Anotações sobre ‘Vazante’, do amor e da fogueira

Anotações sobre ‘Vazante’, do amor e da fogueira

Rodrigo Fonseca

17 de setembro de 2017 | 16h26

António (Adriano Carvalho) é o senhor de terras alimentadas a trabalho escravo em “Vazante”: um filme de dialéticas

Rodrigo Fonseca
Assado numa fogueira de tensões éticas, na manhã deste domingo, no Festival de Brasília, na fervura máxima de ânimos inflamados, (o necessário) Vazante, de Daniela Thomas, já pode incluir em seu currículo de vivências um Candango simbólico. Venceu na categoria “melhor catalisador”: tanto no que diz respeito ao debate racial quanto ao que tangencia a discussão sobre exercícios de Poder. Já se falou pela Europa que o filme é uma espécie de “Lucrecia Martel meets ‘Casa Grande & Senzala’”. Mas para Brasília essa comparação não é boa: é indigna até. Tudo bem… Há qualificações mais adequadas à ciranda de argumentações que ele, conscientemente, gera, sobretudo nas cenas em que Fabrício Boliveira aparece, engolindo cada plano no papel de um feitor com ecos de capitão do mato alheio às lealdades de sua raça. Sem jamais perder a elegância – e, mais importante, o foco crítico – a cineasta deu conta das provocações e cobranças com as quais seu filme – caracterizável, de um lado, como um retrato cru para a exploração do trabalho escravo negro no país, no século XIX – foi recebido pela plateia do evento. Foi uma conversa dura, mas rica.

Houve mulheres negras e homens negros que protestaram contra a visão branca no centro do “discurso fílmico” e na escolha de uma personagem branca (adolescente) no cerne da dramaturgia. Reclamou-se de uma visão normativa clássica. Ficou no ar a hipótese de um whitewashing dramatúrgico. Daniela ouviu, lamentou-se pelos incômodos que possa ter gerado, mas deixou claro que aquela narrativa vinha do único lugar que, por direito, pode ocupar: o de narradora branca. Mas uma narradora que mexe nesse tema não com o intuito de construir um senso definitivo e sim de gerar dialéticas, conversas. Uma narradora branca horrorizada com a violência institucional histórica contra os negros. Por isso seu Vazante não é um filme de catarses: é um filme de indignações. E reside aí (e em vários outros lugares estéticos) sua grandeza.

Seria leviano chamar de “ataque” as intervenções de parte do público, feitas durante o debate do longa-metragem, em especial, por uma variável de “legitimidade” trazida por atores, críticos e realizadores negros que se incomodaram com o olhar adotado pela diretora. Mais leviano ainda seria desqualificar essas intervenções pelo tom por vezes “exaltado” (iracundo) de muitas delas. Vazante é um filme sobre paixões e Paixões – sobre amores e crucificações. Logo, é normal que paixões de igual ou maior pujança do que as que ele expõe se façam notar.

Quando lançou Lili Marlene (1981), o alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) foi acusado de estar alimentando uma alienação cinéfila numa era de conversão da História, de espasmos pós-modernos. Sua resposta: “Eu fiz um filme sobre o amor e o amor não se verga sob ventos políticos, o amor ‘é’ e ‘está’ quando quer”. Vazante é, também, uma história de amor. Uma love story que chega num momento de pleitos sobre lugar de voz, sobre representações que não permitem alteridades. Normal ser recebido assim: é de sua natureza. É da vocação autoral de uma realizadora cuja obra cinematográfica flerta com o trágico, vide Linha de Passe (num gol esperado que não se vê), vide Terra Estrangeira (num idílio esfumaçado em vapor barato), vide o belo Insolação (no sucateamento da utopia). Foram filmes feitos em parceria (dois com Walter Salles e o último com Felipe Hirsch), mas com as entranhas dela amalgamadas em cada um deles.

O único cuidado, após o bem-vindo debate deste 17 de Setembro em Brasília, é não deixar que as cobranças e os senões esvaziem a importância do trabalho de Daniela. E isso não apenas por suas múltiplas virtudes de artesania, de técnica, mas por sua radicalidade ética na denúncia da erosão moral – a de ontem e a de hoje. Existe nele, à parte da cartografia de práticas escravocratas, uma crueza estendida para a discussão que a diretora gera sobre o machismo institucionalizado. Isso se expõe na união forçada entre uma (já citada) adolescente, Beatriz (Luana Nastas), e um fazendeiro quarentão, António (vivido pelo ator português Adriano Carvalho, cujo ferramental cênico vasto virou “o” assunto da Berlinale, em fevereiro, quando o filme teve sua primeira exibição popular).

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António trata sua jovem (e põe /jovem nisso) mulher como posse. Mas, sob aquela relação, há como se notar acesa uma chama de melodrama, que parece improvável, mas jamais impossível, em meio a uma massa de signos descortinada numa reconstituição de época. Beatriz fica na fazenda, à espera do marido, rodeada por fiéis negros, incluindo um menino que vai mexer com seu coração. O melodrama nasce sob os estalos do chicote e o arrastar de correntes. Ele não teme claustros. O melodrama é tudo aquilo que não cabe no Épico, nem é divino o suficiente para servir de educativo ao Trágico. O melodrama é o espaço impuro do que não é planejado, do que escorre pelas frestas da História, do que desafia interditos. O melodrama é… o que vaza. É a Vazante maiúscula de relações que não podem ser mesuradas pelos impasses racionais. O melodrama é a assinatura da humanidade que perfuma o olhar de Daniela sobre práticas irracionais de imposição de força. O melodrama é o ethos do desafio e do desterro. É o terreno que não comporta carnavalizações nem ciências exatas, nos fazendo lembrar que Vazante não é um tratado de sociologia e sim uma obra de arte.

 

Há, contudo, nele, um lugar para o deslumbramento, que vai para a conta do fotógrafo peruano Inti Briones (de Jia Zhang-ke, o Homem de Fenyiang). Em sua visita ao rancor do passado brasileiro, Inti constrói um preto e branco de plasticidade requintada, dialogando esteticamente com a cor do minério de prata, presente na região mineira onde se deram as filmagens. A natureza quase apolínea dessa fotografia dá ao filme uma textura clássica, mas não uma postura educativa. Vazante não veio para ensinar, veio para fazer falar e fazer pensar. E merece respeito para que suas contusões simbólicas doam na medida e nos alvos certos.

 

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