Almodrama disputa os prêmios Platino 2017

Almodrama disputa os prêmios Platino 2017

Rodrigo Fonseca

22 de julho de 2017 | 13h39

O cineasta espanhol é esperado para a entrega dos Platino, em Madri (Joel Ryan/Invision/AP)

Rodrigo Fonseca
Indicado por seu Julieta ao troféu de melhor diretor na festa de 2017 dos Prêmios Platino, o Oscar da América Latina e dos povos ibéricos, a ser entregue neste sábado, em Madri, Pedro Almodóvar é a figura mais esperada pelas dezenas de jornalistas de língua estrangeira que se aboletam neste momento na Caixa Mágica. O local é um misto de estádio para partidas de tênis e centro de convenções, localizado na capital da Espanha, e está lotado de gente a fim de saber o que o cineasta espanhol tem a dizer sobre estética, política, sexualidade e NetFlix. Em Cannes, onde presidiu o júri pela Palma de Ouro deste ano, entregue à (deliciosa) comédia sueca The Square, ele incendiou discussões intermináveis ao criticar a decisão da emissora digital de se recusar a lançar alguns de seus títulos de longa metragem em salas de cinema. Pode ser que ele se negue a falar do assunto aqui. Pode ser que se negue a falar de seus dois novos experimentos como coprodutor: o longa zero km do iraniano Asghar Farhadi (um projeto ainda sem título, com Penélope Cruz, Javier Bardem e Ricardo Darín a ser rodada em agosto) e Zama, da argentina Lucrecia Martel, com Matheus Nachtergaele no elenco e participação criativa da Bananeira Filmes, do Brasil. Mas tem chances de ver seu mais recente exercício autoral sair daqui (merecidamente) laureado, podendo ganhar ainda como Melhor Filme e Melhor Atriz (Emma Suárez). Se você ainda não viu, tem sessão dele no dia 30, às 15h25, no Telecine.

“Julieta”: um almodrama puro sangue

Envolvente, essa produção estabelece a madrilenha Adriana Ugarte como beldade (com talento) nível Penélope Cruz. Não se trata de “mais um Almodóvar” e sim de um grande filme sobre o viver, nas desinências mais cotidianas do verbo. É um exemplar a mais do que se chama de metamelodrama. O verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho (considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria [http://www.roteiraria.com.br/]).

O cineasta e suas estrelas

Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de Má Educação (2004) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” derivado do melodrama clássico e de suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer W. Fassbinder. De fato, o cálido Julieta tira sua percepção da condição feminina de “lições” que o cinema dos passados nos deu, potencializadas aqui por um diálogo com a literatura de Alice Munro.

Sem humor algum e sem bizarrices na linha do realismo fantástico ou do filão sci-fi vistas nos últimos trabalhos do diretor número 1 da Espanha, como Volver (2006) ou A Pele que Habito (2011), Julieta é apenas um painel dos acontecimentos da vida de uma professora universitária, ao longo de duas décadas e meia. Numa atuação esplendorosa, Adriana Ugarte interpreta a jovem Julieta e Emma Suárez (também brilhante) assume a protagonista em sua idade adulta. No início, temos um clima de suspense, que logo se converte em um registro melodramático sobre a relação caudalosa de Julieta com Xoan, pescador vivido por Daniel Grao, que mexe com a libido da jovem.

Uma crise se instaura na relação entre Julieta e sua filha após uma tragédia (ligada, como não poderia ser diferente, ao desejo). Mas nenhum dos contratempos ganha dimensão maior do que os dilemas internos de Julieta, expressando uma virada na obra do cineasta, agora menos interessados em viradas e mais preocupado com traumas psicológicos. Poucos roteiros vistos na Croisette em 2016 tiveram uma urdidura tão sólida, clara e comovente.

Sonia Braga está no páreo por “Aquarius”

Tem quatro filmes brasileiros no páreo dos Prêmios Platino nesta quarta edição da láurea: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz, representado pela musa Sonia Braga); Boi Neon, de Gabriel Mascaro (concorrendo como melhor fotografia); Bruxarias, de Virginia Curia (Melhor Animação); e Cinema Novo, de Eryk Rocha (Melhor Documentário). O campeão de indicações é prata da casa: a fantasia de DNA espanhol Un Monstro Viene a Verme, batizado entre nós de Sete Minutos Depois da Meia-Noite, e dirigido por J. A. Bayona. Vejamos quem vence. A premiação, que terá o humorista americano Rob Schneider entre os mestres de cerimônia, será exibida às 22h, pelo Canal Brasil, com comentário do jornalista e DJ gaúcho Roger Lerina, logo após a série Werner e os Mortos.