50 espectadores. Um filme de tons políticos que se vende como comédia ou drama alcança o triplo disso. A necessidade de o cinema se abrir para o diálogo com públicos mais amplos não significa fazer concessões, abrir a guarda. Significa pensar no espectador a partir das regras que ele conhece e gosta. Seguir regras não diminui a vontade de transgressão. O diretor de teatro Jean Villar tinha uma frase ótima sobre isso: ‘Elitismo para todos’, algo que precisamos refletir nestes tempos de populismo”.
Sua inflamada visão de mundo tem casa certa por aqui, com a Imovision, que, nestes dias de Marvel e DC, fez de Jean Thomas um super-herói do bom gosto.

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