‘Anos 90’: o ‘Conta comigo’ de Jonah Hill

‘Anos 90’: o ‘Conta comigo’ de Jonah Hill

Rodrigo Fonseca

04 de junho de 2019 | 09h47

Rodrigo Fonseca
Comovente painel geracional, ovacionado em sua passagem pelo Festival de Berlim, “Anos 90” (“Mid90s”), já em cartaz nas telas nacionais, é uma das muitas evidências do quão maduro o comediante americano Jonah Hill escolheu ser, ao driblar rótulos e estereótipos. É o longa-metragem de estreia dele e faz uma doída radiografia da década de 1990, a partir da cena skatista. Focado na simplicidade, o drama, de tons cómicos, expõe a sensibilidade e a poesia de um cineasta que veio da arte de fazer rir.

“A pior coisa que poderia ocorrer com este filme, que nasceu de horas a fio de papo com adolescentes, seria as pessoas asaociarem a minha imagem de ator a um projeto que vem de um outro lugar meu. Não sou aquilo que eu interpreto. E aqui há vozes de gente que não é como eu. O mundo não é… Há todo tipo de sentimento. Escolhi falar das fraturas”, disse Hill ao Estadão na Berlinale.

Revelado em “Superbad – É hoje” (2007) como um símbolo da novíssima comédia de costumes made in USA, mas repaginado como um ator dramático após um par de indicações ao Oscar de melhor coadjuvante, Hill esbanja sede de reinvenção: dirigir foi sua rota para ganhar outros espaços na arte. “Mid90s” saiu da Alemanha como um dos títulos de maior prestígio na mostra paralela de Belim chamada Panorama. Sem qualquer conexão com os filmes bem-humorados de seu passado, o longa revive uma Los Angeles que, na era do grunge rock, viu o hip hop brotar das esquinas. Seu foco é universo do skate de rua, onde o jovem deslocado Stevie (Sunny Suljic) vai buscar um veio de sociabilização.
“Tem um pouco de ‘Conta comigo’ e de outros filmes de balanço geracional dos anos 1980 na história de Stevie, em seu olhar sobre represas emocionais e amizades que nascem e que se quebram. Mas o meu objetivo era desmistificar a representação da masculinidade daqueles filmes de patota e apostar num olhar em que os homens possam expressar seus sentimentos e numa abordagem avessa à homofobia”, disse Hill ao Estado.

Astro de ímãs de bilheteria como a franquia “Anjos da Lei”, Hill foi disputar o Oscar em 2012, por “O homem que mudou o jogo”, e em 2014, com “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese. Saiu deles cheio de elogios de seus colegas de cena: Brad Pitt e Leo DiCaprio, os mais poderosos nomes de Hollywood hoje. “Crescemos vendo filmes sobre amigos em que a expressão dos desejos e medos, entre os meninos, era sempre controlada, suprimida. Nos anos 1990, um homem chorar era um erro, um delito contra a lógica do que é o masculino. Fiz esse filme para expor como isso era infantil”, diz Hill, aclamado em 2018 pela série “Maniac” da Netflix. “Minha LA em ‘Anos 90’ é um reino animal e, pra isso, fotografei as cenas de skate como se fossem cenas de um filme de ação”.

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