Anamaria Vartolomei: talento sacode a França

Anamaria Vartolomei: talento sacode a França

Rodrigo Fonseca

17 de janeiro de 2022 | 12h31

De origem romena, a atriz Anamaria Vartolomei vive uma estudante de Letras na França dos anos 1960 no drama “L’Événement”, ganhador do Leão de Ouro de 2021

RODRIGO FONSECA
Ganhador do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, laureado por decisão unânime de um júri presidido pelo sul-coreano Bong Joon Ho (de “Parasita”), “L’Événemant” explodiu no gosto da crítica europeia, em sua exclusão por circuitos comerciais, sendo vendido para 40 territórios mundo afora. Segundo longa da carreira da realizadora franco-libanesa Audrey Diwan, uma roteirista profissional de 42 anos, a produção recria a França de 1963 a partir da jornada de uma estudante de Literatura, muito jovem, que precisa fazer um aborto. Há época, abortar, na França, era um crime, sujeito a punições até para os médicos e enfermeiros envolvidos. Visto por 125 mil pagantes, em seu país de origem, desde sua estreia, em novembro, esse drama foi um dos títulos mais disputados entre os 187 título reunidos de sexta até esta segunda pelo fórum online Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français. É um evento do órgão do Ministério da Cultura francês que legisla sobre a carreira comercial de sua indústria audiovisual mundo afora. Um órgão chamado Unifrance. E um dos eventos mais badalados que a instituição promoveu foi uma reunião, via zoom, com novíssimos talentos cinematográficos de sua nação. Entre as vozes autorais convidadas, a que ecoou mais alto, no bate-papo, foi a de Anamaria Vartolomei. Aos 23 anos, a atriz, de origem romena, é a protagonista da trama rodada por Diwan.
“Era uma narrativa que exigia um enfrentamento de desafios físicos, mas Audrey me guiou de modo a me deixar confortável. Eu cresci fazendo filmes, depois de ter me encantado por Teatro na escola. Mas o papel que ela me deu era desafiador”, contou Anamaria, que vive uma espécie de alter ego da escritora Annie Ernaux, cujas experiências pessoais inspiraram Diwan.

Outro filme que anda arrebatando elogios na seleção da Unifrance, órgão do Ministério da Cultura da França que realiza o Rendez-vous (anualmente, sempre no mês de janeiro, antes presencialmente em Paris, e, agora, online, via Zoom), é “A Fratura” (“La Fracture”), de Catherine Corsini, que fez carreira no último Festival do Rio. Foi o ganhador da Queer Palm, a láurea de simbolismo LGBTQ+ de Cannes. Em sua narrativa tensa, as namoradas Raf (uma inspirada Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (Marina Foïs) encaram uma jornada infernal em um hospital em meio a um piquete na França. A sala de espera da ala de Emergência, onde as duas estão, será palco para uma guerra entre classes, na qual heróis, mártires e vítimas se equiparam. “Tentei transformar a sala de espera da emergência numa espécie de palco para um teatro filmado”, disse Catherine ao Estadão. “Nesse palco eu deflagro as lutas que fazem da França um país de tradição revolucionária”.

Juliette Binoche e Vincent Lindon estrelam “Feu”, de Claire Denis

Ao largo do Rendez-Vous, que termina na segunda, a Unifrance executa, paralelamente, uma mostra online, aberta ao público, chamada MyFrenchFilmFestival, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée, e “Charuto de Mel”, drama da cineasta Kamir Aïnouz. Basta clicar https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/ para acessar o conteúdo.

Descobertas francesas da Unifrance:
a) Depois de lançar “Un Autre Monde”, o diretor Stéphane Brizé vai filmar um novo longa ambientado numa praia, centrado em um conflito amoroso;
b) Tudo indica que Claire Denis vai concorrer ao Urso de Ouro no 72º Festival de Berlim, que anuncia seus concorrentes nesta quarta-feira, com “Feu”. Juliette Binoche e Vincent Lindon são os protagonistas;
c) Consagrado por longas como “Adeus, Minha Rainha” (2012), Benoît Jacquot vai rodar seu próximo longa no litoral do Japão, com protagonistas nipônicos e um ator francês.

p.s.: Um dos mais prestigiados festivais de documentário do mundo, o Visions du Réel, cuja 53ª edição agendada de 7 a 17 de abril, na Suíça, vai prestar um tributo ao diretor italiano Marco Bellocchio, cujo último longa-metragem, “O Traidor” (2019), foi parcialmente rodado no Rio. Seus dois primeiros longas, “De Punhos Cerrados” (1965) e “A China Está Próxima” (1967) são considerados marcos da Itália nas telas.

p.s.2: Tem Mavel nesta “Tela Quente”, às 23h30, após a estreia do “BBB 22”: é noite de “Deadpool” na Globo. Na trama, o ex-militar e mercenário Wade Wilson (Ryan Reynolds, em estado de graça) é diagnosticado com câncer em estado terminal. Porém, ele encontra uma possibilidade de cura em uma sinistra experiência científica. Recuperado, mas gourmetizado com poderes de cura e uma super destreza, ele retorna com um senso de humor aloprado e um desejo de vingança imparável. A produção custou US$ 58 milhões e faturou US$ 782 milhões. Wade é dublado por Reginaldo Primo no Brasil.

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