‘Angustia-me!’, que o teatro vive

‘Angustia-me!’, que o teatro vive

Rodrigo Fonseca

09 de maio de 2021 | 09h57

Fábio Ventura e Rogério Garcia dividem um set pornô na peça de Márcia Brasil e Julia Spadaccini, hoje em cartaz, via YouTube – fotos de @Alyrio Tkaczenko

Rodrigo Fonseca
Angustia-me pensar que hoje passa tão pouco, nas TVs a cabo, um espetáculo de dor chamado “O Pagamento Final” (“Carlito’s Way”, 1993), uma das muitas obras-primas de Brian Russell De Palma, que, em seu âmago, carrega uma canção de Joe Cocker (1944-2014). É a música na qual o inglês cantava “Such joy and happiness you bring / Like a dream /A guiding light that shines in the night /Heaven’s gift to me / You are so beautiful to me”. A música toca pela primeira vez no longa-metragem quando o gângster Carlito Brigante, encarnado num alazão chamado Al Pacino, vai visitar seu grande amor, a dançarina Gail, após anos de cadeia, depois de uma revisão de sua vida no crime. Gail viceja em cena graças ao talento de Penelope Ann Miller, um dos mais luminosos holofotes vivos do cinema americano dos anos 1990, hoje escalada para a biopic “Reagan”, nos cinemas, vivendo a Primeira Dama Nancy, ao lado de Dennis Quaid, sob a direção de Sean McNamara. Penelope era capaz de fazer o tempo parar, dançando ao som de Cocker, cuja rouquidão, nos versos de “Unchain My Heart”, ecoa pela nova peça teatral (agora em versão filme-peça) de Julia Spadaccini e Marcia Brasil. Seu título é a palavra pronominada que abre este rosário de saudades deixadas pela ausência dos longas dirigidos por De Palma, visto que os três últimos trabalhos dele – “Guerra Sem Cortes”, de 2007; “Paixão”, de 2012; e “Dominó”, 2019 – foram esnobados por exibidores por aqui. Em certa medida, o espetáculo disponível gratuitamente no Youtube até 30/06, com retirada de ingressos pelo Sympla, via https://www.sympla.com.br/angustia-me, estrutura-se, também, sobre as curvas da palavra “saudade”, seja pelo abandono, seja pela espera, seja pelo luto. “Angustia-me!”, encenado sob a direção de Alexandre Mello, dói nos três vértices em que se triangula, mas também abre deixa para risos, numa revisão sinestésica da mesma década de 1990 em que os brasileiros aprenderam a assobiar Cocker e viram “O Pagamento Final” dublado no “Supercine”, com Ricardo Schnetzer cedendo a voz a Pacino e Isis Koschdoski, a Penelope. Fala-se da liquidez dessa tal década muitas vezes, e se cantarola Cocker, num papo regado a sedução entre um vendedor de uma loja de roupa masculina (Leandro Baumgratz) e uma balconista de uma loja de fast-food (o vulcão Raquel Rocha, numa erupção de sentimentos retesados). Eles papeiam no fumódromo de um shopping. Ali equaciona-se uma das tônicas de um texto cuja frase farol é “Todo mundo descansa, menos o coração”. É a tônica de que há sempre duas solidões que se aguardam, como declamava o poeta catarinense Lindolf Bell (1938-1998). Mas, na colisão daqueles dois solitários brota mais do que tesão e molho tártaro. Ali, estabelece-se uma triagem de vazios, de escolhas pessoais que ligaram o nada a lugar nenhum.

Noêmia Oliveira e Maria Adélia na maquiagem do luto

A mesma sensação de “podia ser” e de “quase fui” passa pela conversa alegórica de uma maquiadora funerária (Maria Adélia), que sonhava em maquiar os olhos violáceos de Elizabeth Taylor (1932–2011), com o corpo de uma operária (Noemia Oliveira, em contagiante atuação). A jovem morreu numa queda acidental da janela do refeitório de uma fábrica de jeans, ao passar seu batom vermelho. Sua história faz lembrar “A Morte da Porta-Estandarte”, conto seminal de Aníbal Machado (1894-1964), por inventariar desejos fraturados pelas surras do dia a dia e por violências abruptas. Ali, a saudade se reporta àquilo que não se viveu. Mas a morte da moça teve como testemunha um funcionário que hoje é ator pornô (Rogério Garcia, numa interpretação em estado de graça). Durante a gravação de um “Bound Gods” brasileiro, com falas eróticas mais próximas de Caio Fernando Abreu (1948-1996) do que os diálogos de um “Me Atirei No Pau Do Gato” qualquer, esse Rocco Siffred do Rio de Janeiro acolhe em seu afeto um aspirante a garanhão (Fábio Ventura, em comovente composição da insegurança e da obstinação) com generosidade. É uma generosidade inerente só àqueles que, no viver de todo dia, perderam tudo à vista. Esse mosaico de gente sozinha é (bem) iluminado por Carmen Slawinski com uma delicadeza que não sublinha sentimento algum em excesso. O fraseado de Marcia e Julia cuidam disso, apoiado nos olhos de seu elenco, que vai sendo enquadrado sob o vetor da vertigem na fotografia dionisíaca de Alyrio Tkaczenko, que tira certezas do eixo, ao rodar o cenário em busca de verdades… e de ecos de Cocker.

Molho tártaro têmpera o papo entre Leandro Baumgratz e Raquel Rocha num fumódromo

De garganta metálica, o buldogue do roquenrol britânico pedia, em “With a Little Help From My Friends”, só: “Lend me your ears and I’ll sing you a song /And I’ll try not to sing out of key”. É mais ou menos o que vemos nos três eixos de “Angustia-me!”. Anos depois, num duo com Jennifer Warners, para embalar Debra Winger e Richard Gere em “A Força do Carinho” (1982), com “Up Where We Belong”, Cocker cantou: “Who knows what tomorrow brings /In a world few hearts survive /All I know is the way I feel /When it’s real, I keep it alive”. Não há muita certeza acerca do Amanhã dos personagens de Marcia e Julia, fora o caminho da moça que morreu de acaso matado. Mesmo ela há – de alguma maneira – de perdurar, nem que seja na cabeça da gente, embatucada pela esperança que serve de desodorante contra o futum da derrota. É esse desodorante que hoje passa de mão em mão pelo teatro carioca, em sua luta bravia para sobreviver em dias de covid-19. E nas mãos de Marcia, Julia e Alexandre Mello (sempre hábil ao propor o fracionamento dos sufocos retratados, num timming charmoso), esse desodorante vira Chanel nº5, numa alquimia poética.

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