Almodóvar nas alturas na Côte d’Azur

Almodóvar nas alturas na Côte d’Azur

Rodrigo Fonseca

12 de maio de 2019 | 19h45

De volta a Cannes, aos 69 anos, o espanhol Pedro Almodóvar aposta no talento de suas parcerias habituais, caso de Penélope Cruz, em “Dolor y Gloria”

Rodrigo Fonseca
Faltam dois dias para Cannes começar, a expectativa da Europa por “Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, é enorme, mas o coração da “Cahiers du Cinéma”, Bíblia da literatura cinéfila, parece já ter um dono: o espanhol Pedro Almodóvar. É nítida a torcida da revista para que o realizador de 69 anos leve a Palma de Ouro para casa, por “Dolor y Gloria”, na 72ª edição do mais prestigiado festival autoral da indústria do audiovisual, que este ano vai de 14 a 25 de maio, com 21 produções em competição. A edição do mês do periódico dá um espaço nobre para o cineasta, com entrevista e resenha (além de celebrar, com toda razão, a escolha de quatro mulheres diretoras para concorrer). “Filmes têm uma estranha vida que começa no primeiro dia de filmagem”, diz Almodóvar, que assume semelhanças entre sua história pessoal e a saga do diretor Salvador Mallo, papel que pode redefinir a carreira do ator Antonio Banderas, muso eterno do realizador.


Até roupas de Pedro foram usadas como modelo do vestuário de Salvador, um cineasta cheio de crises em sua vida amorosa, em sua relação com as drogas e em sua saúde que busca a paz com o astro de seu primeiro filme, que acaba de ser desenterrado para uma exibição em uma cinemateca espanhola. Lançado em março na Espanha, o longa-metragem traz Penélope Cruz na pele da mãe de Salvador, numa atuação que anda arrancando elogios. Almodóvar já saiu da Croisette em anos passados com o prêmio de melhor direção (por “Tudo sobre minha mãe”) e e o de melhor roteiro (por “Volver”). Mas, nos últimos dez anos, seus longas bateram na trave em Cannes e no imaginário da cinefilia, apesar do rebuliço que “A pele que habito” criou em 2011, conquistando apaixonadamente parte dos fãs e incomodando outros. Relacionado pelo próprio Pedro a “Má educação” (2004) e “A lei do desejo” (1987), “Dolor y Gloria” pode ser um bom exemplar do chamado almodrama, uma releitura folhetinesca dos afetos a partir de parâmetros que não são da realidade e sim do legado histórico do melodrama. “Julieta”, que ele levou ao festival francês em 2016, já era um exemplo disso.

Há quem classifique o filão de metamelodrama. Esse rico verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho (considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria [http://www.roteiraria.com.br/]). Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de “Áta-me” (1989) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” derivado do melodrama clássico e de suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer W. Fassbinder.

Estima-se que o filme vá ser tema de debates no Festival de San Sebastián (20 a 28 de setembro), no norte da Espanha, uma vez que o evento escolheu Penélope para receber a honraria Troféu Donostia deste ano.

Eis a lista dos 21 concorrentes à Palma de Ouro de 2019

“The dead don’t die”, de Jim Jarmusch
“Les Misérables”, de Ladj Ly
“Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kléber Mendonça Filho
“Atlantique”, de Mati Diop
“Sorry we missed you”, de Ken Loach
“Little Joe”, de Jessica Hausner
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar
“The Wilde Goose Lake”, de Diao Yinan
“La Gomera”, de Corneliu Porumboiu
“A hidden life”, de Terrence Malick
“Portrait de la jeune fille em feu”, de Céline Sciamma
“Le jeune Ahmed”, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
“Frankie”, de Ira Sachs
“Once upon a time in Hollywood”, de Quentin Tarantino
“Parasite”, de Bong Joon Ho
“Matthias et Maxine”, de Xavier Dolan
“Roubaix, une lumière”, de Arnaud Desplechin
“Il traditore”, de Marco Bellocchio
“Mektoub, my love: Intermezzo”, de Abdellatif Kechiche
“It must be Heaven”, de Elia Suleiman
“Sibyl”, de Justine Triet

Após a premiação, dia 25 de maio, será projetada a comédia motivacional “Hors norme”, de Éric Toledano e Olivier Nakache (dupla que vendeu 20 milhões de ingressos com “Intocáveis”, em 2011), com Reda Kateb e Vincent Cassel vivendo um par de professores especializados na inclusão de alunos com autismo. No dia 15, John Carpenter, artesão do horror que influenciou alguns dos maiores cineastas do nosso tempo, receberá o troféu Carroça de Ouro em gratidão à sua estética do assombro, testada e aprovada em sucessos como “Halloween” (1978). Este ano, a Palma de Ouro Honorária será entregue, no dia 19, a Alain Delon, ator que atravessou seis décadas da História fazendo filmes. No dia 24, às vésperas do encerramento de sua programação, Cannes recebe Sylvester Stallone para uma homenagem pelo conjunto de sua carreira como astro, produtor, diretor e mito do cinema de ação, com direito a uma projeção de gala de “Rambo – Programado para Matar” (1982) em cópia 0KM e a exibição de trechos inéditos de “Rambo – Last blood”, que estreia em setembro.

p.s.: Em cartaz no Brasil com a deliciosa comédia “Vidas duplas”, o astro Guillaume Canet tem lotado cinemas na França, mesmo aqueles tomados pelos Vingadores, com a dramédia “Nous finirons ensemble”, que contabilizou 1,2 milhão de pagantes em sete dias. Pode ser o recorde do ano para o cinemão francês. Nele, titãs europeus como Marion Cotillard (parceira de vida e de trabalho de Canet), Gilles Lelouche, Benoît Magimel e Laurent Lafitte vivem um grupo de amigos que se reencontram no aniversário de 60 anos do reticente Max (François Cluzet). O riso corre solto, em situações constrangedoras para os personagens.

p.s. 2: Poucos documentários recentes tem tanta delicadeza na exumação de imagens de arquivo e tanta habilidade de vivificação de registros históricos quanto “They shall not grow old”, trabalho magistral do senhor dos anéis da Nova Zelândia Peter Jackson, numa revisão crítica da I Guerra Mundial. A narrativa é construída a partir de tomadas de batalha e cenas de dia a dia nos fronts europeus nunca antes vistas. Jackson dá um tratamento digital singular a esse material.

 

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