‘Alma imoral’, de Silvio Tendler, abre a mostra Estreias Cariocas

‘Alma imoral’, de Silvio Tendler, abre a mostra Estreias Cariocas

Rodrigo Fonseca

13 de março de 2019 | 10h25

Cena de “Alma imoral”, de Silvio Tendler,  que faz uma reflexão existencial sobre as contradições do espírito humano @fotos de Maycon Almeida

Rodrigo Fonseca
Maior documentarista brasileiro quando o assunto é a revisão crítica da História, Silvio Tendler vai lançar o esperadíssimo “Alma imoral” – um diálogo cinematográfico com o ensaio filosófico homônimo do rabino Nilton Bonder – nesta quinta, na abertura da mostra Estreias Cariocas, que segue até 20 de março, com sete longas-metragens inéditos. O cineasta e produtor Cavi Borges é o agitador cultural por trás do evento, sediado no Estação Net Botafogo, às 21h. Na sexta tem o precioso “O que resta”, de Fernanda Teixeira. No sábado, vem “Reviver”, que Cavi e Patrícia Niedermeier dirigiram a quatro mãos e dois corações. No domingo, confira “As mil mulheres”, de Rita Toledo e Carol Benjamin. No dia 18, rola “A história de um Silva”, de Marcelo Gularte, sintonizado com o maior poema épico nacional dos últimos cem anos: “O rap do Silva”. Dia 19, a atração é “Sonho de Rui”, que Cavi dirigiu com o jornalista e bamba do humor Ulisses Mattos. O fechamento dessa seleção de ouro fica por conta de “Os últimos dias de Copacabana Jack”, de Rob Curvello. Tendler inaugura esse pacote de reflexões sociais e comportamentais com uma discussão existencial que flerta com o misticismo judaico.

O documentarista carioca de 69 anos é um papa do cinema histórico

Seu “Alma Imoral” é um convite para o espectador refletir sobre conceitos universais como corpo e espírito, matéria e essência, bom e correto, compromissos e rompimentos. “Sou cineasta, não sou mago, logo, não sei prever em quanto tempo o mundo vai perceber que devemos construir uma economia solidária, que respeite os seres humanos, o meio ambiente, os animais, a diversidade cultural”, brinca Tendler. Seu .doc mostra que, ao contrário das teorias de Charles Darwin ou da psicologia evolucionista, a compreensão bíblica de corpo e alma inclui uma outra dimensão da missão animal além da procriação: sua natureza transgressora. Capaz de romper com os padrões e com a moral, a alma é o componente consciente da necessidade de evolução. Com a palavra, Tendler, com os devidos e merecidos parabéns, pois completou 69 anos na terça-feira.

Qual é o conceito de Alma Imoral que norteia o teu filme?
Silvio Tendler: O que muda o  mundo são os transgressores. As peripécias da alma dão sabor a vida. Este foi o motivo que me levou a buscar um rabino para discutir heresias renovadoras.     Que territórios você percorreu na produção desse filme e que lições tirou dessas suas andanças?
Silvio Tendler: Da sexualidade transgressora, das transgressões ao comportamento padrão, fr um mundo belicista dos que lutam pela paz.
De que modo o documentário brasileiro hoje pode ainda servir como peça de resistência aos conflitos deste nosso tempo?
Silvio Tendler: São mais do que nunca necessários

p.s.: O melhor filme brasileiro deste primeiro trimestre chega às telas nesta quinta-feira: “Mal Nosso”, de Samuel Galli, um terror que esbanja precisão na construção de planos e arrebata à força da fotografia de Victor Molin. Projetado nos mais prestigiados festivais internacionais de horror e fantasia, como Stiges, Rojo Sangre, Insólito e Night Visions, o longa-metragem narra a imolação de Arthur (Ademir Esteves, numa atuação perturbadora), um pai devotado à sua filha de 19 anos que recorre aos serviços de um matador por razões pouco explicadas, que, minutos à frente, vão nos surpreender. Arthur tem vidência: fala com os mortos e ajuda os espíritos a atenuar o fardo que carregam. Mas terá de participar de um exorcismo em sua trajetória nas franjas do Além, encarando um demônio. Esse ritual delineia todos os passos do personagem, à luz dos conselhos de um palhaço espectral. Galli construiu um roteiro que consegue injetar fartas doses de originalidade em uma ambientação que mistura “O exorcista” (1973) com “O sexto sentido” (1999). Mas os movimentos de câmera são o que existe de mais fino aqui.

p.s.2: Pra semana que vem, não deixe “Chorar de rir” passar em branco, não apenas para se deliciar com o humor de Leandro Hassum (aqui, menos varejão, e mais multifacetado, com alusões aos diferentes formatos da comédia brasileira), mas pela volta de Toniko Melo à direção de longas-metragens. Seu filme anterior, “VIPs”, venceu o Festival do Rio de 2010, mas não teve o carinho merecido de público e crítica. Pelo menos não um carinho à altura de toda a inteligência cênica do cineasta, que abre agora um emotivo debate sobre o lugar de honra que falta aos comediantes brasileiros. Hassum é uma estrela de um programa de gargalhadas que flerta com o drama ao se sentir desprestigiado, almejando uma montagem de “Hamlet” como trampolim para o respeito. Mas um elemento mágico – um feitiço encomendado a um místico vivido por Sidney Magal – tira seus planos do prumo, iniciando uma jornada em busca da autoafirmação e identidade perdida – tema da obra de Toniko. Impressiona no longa todo o requinte plástico da direção de arte de Marghe Pennacchi (espertíssima na seleção de cor dos objetos de cena) e da luz saturada (na medida certa) do fotógrafo Ulisses Júnior Malta. No doce recheio do filme, há algo das comédias americanas dos anos 1980 padrão Steve Martin, em especial “Um espírito baixou em mim” (1984), mas também um toque de Ronald Golias e sua “Família Trapo”. Nilo Perequê, personagem de Hassum é uma espécie de Bronco, com um manancial de improvisos à altura do de Golias, só que empenhados para a construção de uma figura tridimensional, que vá além das peripécias e seduza a plateia por sua riqueza de afetos.