‘Amigos de Risco’: cartografia da noite do Recife

‘Amigos de Risco’: cartografia da noite do Recife

Rodrigo Fonseca

04 de junho de 2022 | 09h47

Há um clima de “Depois de Horas” no longa pernambucano dirigido por Daniel Bandeira

Rodrigo Fonseca
Exibido em competição pelo troféu Candango no Festival de Brasília de 2007, “Amigos de Risco” passou por perrengues similares aos enfrentados por seus personagens nos 15 anos em que ficou ausente, a começar por ter tido uma cópia extraviada num voo, o que complicou sua possibilidade de estrear. Mas, em 2022, o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio e em São Paulo, agendou uma série de exibições dessa caudalosa narrativa em sua telona. Em terras cariocas sua sessão é às 16h. Em território paulista, tem projeção dele às 14h e às 18h.
Na trama escrita, dirigida e editada por Daniel Bandeira, o malandro Joca (Irandhir Santos) nunca foi flor que se cheire e, por isso, teve de sair do Recife. Quando suas confusões se aquietam, ele está de volta. E resolve celebrar com os parceiros do coração: Nelsão (Paulo Dias), garçom cheio de dívidas com agiotas, e Benito (Rodrigo Riszla, uma força da natureza), funcionário subserviente de uma gráfica. Um reencontro regado a cevada abre precedentes para sonhos, projetos e inquietações entre eles, até que Joca, numa visita a uma boate, passa mal e desmaia, sob o vetor de um certo pó branco em suas vias nasais. Sem dinheiro, transporte ou comunicação, seus parceiros o carregam pela cidade deserta, onde cada esquina guarda surpresas… e o tal “risco” do título.
A fotografia é assinada por Pedro Sotero, que clicou os cultuados filmes “Aquarius” (2016) e “Bacurau” (2019).
Na entrevista a seguir, Bandeira explica seu olhar sobre o Recife.

O que “Amigos de Risco” explora da geografia do Recife? Que cidade está em cena ali?
Daniel Bandeira:
Recife é uma cidade limítrofe, indecisa entre a tradição e a modernidade, entre ser metrópole e ser província. Para mim, sempre foi uma cidade caleidoscópica, labiríntica, assombrada pela iminência da violência. No filme, tratamos de distorcê-la um pouco mais, confundindo pontos de referências, eixos, direções, nomes de ruas… Nativos ficarão confusos, mas pessoas de outras cidades devem perceber uma cidade confusa, sem fim tanto espacial quanto temporalmente. E, talvez, nisso, identifiquem suas próprias cidades.
O que o Recife passou a representar como referência criativa para o audiovisual, entre os anos 1990 e o sucesso recente de “Bacurau” e de “Carro Rei”?
Daniel Bandeira:
O Recife sofre, há séculos, com sua própria dualidade e traz esse desconforto para seu cinema. Ele nasceu como um porto, sempre suspirando pela “modernidade europeia” do além-mar, mas é também foz do subdesenvolvimento de seu interior. Muitos dos realizadores que produzem na capital são oriundos de lá, inclusive. Assim, quando aborda questões do Recife, o cinema geralmente expõe raízes fincadas no interior. Então creio que o cinema feito em Recife é um cinema de muita bile, de muito ressentimento com um processo histórico desigual, fincado no passado e que frutifica bem aqui no presente. E é esse vigor que, de certa forma, reverbera na receptividade que esse cinema vem tendo ao longo desses anos, seja em forma ou conteúdo. Aqui temos essa tendência em ressignificar elementos tradicionais, mas isso costuma fazer parte do mesmo movimento de buscar nas origens, as armas para nossa resistência. A luta que ocorria no interior agora é trazida pelo cinema para a arena urbana.
O que existe de mais transgressor na cidade do Recife que instiga o seu olhar?
Daniel Bandeira:
Recife é uma cidade irrequieta, que se molda de maneira muito orgânica às intempéries. Ela não liga muito para hegemonias. Tendências chegam por aqui e são recombinadas e ressignificadas, tanto pelas elites quanto pela periferia. Há um certo orgulho em “fazer as coisas do nosso jeito”. Está na cultura, no nosso modo de experimentar a cidade. Um amor rancoroso em meio a um ódio carinhoso. Tough love, acho. A cidade exala esse conflito e de certa forma acho que vejo nisso um campo fértil para a criação de novas histórias. Contadores de histórias, sabe como é, adoram uma boa confusão.

p.s.: Tem “Jurassic Park” (1993) na Globo na tarde deste sábado.

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