Andy Garcia, o poderoso sobrinho do Chefão

Andy Garcia, o poderoso sobrinho do Chefão

Rodrigo Fonseca

01 de dezembro de 2020 | 18h51

Rodrigo Fonseca
Cotado nos anos 1990 para interpretar Ayrton Senna e o médium José Arigó, Andrés Arturo García Menéndez, cubano de Havana adotado por Hollywood após “Os Intocáveis” (1987), nunca teve a chance de assumir a brasilidade que lhe ofereceram, mas viveu tempos em nosso imaginário cinéfilo como galã – e como grande ator. Embora hoje faça bonito em plataformas digitais como a Looke à frente do fofucho “Ana”, o ator de 64 anos, eternizado como Andy Garcia vive relegado a papéis aquém de seu charme e de seu talento, como será possível checar a partir de quinta-feira, com a estreia de “Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone”. São Paulo, RJ, BH e Brasília vão conferir a releitura da montagem do terceiro “O Poderoso Chefão” pilotado pelo próprio Francis Ford Coppola, tendo Garcia em uma atuação memorável, indicada ao Oscar de melhor coadjuvante. Ele viveu líderes do crime depois disso, tanto na franquia “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Soderbergh, quanto no recente “A Mula” (2018), de Clint Eastwood. Mas nada com o peso de prestígio que ele alcançou ao interpretar o sobrinho pipa voada de Al Pacino. O personagem deste está no título do longa-metragem, traduzido aqui como “O Poderoso Chefão de Mario Puzo – Desfecho: A Morte de Michael Corleone”. Trata-se de um dos mais exuberantes espetáculos cinéfilos de 2020. A nova edição amplificou – e muito – o ritmo de uma narrativa que sempre foi tratada como Patinho Feio na comparação com seus antecessores. E houve, já na época de sua estreia, no Natal de 1990, uma distância gigante entre ele e as Partes I (1972) e II (1974) da trilogia inspirada na literatura de Mario Puzo. É um hiato similar (e medular) à altura do que se viu em “Desafio à Corrupção” (1961) e “A Cor do Dinheiro” (1986), ambos com Paul Newman como o bamba da sinuca Eddie Felson, ou na distância entre “Sarabanda” (2003) e “Cenas de um Casamento Sueco” (1974), duas pérolas de Ingmar Bergman. Nessa distância, os temas da velhice, da finitude e do rearranjo ético das relações sociais e os ecos de “Rei Lear” tornaram-se mais fortes. Assim como é forte a atuação de Garcia. Todos os “reparos” feitos agora por Francis Ford – como diminuir a duração de sua filha, a diretora Sofia Coppola em cena e aparar o ralentado início de outrora e o confuso fim antes exibido – tornam o longa mais dinâmico. Porém, o que mais conta em sua volta à sala escura é a alta voltagem trágica da trama e precisão com que Francis Ford dominam a engenharia do tempo e do espaço da arte sequencial, saltando de arena em arena (de Nova York a Sicília) aproveitando todos os recursos de sinestesia que a edição de som de Gloria S. Borders e a fotografia de Gordon Willis (1931-2014) oferecem. A sequência do atentado a um conclave de chefões cometido por um helicóptero tripulado por criminosos é mais eletrizante hoje do que foi em 1990. E como é bom ver Garcia em seu apogeu. No Brasil, o ator foi dublado por Hércules Franco e por Júlio Chaves.
p.s.: Já na Apple TV, “On The Rocks”, o novo trabalho de Sofia Coppola, é um quindim de fofura e de sabor, com Bill Murray impagável no papel de um papai playbou querendo reaver o amor de sua filha (Rashida Jones).

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