ANIMAGE celebra o cinema pernambucano

ANIMAGE celebra o cinema pernambucano

Rodrigo Fonseca

05 de outubro de 2021 | 11h20

“O Mundo de Clara”, de Ayodê França, integra a seção pernambucana do Animage

Rodrigo Fonseca
Grife de resistência na exibição de desenhos, stop-motion, rotoscopia e técnicas afins de moldar a realidade em forma de invenção, o Animage – Festival Internacional de Animação de Pernambuco abre mais uma edição, a 11ª, nesta sexta, sob a curadoria do crítico Júlio Cavani, apostando no que se faz de mais potente – e poético – no setor no mundo. A prata da casa vai estar lá em peso, numa seção pernambucana que inclui: “Un”, de Paulo Leonardo; “O Homem das Gavetas”, de Duda Rodrigues; “O Mundo de Clara”, de Ayodê França; “Um Peixe pra Dois”, de Chia Beloto; “PORO’ROG”, de Biarritzzz e Marie Carangi. Até o dia 17, serão exibidos, em um formato híbrido (parte online, parte presencial) 150 filmes (145 curtas, 5 longas) de 44 países. As exibições via web serão feitas para todo o Brasil pelo site www.animagefestival.com. Já as sessões presenciais ocorrem no Teatro do Parque, importante polo aglutinador de artistas em terras recifenses.

Qual e como é a tradição do cinema de Pernambuco com a seara de animação?
Júlio Cavani:
Pernambuco vai comemorar 50 anos de cinema de animação em 2022. O marco inicial é o curta-metragem “Vendo-Ouvindo” (1972), de Lula Gonzaga, que é o artista pioneiro do estado. A produção pernambucana foi esporádica ao longo das primeiras décadas, mas tem crescido em progressão geométrica nos últimos anos. Menos de 30 curtas foram lançados até a década de 1990. Depois do ano 2000, surgiram mais de 300 novos filmes. Esse crescimento foi impulsionado pelas novas tecnologias e pelos patrocínios estatais que surgiram alimentados pelo bom momento vivido pelo cinema pernambucano. Curtas como “Até o Sol Raiá” e “Guaxuma” estão entre os mais premiados. Os primeiros longas devem ser lançados a partir de 2022, pois a produtora Viu Cine tem dois projetos em estágios avançados de produção. Muitos desses dados estão sistematizados no livro “História do Cinema de Animação em Pernambuco”, do pesquisador e animador Marcos Buccini, que participa do Animage deste ano com o curta “Nimbus” e organizará um festival comemorativo dos 50 anos da animação pernambucana em 2022.

“Cryptozoo” é um dos longas da maratona de Júlio Cavani

De que maneira a seleção brasileira de 2021 reflete as lutas raciais, de equidade de gênero e de renovação democrática hoje em pauta?
Júlio Cavani:
Os filmes reunidos pelo Animage têm sempre demonstrado que a arte da animação está conectada com as principais inquietações da sociedade contemporânea. Entre os curtas-metragens nacionais presentes em 2021 com questões de representatividade e política, estão exemplos como “Rasga Mortalha”, que faz problematizações urgentes sobre temas sociais como o genocídio indígena e a necropolítica; “Mensagem de uma Noite Sem Fim”, que transmite a agonia vivida pelos brasileiros na pandemia; e “Carne”, documentário animado que reúne depoimentos sobre vivências femininas. Há ainda curtas realizados por animadores negros, como “Oriki”, de Pâmela Peregrino; “O Mundo de Clara”, de Ayodê França; e “PORO’ROG”, de Biarritzzz e Marie Carangi.

O que os longas selecionados este ano refletem sobre a indústria animada no Brasil e no mundo?
Julio Cavani:
A originalidade, a essência autoral, a atitude política e a independência criativa estão entre os focos do Animage, que tem um perfil mais artístico do que mercadológico. Em relação ao cinema de animação, o circuito exibidor ainda é muito conservador, predominantemente infantil e comercial. Filmes adultos e experimentais, mesmo os mais premiados, dificilmente chegam ao público brasileiro, salvo raras exceções. Muitos dos longas-metragens que o Animage já exibiu só chegam ao Brasil restritos a festivais e o mesmo deve acontecer este ano com os filmes “On Gaku”, “Cryptozoo” e “Absolute Denial”.

p.s.: A Abrakazum (de Juno Moraes, Raphael Lós e Kelpo Gils) e a LEP Filmes fizeram uma parceria para transformar a animação “Baby & Lelei” em 26 episódios para TV. Criada em 2020 e com mais de 6 milhões de visualizações no Youtube, as animações de “Baby & Lelei” e sua turma têm conteúdo educativo com o objetivo de entreter e auxiliar nas atividades do dia a dia, trazendo uma nova experiência para as famílias. Nos episódios para streaming/TV, de cerca de 10 minutos cada, o objetivo é manter a base musical, acrescentando uma voz narrativa na construção das histórias, mantendo o caráter didático e lúdico.

p.s.2: Músicos mineiros consagrados, como Beto Guedes, Milton Nascimento, Fernando Brant e Lô Borges, serão homenageados na quinta livezinha que o Grandes Músicos para Pequenos apresenta, este ano, em parceria com o projeto “Diversão em Cena”. Com direção de Diego Morais e roteiro de Pedro Henrique Lopes, o programa vai apresentar o espetáculo digital inédito Trenzinho de Minas, neste domingo, às 16h. A live vai alternar trechos da peça com quadros musicais e atividades interativas. A exibição será feira no canal no Youtube da Fundação ArcelorMittal (www.youtube.com/FundacaoArcelorMittal) e no Facebook do Diversão em Cena (facebook.com/DiversaoEmCena). Na trilha sonora, estão sucessos como “Canção da América”, “Bola de meia, bola de gude”, “Fé Cega, Faca Amolada”, entre outros clássicos nacionais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.