Animação no domingo do Festival do Rio e do Fest Aruanda

Animação no domingo do Festival do Rio e do Fest Aruanda

Rodrigo Fonseca

11 de dezembro de 2021 | 11h18

Wagner Moura integra o elenco de vozes de “Meu Tio José”, que concorre ao troféu Redentor

Rodrigo Fonseca
Realizados simultaneamente em duas cidades de praia e de diversidade cultural plural, o Festival do Rio, no RJ, e o Fest Aruanda, em João Pessoa, vão viver um domingo dedicado ao cinema de animação em suas seleções competitivas. Em terras cariocas, a Première Brasil vai se emocionar com “Meu Tio José”, produção baiana de Ducca Rios. Em telas paraibanas, o Aruanda vai rir com “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos De Gente”, divertidíssimo experimento híbrido de mockumentary e comédia pilotado por Cesar Cabral, a partir de São Paulo. Ambos os longas fizeram sua estreia internacional em Annecy, a Cannes da indústria animada.

Politicamente inquieta desde sua fundação, com o filme charge “O Kaiser” (1917), a animação brasileira destacou-se mundo afora com ataques ao imperialismo (“Meow”), à violência contra a mulher (“Carne”) e à homofobia (“Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica”), mas nunca havia falado da ditadura militar de maneira tão frontal, contundente e comovente como faz em “Meu Tio José”. No Rio, o filme está na disputa pelo troféu Redentor, com sessão neste 12 de dezembro, às 20h30, no Cinépolis Lagoon. Egressa da Bahia, a reconstituição das lutas de José Sebastião de Moura – membro do grupo de esquerda Dissidência da Guanabara, cujo nome é sempre lido entre os responsáveis pelo sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969 – saiu de Annecy cercado de elogios. Seu realizador, Ducca Rios, é sobrinho de José, que ganhou a voz do astro Wagner Moura. O tio do cineasta morreu no início dos anos 1980, num crime com evidências fortes de motivação política, até hoje não solucionado.
“Meu tio era como um herói para mim, mas não ainda porque ele havia lutado contra os ditadores. Eu primeiro o admirei como mergulhador e pescador. E, é lógico, por causa do seu talento no desenho e na pintura. José era um artista, como seu pai, Homero, meu avô… e como eu também”, disse o cineasta ao Estadão, à época de Annecy.
Animado em 2D, contando ainda com as vozes de Lorena Comparato, Tonico Pereira, Jackson Costa, Evelin Butchegger e Bertrand Duarte, “Meu Tio José” é uma súmula das saudades de Ducca. No filme, o menino que ele foi se chama Adonias e ganha a voz de Cauã Levi. O conflito principal se dá a partir de uma redação que Adonias tem que escrever na escola, no mesmo dia em que seu tio sofre o atentado, em 1983, sendo depois levado ao hospital em estado grave. Daí em diante, Adonias tem que lidar com a tristeza de sua família, com as desavenças na escola e com a angústia de ter que cumprir a tarefa pedida pela professora.

Já lançado comercialmente em circuito carioca e paulistano, “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente” tem no verbete “solidão” a palavra que lhe serve de bússola. Cesar Cabral, seu diretor, pode deixar Aruanda com o troféu de melhor longa. E há quem já cogite indicações ao Oscar para a produção. Nele, encontramos a solidão dos que acreditaram no punk como expressão de rebeldia capaz de conter a náusea da utopia falida dos anos 1980. É a solidão dos que vivem numa metrópole onde cabe de tudo, só se agigantando em suas contradições. É a solidão dos que criam na medida do risco, como é o caso de Arnaldo Angeli Filho, cartunista que é, a um só tempo, protagonista e arena de uma narrativa animado em stop motion, técnica na qual objetos são filmados quadro a quadro, dando uma sensação de movimento. Narrativa que se passa, parcialmente, na cabeça dele. Mesclado documentário e fabulação, com uma faísca de sinestesia antes só testada pelo curta glauberiano “Jorjamado no Cinema” (1977), o longa é um liquidificador de referências pop.
Sua passagem por Aruanda é precedida pelo sucesso que o filme alcançou na Europa, em sua projeção em Annecy, do qual saiu coroado com o Prêmio Contrechamp. Milhem Cortaz tem uma atuação antológica como a voz do Sid Vicious da periferia de São Paulo, consagrado na revista “Chiclete com Banana”, que circulou de 1985 a 1990, chegando a imprimir 110 mil exemplares. A direção é de Cesar Cabral. O cineasta de Santo André esteve em Sundance, em 2011, com o premiado curta-metragem “Tempestade” e colecionou láureas (como o troféu Coral, do Festival de Havana, e dois Kikitos de Gramado) por “Dossiê Rê Bordosa”, também baseado no universo de Angeli.

Angeli é interpelado por sua criação mais rebelde

Realizado há 60 anos na França, Annecy encontrou em “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos De Gente” uma inusitada mescla de documentário e distopia, num cruzamento de “Mad Max” com “Tapa na Pantera”, meio “Repo Man”, meio “Mais Estranho Que a Ficção”. Em sua porção não ficcional, encontramos um .doc talking head, de muita falação, no qual o próprio Angeli, caracterizado em forma de boneco, fala de processos diversos. Ele desabada sobre o ator de criar, de viver, de se reinventar, de usar óculos escuros e de tornar isso tudo uma coisa só. Do outro, num registro distópico, vemos o que se passa na cabeça do artista gráfico quando ele parece querer se livrar de suas crias do passado, transformando num deserto árido o que era uma São Paulo quadrinizada – e universalíssima. É uma trama sobre desapego e sobre uma perseverança quase romântica, que encontra equilíbrio na montagem de Eva Randolph.
Ao confessar não ter problemas em matar personagens, uns minutos antes de afirmar não ter problema em jogar bens materiais fora, Angeli – o cronista existencial por trás de tirinhas de HQ que amadureceram o humor nas Américas – instiga no espectador uma sensação de que a facilidade dele em se libertar de amarras pode ser um sintoma do modo como a gente vem lidando com as falências morais de nosso próprio país.
Talvez por isso, a presença de um depoimento da cartunista Laerte, que avalia esse desapegar de Angeli como um sinal de maturidade, complexifique juízos rápidos que um filme tão catártico pode gerar. E isso acontece pelo fato de uma estrutura de narrar tão metalinguística se colocar em dúvida e se problematizar todo o tempo, num gesto corajoso de seu diretor. A dúvida maior se expressa na voz os Irmãos Kowalski (saída do gogó de Paulo Miklos), ao perguntar (o tempo todo) se o tal Bob Cuspe é o escolhido… ou seja, um herói. E o modo como Miklos expressa perplexidade é o melhor: “Ele não cospe mais!”. Tomara que o júri de Aruanda dê a Milhem uma menção honrosa por seu desempenho vocal. Merecia.

p.s.: Entre as bossas estrangeiras do Festival do Rio, presta atenção em “A Chiara”, de Jonas Carpignani, que será exibido nesta segunda, às 18h45, no Reserva Cultural Niterói 3. No último fim de semana, a jovem Swamy Rotolo ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Cairo, no Egito, por seu desempenho neste thriller à italiana (de tônus dramático) sobre a reeducação afetiva de uma adolescente em meio à descoberta de que seu pai é um criminoso. Há um delicioso diálogo onde se escuta: “Aquilo que você chama de mafioso eu chamo de ser um sobrevivente”. Seu realizador rodou antes “Ciganos da Ciambra” (2017), produzido por Rodrigo Teixeira e Martin Scorsese. Tem mais uma sessão dele no dia 13, no Reserva Cultural Niterói 3, às 18h45.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.