‘Anna’, o ‘Tio Vanya’ de Heitor Dhalia

‘Anna’, o ‘Tio Vanya’ de Heitor Dhalia

Rodrigo Fonseca

12 de dezembro de 2019 | 00h49

RODRIGO FONSECA
Apesar da merecida celebração de “O Cheiro do Ralo” (2006), na segunda metade da década passada, em especial após sua ida a Sundance, nunca foi dado a Heitor Dhalia, diretor pernambucano, o crédito de excelência que sua obra merece. Mas basta um gostinho… pouco mais de 15 minutos de seu novíssimo longa-metragem, “Anna” – um misto de risco, rabisco e gemido poético em forma de filme – para que a profundidade de sua obra (pluralíssima) se abra como um abismo. Mas é um daqueles abismos nietzchianos, que acolhem, afagam e não soltam quando se olha para seu interior. Abismo fundo, cujo pretume vem da fotografia convulsiva de Azul Serra, faminta pelas sombras. E há muitas delas no palco-tela onde a saga do Príncipe da Dinamarca encontra algo de podre nas práticas de poder entre encenadores e atrizes/atores. Nessa investigação, o mérito maior de Dhalia, o ecletismo (sem amarras nem culpas autorais), dá lugar a uma outra aretê (virtude) de bom realizador: a precisão na investigação dos desencaixes. Algo que ele trouxe de seu momento Louis Malle: “À Deriva” (2009), lançado em Cannes, na Un Certain Regard.

Igualmente eclético, distinto de seus conterrâneos de Nouvelle Vague, Malle ecoa em Dhalia aqui por outro prisma: a linha diegética que faz teatro e cinema colidirem e se complementarem. no caso, é o Malle de “Tio Vanya em Nova York” (1994). A Julianne Moore de Heitor se chama Bela Leindecker, uma arquiteta de linhas afetivas acidentadas pelos males da opressão. Pelo menos é essa arquitetura que salta de sua atuação como Anna, um devir Vanessa Redgrave em forma de estrela novata. Na trama de Heitor e de Nara Chaib Mendes, sua Anna quer tentar a sorte numa montagem de “Hamlet” proposta por Arthur, papel de Boy (Carlos) Olmi. Boy é um ator e diretor argentino, conhecido por “Sangre del Pacífico” (2008). Sua aparição no longa de Dhalia tem o calor e o fogo fátuo de um sol. Um sol de Ícaro, que derrete as penas de cera da vaidade e da juventude. Tudo isso pontuado no breu que Azul Serra constrói com nesgas de vermelho aqui, clarões acolá e muito embate de corpos. É um filme dançado. Um balé. Algo que se irmana com “O amor segundo B. Schianberg” (2009), de Beto Brant.

Querendo uma sinopse desse “Mahabharata” bêbado de pentâmetro Iâmbico:
Anna (Bela) é uma jovem atriz que consegue trabalhar com Arthur (Boy, sublime em cena), um renomado diretor. Além de ser famoso por seus bons espetáculos, Arthur é conhecido por ter relações abusivas com seus atores, provocadas por sua irascibilidade. Durante a montagem de “Hamlet”, o sonho de Anna em interpretar Ofélia colide com a obsessão de Arthur em realizar a maior releitura da peça, resultando em uma relação que ultrapassa a fronteira da criação e expõe o limite entre o desejo e a ética.

Essa é a matemática do enredo. Mas, na telona do Festival do Rio, onde o longa disputa o Redentor da Première Brasil, a álgebra dá lugar à trigonometria da exasperação. Bichos se comem e se lambuzam de tinta na filó do gozo numa narrativa que é mais Zé Celso do que Laurence Olivier, mais Oswald de Andrade do que Harold Bloom. Vindo lá do estado de Jomard Muniz de Brito, Dhalia faz jus ao tropicalista de PE e leva aos cinemas um carnaval de guitarra e atabaque, uma festa bacante na qual se investiga o maquiavelismo escondido na forma da catarse estética. É um filme grande para a caretice dos tempos atuais. Um filme capaz de incendiar uma pólvora que começou a ser espalhada com “Nina” (2004), o primeiro longa do diretor, e não parou de nos salpicar com sua explosiva inquietação.

Tem “Anna” de novo no Festival do Rio 2019 nesta quinta, no Odeon, às 16h. E passa ainda nesta sexta, às 21h30, no São Luiz.

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