‘Annette’ da MUBI às telas na fagulha dos Sparks

‘Annette’ da MUBI às telas na fagulha dos Sparks

Rodrigo Fonseca

20 de dezembro de 2021 | 12h21

Rodrigo Fonseca
Lançado no dia 26 na MUBI, “Annette” – musical responsável pelo regresso do diretor francês Leos Carax às telas, quase uma década depois do cult “Holy Motors”, de 2012 – vai ganhar uma carreira em circuito a partir desta quinta, em lançamento presencial da O2 Play. Em tons experimentais (como é a marca autoral de seu realizador), o filme foi laureado com o prêmio de melhor direção em Cannes e paginou a relação da indústria do audiovisual com um duo musical chamado de “a mais britânica das bandas da Califórnia”: os Sparks. A canção deles “So May We Start” viralizou na web e tornou-se um hino para o longa-metragem, que dispara entre os títulos mais disputados do www.mubi.com (streaming acessável no Brasil), à força da melodia criada pelos irmãos Ron (no teclado) e Russell Mael (no vocal).
“É uma glia estar do lado de um realizador que é capaz de depurar o visual das narrativas cinematográficas de maneira tão singular e fazer da nossa música uma espécie de expansão de seu mundo”, disse Ron via Zoom ao Estadão, numa conversa que coincidiu com o sucesso de “Annette” no circuito exibidor europeu e na estreia do documentário “The Sparks Brothers”, dirigido por Edgar Wright (“Em Ritmo de Fuga”) a partir da trajetória da dupla em videoclipes lendários como “This Town Ain’t Big Enough For Both Of Us” e “When Do I Get To Sing ‘My Way’”. “A pergunta que a gente sempre fez desde que começamos (no fim dos anos 1960) é a mesma que artistas como Carax se fazem: como sobreviver seguindo a trilha que escolhemos? Nossa resposta está em nossas músicas.”

São Ron e Russell que embalam a história de amor cheia de som e de fúria entre a cantora de ópera Ann Defrasnoux (Marion Cotillard) e o dínamo da comédia stand-up Henry McHenry (Adam Driver), cuja paixão vai esbarrar em ciumeria profissional, na obsessão de um maestro (Simon Helberg) e na chegada de um exótico bebê que dá título ao filme. Ele entrou na lista dos 10 Mais de 2021 na revista “Cahiers dia Cinéma”, graças à estética de Carax e o dó-ré-mi dos Sparks
“Quando você assiste aos filmes anteriores de Leos e olha pro ator parceiro dele, Denis Lavant correndo em cena, é possível sentir a essencialidade da música para as sequências que ele roda. Vocês, no Brasil, têm uma musicalidade incrível, que me faz lembrar nos solos de sax com que as pessoas tocam ‘Garota de Ipanema’, de Tom Jobim. Mas eu sinto que a base do nosso trabalho, assim como o de Carax, vem do desejo de nos mantermos provocativos, sem deixar a preguiça imperar”, diz Russell, que, aos 73 anos, mantém uma voz finíssima, capaz de agudos que encantaram os timbres do rock’n’roll desde o sucesso de vendas do LP “Kimono My House”, em 1974.

Marion e Driver em cena

Ali, ele e Ron, hoje com 76 anos, improvisavam as notas mais inusitadas nas canções “Amateur Hour” e “Falling in Love with Myself Again”, influenciando artistas como Carax. “Ouço pessoas dizerem que Carax filmou pouco, mas eu não concordo muito com essa questão de quantidade como sendo um valor. Ele é um diretor que tem foco, que gasta muito tempo em cada projeto sobre o qual se debruça para expressar o melhor de si, tendo se dedicado por quase oito anos a ‘Annette’. Essa busca pela livre expressão é o que o torna única”, disse Ron, prometendo uma nova turnê para ele e Russell. “Não sei se o rock pode salvar vidas, como os fãs diziam no passado. A própria forma de se consumir música mudou, uma vez que as pessoas ouvem nosso trabalho online, sem mídia física. E isso já se dá com o cinema. Vocês vão ver o filme de Carax numa plataforma digital. É uma nova forma de distribuição que substitui intermediários físicos como o disco, a sala de exibição. Mas o que conta é a gente acreditar que ainda pode tocar as pessoas, mudar quem ouve nosso trabalho. A arte está livre, mas ainda pode emocionar”.
Ainda inédito em solo brasileiro, o documentário de Wright sobre Ron e Russell arrebatou a crítica em sua passagem pelo Velho Mundo, lembrando a originalidade dos Sparks. “O filme renovou a atenção do público para o nosso trabalho”, diz Russell. “Ele mostra que o ponto mais importante de um trabalho de criação é a arte em si e, não, a indústria”.

p.s.: Começa nesta segunda a repescagem da 23º Festival do Rio e a boa desta segunda é “A Chiara”, de Jonas Carpignani, que será exibido neste 20 de dezembro, às 18h30, no Estação NET Botafogo 1. No início deste mês, sua protagonista, a jovem Swamy Rotolo ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Cairo, no Egito, por seu desempenho neste thriller à italiana (de tônus dramático) sobre a reeducação afetiva de uma adolescente em meio à descoberta de que seu pai é um criminoso. Há um delicioso diálogo onde se escuta: “Aquilo que você chama de mafioso eu chamo de ser um sobrevivente”. Seu realizador rodou antes “Ciganos da Ciambra” (2017), produzido por Rodrigo Teixeira e Martin Scorsese.

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