Animage, uma década de resistência

Animage, uma década de resistência

Rodrigo Fonseca

10 de outubro de 2019 | 20h03


RODRIGO FONSECA
Totoro, o Mickey Mouse do império dos sentidos erguido pelo diretor japonês Hayao Miyazaki, vai passar uma semana em Recife, ajudando a tornar a celebração dos dez anos de sucesso do Animage – Festival Internacional de Animação de Pernambuco um marco de resistência para o cinema brasileiro. A 10ª edição do evento começa nesta sexta-feira e vai até 20 de outubro, contando com um dos destaques de Cannes como sua atração de abertura: “Les Hirondelles de Kaboul”, de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec. Coprodução entre França, Suíça e Luxemburgo, o longa-metragem, egresso da seção Un Certain Regard cannoise, propõe uma radiografia da ocupação de Cabul pelo Talibã, numa adaptação do romance homônimo de Yasmina Khadra. A exibição acontece no Cine São Luiz, um dos espaços exibidores, ao lado da CAIXA Cultural Recife (programação gratuita) e do Cinema da Fundação – Derby (preços populares). É nesse circuito que entra “Meu Amigo Totoro” (1988), veia aberta da pangeia de múltiplas vozes chamada japanimation: no recorte feito pelo curador Julio Cavani, o desenho será exibido em comemoração aos 30 anos de sua criação pelo Studio Ghibli. E tem a visita do cineasta francês Bruno Collet, laureado em Annecy (terra do maior festival de cinema animado do planeta) este ano com “Mémorable”.
Cavani antecipa no papo a seguir, com o P de Pop, as boas do evento.

“Mémorable”, de Bruno Collet


Em dez anos de militância do festival pela manutenção e pela diversidade do cinema de animação brasileiro, o que mais evoluiu, em termos industriais e estéticos, no setor, em nossa produção?
Julio Cavani:
Esses dez anos foram verdadeiramente revolucionários para a produção brasileira de cinema de animação. O exemplo máximo foi a indicação ao Oscar conquistada pelo longa-metragem “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu. Isso além dos prêmios vencidos por esse e por outros filmes brasileiros em Annecy, o principal festival do mundo dedicado à animação, que homenageou o Brasil em 2018 justamente por causa desse bom momento. Isso tudo ocorreu devido a uma soma de fatores, como as novas tecnologias digitais, o fortalecimento de festivais como o Animage e os estímulos dos editais públicos. É um fenômeno percebido no cinema e também no mercado de TV e internet, com o sucesso de séries como “O Irmão do Jorel” e a pernambucana “Mundo Bita”.
Que tendências a seleção deste ano aponta em linhas temáticas e em técnicas?
Julio Cavani:
Acho que a tendência é a heterogeneidade. Os filmes estão cada vez mais diversos. Ao mesmo tempo em que percebemos um número maior de documentários, que usam recursos da animação para construir alegorias baseadas em depoimentos reais (como o longa “Zero Impunity” e o curta “Sangro”), também vemos uma radicalização no experimentalismo em direção a uma maior liberdade expressiva com filmes que exercitam o nonsense (“Psiconautas” e “My Entire High School…”) ou subvertem recursos técnicos (“Tux and Fanny”).
O que o Bruno Collet carrega de mais significativo em sua representação da memória?
Julio Cavani
: No curta “Mémorable”, no lugar de transmitir uma mensagem pessimista ou trágica, Collet faz uma bonita analogia entre a perda da memória e a pintura expressionista. Ele consegue retratar o processo de abstração vivido pelo cérebro de forma extremamente poética a partir de recursos visuais que só a linguagem da animação é capaz de proporcionar.

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