‘Amigas de Sorte’: a chanchada do ‘after hours’

‘Amigas de Sorte’: a chanchada do ‘after hours’

Rodrigo Fonseca

04 de maio de 2021 | 12h27

Susana Vieira, Rosi Campos e Arlete Salles em “Amigas de Sorte”, de Homero Olivetto – foto de Catarina Sousa

Rodrigo Fonseca
Incorreção política, o patrimônio mais precioso da comédia desde Aristófanes (447 a.C. – 385 a.C.), espalha-se ao longo dos 80 minutos de “Amigas de Sorte” como poços de água potável, para saciar a sede de ironia no deserto que se estabeleceu na seara brasileira do riso, nestes tempos de pandemia, desde que “No Gogó do Paulinho” e “Tudo Bem No Natal Que Vem” estrearam, no fim de 2020. O recém-chegado “O Auto da Boa Mentira”, de José Eduardo Belmonte, hoje em circuito, vem regando o gênero mais popular de nosso audiovisual com essências de Ariano Suassuna, sobretudo no segmento estrelado por Leandro Hassum. Mas suas ambições etnográficas e seu flerte com o projeto estético do autor de “O Auto da Compadecida” enleva sua estrutura até um planalto mais próximo da antropologia do que da gargalhada – embora esta também esteja lá. Mas, no caso do longa-metragem estrelado por Arlete Salles, Rosi Campos e uma Susana Vieira em estado de graça, previsto para estrear na streaminguesfera no dia 17, qualquer possível amarra com as Ciências Sociais (“a” bússola de nosso audiovisual desde os anos 1960) está desatada, sem nós. É comediona mesmo, para rir de queixo de frouxo, sem compromissos com rizomas da política e equações morais. E há nela uma montagem sábia, arquitetada por Marcelo Moraes, para disfarçar o que pode soar coxo e valorizar o que há de mais contundente. É um estudo on the road sobre os sagrados poderes da lealdade, assunto que seu realizador, Homero Olivetto, investigou bem em “Reza a Lenda” (2016), um bom thriller ação tratado como saco de pancada na aversão da crítica aos gêneros adrenalinados. Nele, assim como no novo filme do cineasta, a espinha dorsal era o companheirismo, estruturado com base nas escolhas de um sujeito e no impacto de suas decisões sobre o bem estar de amores e parceiros. Aqui, o argumento é de Fernanda Young (1970-2019) e Alexandre Machado, apinhado de ecos do subestimado “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”, escrito pelo casal e lançado em 2006. O argumento foi transformado em roteiro por Lusa Silvestre (do insofismável “Estômago”). Na escrita de Lusa, o peso do verbo “escolher” também tem consequências pesadas sobre suas protagonistas, seus oponentes e suas duplas dinâmicas – incluindo aí um gatinho, batizado afrodisiacamente de Boquete. Só que o “peso”, em questão, é o do desvario, de uma deliciosa loucura digna de “Depois de Horas” (“After Hours”, 1985), de Scorsese, mas regada com o molho da chanchada nacional. Ou melhor, da neochanchada. Esse termo aí ao lado, tão polêmico, foi cunhado ao longo de um debate realizado na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, promovido pelo realizador Marcelo Lafite (1963-2019), com a diretora Betse de Paula e o diretor de TV Maurício Sherman (1931-2019). O jargão passou a ser usado para designar a reciclagem histórica de ingredientes do humor praticado no Brasil, nas telonas, entre 1934 e 1962, pelas chamadas “comédias carnavalescas”. Os tais ingredientes: crônicas de costumes centradas em quiprocós sociais do momento; utilização de heróis pícaros, ou seja, malandros, como contraponto de ditames moralizantes; formações amorosas entre classes financeiras diferentes; roteiros palavrosos, calçados mais em piadas do que em movimentos de câmera sofisticados, valorizando ao máximo a expressão corporal de seus cômicos. Tudo isso passou a ser empregado em um novo contexto, muito característico das transformações econômicas do país, nas eras Lula e Dilma, da “emergência econômica”, ou seja, o trânsito dos indivíduos pela pirâmide social, a partir do maior acesso ao consumo. Foi assim em “De Pernas Pro Ar” (2010-2019), “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012-2015), “Um Suburbano Sortudo” (2016) e “Os Farofeiros” (2018). É uma lógica de “consumo, logo existo”, um plano cartesiano onde comprar é poder… poder ser… mais ou menos como acontece com Nelita, Nina e Rita no longa-metragem de Homero. Ganhar uma bolada na Loteria modifica a realidade inercial do trio, colocando-as em movimento, da mesma forma como acontecia com Zé Trindade (1915-1990) e Violeta Ferraz (1903-1982) em “Rico Ri à Toa” (1957), de Roberto Farias (1932-2018), pra citar um parâmetro tipicamente chanchadesco, de raiz para o que Lusa Silvestre – com as artimanhas de análise comportamental que lhe são peculiares – escreveu.

Se toda boa chanchada, neo ou não, tem como base o espírito cronista, o que vemos em “Amigas de Sorte” é a crônica do “para sempre”, ou seja, uma reflexão para a festa que começa depois do suposto tempo regulamentar do baile da vida, quando a vivência conta mais do que a jovialidade. Na trama dirigida por Homero, fotografada por Pedro Farkas sem saturação, Nelita ganha a vida com as vendas de um antiquário, Nina tem uma cantina e Rita é professora aposentada. Cada uma tem um calvário cotidiano com as contas a acertar com o banco e com seus dependentes. O melhor deles é vivido pela Estrela de Belém chamado Otávio Augusto, que interpreta o marido de Nina. Toda a dedicação que elas tiveram com suas agregadas e seus agregados parece ter tomado atenção demais do projeto de felicidade que escolheram para si. Mas, depois da morte de uma quarta parceira de vida e da vitória nos jogos de azar, elas decidem ir à forra, numa viagem para Punta Del Este. Ali, o longa ganha contornos de “Se Beber… Não Case” (2009), com farras regadas a champanhe, bitucas de cânhamo, quartos de hotel finos, uma paquera sazonal pra fogosa Nelita (encarnada por Klebber Toledo), descobertas para Rita e o tal felino de nome erótico, Boquete. Silvestre, manhoso na arte das viradas de script, sacoleja a narrativa com investigações policiais e a presença de um gângster latino. Mas são apenas pitadas de pimenta para um prato cuja suculência vem da observação do amadurecimento e do quanto a amizade pode ser um músculo que não atrofia com o passar das primaveras. É da natureza das chanchadas trazer para cena figuras popularmente queridas pelo público. Nada mais coerente do que aproveitar três estrelas tamanho GG da televisão, deslocando-as de sua representação convencional. O sorriso de Arlete é uma bênção que aclama. O cabedal de palco de Rosi garante à composição de Rita camadas profundas de angústia e de alegria. E o vulcão Susana nos brinda com seu carisma. É diversão pra sentar, apreciar e deixar o esgar se aboletar na gente. Chega na semana que vem, nas plataformas NOW, SKY, VIVO, Oi, Looke, iTunes e Google Play. Vale uma hora e meia. Vale reencontrar grandes atrizes em um novo desafio. Vale por mostrar Homero buscando um veio de autor.

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