Anselmo Vasconcellos, o Coringa da sabedoria

Anselmo Vasconcellos, o Coringa da sabedoria

Rodrigo Fonseca

12 de outubro de 2019 | 12h32


RODRIGO FONSECA
Tem um Coringa um Rondônia também, só que é um Joker mais malandro, mais Zé Pelintra do que o Palhaço do Crime de Joaquin Phoenix, hoje titular de uma bilheteria já estimada em US$ 306 milhões. O Coringa do Brasil, também de rosto branco e cabelo verde, aparece agora no Now (Nowonline.com.br), plataforma de streaming, no filme “Amor de mãe”. É um longa-metragem pocket: tem cerca de 50 minutos (coisa que antes se chamava de média-metragem) e, apesar de feito em apenas quatro dias, durante um carnaval rondoniense, carrega um requinte formal e um timbre de ousadia que a gente não vê em muita superprodução nacional (e nem gringa) por aí. O responsável pela direção é um dos mais experientes atores do país: Anselmo Vasconcellos, semanalmente no ar no humorístico “Zorra”, da TV Globo. Todo seu cabedal de estudos filosóficos (de bom leitor de Theodor W. Adorno), toda sua vivência em sets de clássicos modernos de nosso cinema (tipo “Eles não usam black-tie”) e toda sua malandragem de carioca de Bonsucesso foram usadas nesse exercício como realizador. Depois de anos dando aula na Escola Martins Pena, o Actors Studio do Centro do Rio, ele passou a lecionar em oficinas Brasil adentro. Um dia, chegou a Rondônia, transformou aspirantes a estrelas em bons intérpretes e aproveitou a deixar para rodar uma alegoria moral sobre piratas amazônicos. E filmei à moda glauberiana: uma ideia na cabeça e um drone no céu.
“A direção sempre fez parte da minha trajetória. Eu comecei a dirigir pela convivência com outros atores, que notavam em mim essa capacitação de perceber a partitura, a narrativa como algo que eu poderia explicitar como desenvolvimento pessoal”, diz Anselmo ao P de Pop. “O Antônio Pedro fala que o ator também é diretor, ele é dramaturgo, ele é alguém que exerce a sua função de uma maneira mais ampla do que as especificações que se tornaram ao longo do tempo. Quando você pensa no ator, no nosso antepassado da Commedia Dell’Arte, ele fazia tudo. O Molière, por exemplo, escrevia, dirigia e atuava. A mesma coisa o Shakespeare e todos os outros. Não é uma passagem propriamente dita, é um desenvolvimento potencial. Estou refletindo muito sobre esse Coringa apresentado neste novo filme, onde a sanidade mental é o atributo principal da personificação. Não sei ainda te dizer, estou com muitas dúvidas sobre esse filme. Assim como estou com muitas dúvidas sobre o processo de violência que sempre aconteceu, mas agora tem tomado proporções mais preocupantes e discutíveis.”
Esse tal Coringa dele tem nome. Ele se chama Chico Boto e um bucaneiro pós-moderno, vivido pelo próprio Anselmo, entra em cena. Sua meta é dinheiro, sexo e a subversão moral. “É o poliamor, que tem desencaretado os novos tempos”, diz o ator… e agora cineasta, que entra em cena com uma maquiagem de palhaço que não remonta ao circo, mas sim ao icônico arqui-inimigo do Batman. “O Coringa é, para mim, a carta do baralho, é a função dramatúrgica de substituir aquilo que não pode estar presente, ele é uma substituição rica, ele é a carta que pode fechar uma canastra quando você não tem a carta real”, diz Anselmo. “Essa é a minha observação sobre o papel desse ícone, mas são só duvidas que tenho. Eu utilizei a iconografia do Coringa no “Amor de Mãe”, como substituto da violência pela ironia, pela relação política que a vítima tem com o carrasco. Em “Amor de Mãe”, o Coringa está mais para versão do Cesar Romero, que é a versão psicodélica/pop que mais me agrada nesse personagem, sem desmerecer os outros”.

Antes de “Amor de mãe”, Anselmo rodou um curta, “Paraíso insólito” (2017), que rodou o Brasil e o mundo em múltiplos festivais, com toques de hipismo e com um personagem inspirado por Rocky Balboa. Mas o ofício de dirigir não arrefeceu sua porção ator. No dia 24 de outubro, quem passar pelo Festival de Petrópolis vai conferir um desempenho dele em uma releitura de “Boca de Ouro”, com Marcos Palmeira no papel do Don Corleone de Madureira, sob a direção de Daniel Filho. Daniel ainda levou o ator para o elenco do policial “O silêncio da chuva”, que traz Lázaro Ramos na pele do delegado Espinosa. E quem olhar para a filmografia recente do cineasta, vai ver que Anselmo está sempre como ele, como um… coringa. Mas a vontade de realizar filmes pessoais não cessa em seu peito.
“A ideia da Rondônia cinematográfica está ativa novamente e as pessoas estão muito entusiasmadas por verem que o filme pertence a quem quer que possa acessá-lo no nível nacional e internacional. Algumas pessoas já fizeram e isso está animando bastante eles a fazer um segundo filme. Já existe um roteiro, já tem um produtor e agora só precisamos de uma baliza crítica que possa colocar esse projeto de uma forma apresentável ao grande público, para que possam consumir e veiculá-lo”.
No teatro, a produtividade dele anda em alta também, evocando a disposição a mil que ele tinha, nas telonas, nos anos 1970, quando deixou espectadores boquiabertos com seu genial desempenho como a travesti Eloína, a rainha da Lapa, em “República dos assassinos” (1979), de Miguel Faria Jr., um sucesso de público e crítica até hoje estudado, sobretudo pela potência de sua representação do universo LGBTQ. O beijo apaixonado trocado por Anselmo e Tonico Pereira é comovente até hoje. Mas qualquer incursão de Anselmo em frente às câmeras ou no palco é sempre surpreendente.
“Eu acabo de dirigir dois espetáculos. Um deles é o “Marduk”, que é o encontro do Caio Fernandes de Abreu com Hilda Hilst e o meu encontro com a Nina de Pádua ao longo de quase 46 anos de trabalho. É um espetáculo muitíssimo interessante. O outro é o “No virtual somos Todos Felizes” (em cartaz no Teatro Candido Mendes até 29 de outubro), que fala sobre como a mídia transformou a vida das pessoas em um paralelo, onde nós somos algo que não está necessariamente ligado à nossa realidade física, cotidiana, social, psicológica e política. São as personas que se transformaram em uma grande rede de veiculação de ideias, performances e atributos que nem sempre são verdadeiros”, diz Anselmo. “Mas o que é a verdade? Essa é a questão que o artista discute”.

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