Anna Azevedo emplaca pérola entre os curtas de Berlim

Anna Azevedo emplaca pérola entre os curtas de Berlim

Rodrigo Fonseca

14 de fevereiro de 2017 | 11h14

“Em Busca da Terra Sem Males”: processo de observação, à moda Ozu, dos rituais cotidianos de uma tribo nos arredores do Rio de Janeiro encanta a Berlinale

RODRIGO FONSECA
Pautado pela política do entendimento, entre povos, raças e formas de fé, o Festival de Berlim é local de encontro entre culturas, cujo congraçamento por vezes rende filmes de alta voltagem poética como se viu aqui num curta-metragem carioca cujo resultado estético une rigor narrativo e encantamento: Em Busca da Terra Sem Males. É da natureza cinematográfica de sua realizadora, Anna Azevedo, conhecida pelos belos Outono (2014) e Dreznica (2008), fazer da contemplação um instrumento para detectar o que existe nas relações para além do conflito: a repetição, o ritual do dia a dia, o verbo “viver” em sua desinência mais simples. É algo de Yasujiro Ozu que se faz transbordante neste novo curta, sobre uma tribo de índios nos arredores do Rio. Ela não se faz notar pela câmera de Anna por seus exotismos, por seu específico tribal, e sim pela universalidade de suas crianças, que exercitam as aeróbicas brincantes da infância em meio a um oceano de tradições de seus ancestrais. A Berlinale viu o filme no domingo, na mostra Geração, e se comoveu com ele, tendo mais uma projeção nesta terça, quando a capital alemã vai se deliciar à brasileira também com o curta animado Vênus: Filó, A Fadinha Lésbica, de Sávio Leite.

Curta foge do cientificismo etnográfico 

Na mitologia dos Guaranis, a expressão do título do curta, Terra Sem Males, é o lugar onde os índios, enfim, encontram a paz. Mas Anna diz que o mundo que encontrou ali, entre os índios, é triste, de perda.

“É um mundo triste de tantas perdas históricas, perdas iminentes e deslocamento. Mas são seres humanos belos na alma”, diz a cineasta. “Aquilo tudo esta por um triz Basta que um carro passe para eles ficarem sobressaltados na aldeia”.

Sem incorrer numa lógica etnográfica científica, Anna produziu um tratado sobre modos de sobreviver, na lógica colorida da infância.

 

Ainda do Brasil:

Um dos maiores críticos da Europa, Yannis Zoumpoulakis, da Grécia, rasgou-se em elogios, num papo de corredor no Berlinale Palast, esta manhã, para demonstrar seu encanto pela produção brasileira Pendular, de Julia Murat. E não foi o único. Grande foi o entusiasmo por aqui em relação à delicada operação cinematográfica da diretora para fazer uma reflexão afetiva (mas, sobretudo, estética) sobre espaço, na relação de convivência entre um artista plástico e uma dançarina.

 

Sobre a competição oficial:

“The Other Side of Hope”: Aki Kaurismäki nos dá a lógica do “herói da resistência”

Nesta terça, na briga pelo Urso de Ouro na capital alemã, Aki Kaurismäki fez jus à torcida organizada por seu novo filme, The Other Side of Hope, um ímã de gargalhadas com a direção de arte e a caracterização visual  cartunística típica do mestre finlandês. Embora não seja tãããão bem aparado como O Porto (2011), do qual é irmão – uma vez que ambos abordam a questão do degredo de imigrantes em cidades portuárias -, esta comédia cítrica faz um pleito sobre igualdade com uma defesa nada comum ao cinema europeu atual: só a malandragem salva, pois malandro, como bom excluído, pode ser altruísta. Sob ecos da literatura do século XIX, o cinema do Velho Mundo investe, desde o neorrealismo, na imagem do “herói do rendimento”, marca marxista do personagem que avança pelo trabalho, pelo ideal de luta de classes. Kaurismäki inflamou questões sociais e econômicas em Berlim ao nos dar um “herói da resistência”: aquele que transcende os papéis de proletário ou de burguês, para brigar por um cantinho (sossegado) de mundo pra si e os seus. E ele o faz ao trançar duas tramas sobre modos de resistir. De um lado, um jovem sírio, Khaled (Sherwan Haji, candidato mais sólido ao prêmio de melhor ator) busca asilo na Finlândia. Do outro, um jogador de cartas, Wikström (Sakari Kuosmanen), ganha uma bolada no carteado e usa o dinheiro para comprar um restaurante. Juntas na tela, os dois enredos inflamaram a polêmica da xenofobia e da exclusão no Velho Mundo.

“Mr. Long”, filme de ação (ou quase) do Japão

Até agora, os piores são Bright Nights, da Alemanha, e On Body and Soul, da Hungria. Os melhores: The Party, da Inglaterra; The Other Side of Hope, da Finlândia; Mr. Long, do Japão; e Una Mujer Fantástica, do Chile.