‘Amansa tiafi’: Gana reeduca o olhar de Locarno

‘Amansa tiafi’: Gana reeduca o olhar de Locarno

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2021 | 04h30

O diretor Kofi Ofosu-Yeboah, é uma das revelações de Locarno, candidatando-se ao prêmio dos realizadores estreantes com “Amansa tiafi”

Rodrigo Fonseca
Aberto a experiências de todos os cantos do mundo, como é o caso do filme islandês de ação com tons LGBTQ+s “Cop Secret”, com sessão por aqui nesta terça, o 74º Festival de Locarno foi atrás do que os países africanos andam produzindo de mais autoral e de mais experimental no campo do longa-metragem e trouxe de Gana uma mistura primorosa de thriller e chanchada capaz de esbanjar vigor em sua cartografia de exclusões: “Amansa Tiafi”. O título em inglês é “Public Toilet Africa”. A direção é de Kofi Ofosu-Yeboah, um cineasta estreante. O público suíço se acabava de rir com as peripécias de dois personagens centrais: dois ex-policiais, expulsos por corrupção, que fazem mil trambiques para arcar com uma dívida, roubando óleo de palma. Mas a estrela da produção é Ama, uma figura guerreira vivida por Briggitte Appiah, que se destaca no evento com um dos trabalhos de interpretação mais rigorosamente esmerilhados de toda a seleção feita pelo curador Giona A. Nazzaro. Nela não há humor. Há um sentimento de vingança contra o ranço colonialista em seu país.
“Ante de filmar, narrei a trama a um amigo e ele me disse que o filme de desviava muito de seu tema central, alertando-me de que isso poderia pesar na compreensão da plateia. De fato, há pouca linearidade na maneira como vivo e vejo o mundo”, disse Ofosu-Yeboah ao P de Pop. “Tal reação me fez perceber que o meu projeto funcionaria mais se assumindo uma experiência narrativa. É como um jazz, de forma livre”.

Cena do longa, que estreia mundialmente com o título “Public Toilet Africa”

Embora tenha uma rede de personagens, como um malandro bom de golfe que quer ajudar um empresário europeu a montar um resort em Gana, “Amansa Tiafi” é delineado pela jornada de Ama e sua luta para se vingar do homem que usurpou sua infância, ao cria-la de uma forma que a desviava de sua herança cultural. Uma herança ancestral que explode na tela na sequência de um banho de cachoeira regado a misticismo, no qual os orixás se fazem notar, mesmo sem citações. “Eu estudei cinema em Gana e, depois, estuei em Columbia, nos EUA, e aprendi o quanto a gente precisa se ‘deseducar’ quando sai do ensino. As leituras que fazemos numa escola de cinema são essenciais. Eu li o crítico francês André Bazin, por exemplo, que me ensinou uma metáfora curiosa: se você bota um pássaro numa gaiola, você não espera a ave cantar pra você; você canta pra ela, pra cantar com ela. É uma troca. Mas eu precisava sair das fórmulas, para aprender quem sou”, disse Ofosu-Yeboah. “A parceria com Briggite nesse filme foi essencial, pois ela é uma atriz muito talentosa”.

Ainda de Locarno…
Fala-se por todo o canto da imprensa europeia especializada em cinema da boa reverberação de “After Blue (Paradis Sale)”, de Bertrand Mandico, em Locarno. Cineasta não binário, o (ou a ou e, pra ele, vale tudo) queridinho da “Cahiers du Cinéma” (revista que serve de bíblia à cinefilia desde os anos 1950) trouxe à Suíça uma fantasia sobre um mundo onde apenas há mulheres. Lá, uma jovem vai caçar uma djin, criatura capaz de realizar desejos, qual o Gênio da Lâmpada, chamada Kate Bush. Sua direção de arte é de um requinte singular. Mas cresce a cada minuto a torcida em prol de um longa da Indonésia: “Seperti Dendam, Ridu Harus Dibayar Tuntas” (“Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”), de um diretor chamado só de Edwin. Nele vemos uma ode ao cinema B de artes marciais de Hong Kong a partir da saga de um lutador e matador de aluguel que toma uma coça de uma jovem, também assassina, e se apaixona por ela, comprando brigas com criminosos e ex-afetos da moça.
“Eram esses filmes de ação que a gente via na Indonésia nos anos de ditadura e eles tinham um senso de luta contra a injustiça que nos inspirava”, diz Edwin ao Estadão.
Do que já se viu, desde o início do evento, merece atenção ainda “A Távola de Rocha”, de Samuel Barbosa, que resgata o universo lúdico do cineasta português Paulo Rocha (1935-2012), lembrado entre nós por “Verdes Anos”, que deixou Locarno, em 1964, com o prêmio de melhor longa de estreia. Dono de uma obra enquadrada na linhagem moderna da arte lusitana, capaz de olhar mundos próximos ou distantes (como o Japão) com uma mirada poética, capaz de liricizar o que tinha tudo para ser cientificamente etnográfico, Rocha dirigiu histórias aclamadas mundialmente, como “A Ilha dos Amores”, indicado à Palma de Ouro de Cannes em 1982. Outra belezura que se destacou aqui foi “The Alleys”, um thriller vindo da Jordânia, centrado no dia a dia de uma vizinhança violenta.
Nesta terça, a Piazza Grande de Locarno confere um dos blockbusters mais esperados (e mais ousados) do ano: “Free Guy: Assumindo o Controle”, do canadense Shawn Levy, com Ryan Reynolds a se libertar da persona de Deadpool e viver um NPC (personagem não controlável) de um mundo de videogames, tendo o diretor Taika Waititi (de “JoJo Rabbit”) como vilão. É um delicioso ataque da Fox, hoje ligada à Disney, à cultura algorítmica no mercado audiovisual.

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