Aline Deluna leva Josephine Baker a Paris

Aline Deluna leva Josephine Baker a Paris

Rodrigo Fonseca

23 de novembro de 2021 | 18h27

RODRIGO FONSECA
Acerto com “A” entre os grandes êxitos do teatro brasileiro da década passada, “Josephine Baker – A Vênus Negra” lançou Aline Deluna no escopo dos mais minuciosos produtores de elenco do país graças a um desempenho de canto, dança, interpretação e exorcismo dos demônios do racismo. Desempenho esse que será testemunhado pelo público de Paris num pocket show agendado para este domingo, 19h (15h no horário de Brasília), no Chez Georges, na Rue des Canettes, nº11. Sua dramaturgia mostra que existe um fio narrativo autoral encapado a aço nos textos teatrais de Walter Daguerre caracterizado pelo uso da oralidade, num gesto de “autonarração”, não como mera forma de registro, mas como um ato catártico. Isso vale tanto para seus experimentos mais realistas, como o seminal “A Mecânica das Borboletas”, uma obra-prima de puro brutalismo, como para trabalhos cheios de simbolismo, como “Jim”, no qual nos abriu as portas da percepção do grupo The Doors. Em ambos os casos, sobretudo naqueles calcados na música, ele rompe com os códigos de encenação mais imersivos e põe ator e plateia frente a frente, num embate direto, sem filtros, no qual os personagens são apenas resíduos sensoriais. Por vezes, em Daguerre, a encenação se vai e fica um procedimento nas franjas da contação de história, uma operação de Sherazade, nas quais se ritualiza uma espécie de personificação de arquétipos. É o que se passa na forma – que começa envolvente e termina comovente – com que Aline Deluna interpreta La Baker.

É um processo binário de estados de consciência e inconsciência, de yin e yang, de 0 e 1, de ser e de estar, parecido com o catártico balé de Eriberto Leão brincando de Jim Morrison em Jim. Brincando a sério. “Brincar” é o verbo de ação no traquejo com que Aline entra em cena, falando de si e de seu jeito desajeitado de ser num passado no qual “era um varapau capaz de acertar a mão na cara de uma coleguinha bailarina ao fazer um passo”. Desfiar o rosário de suas mazelas antigas cria algo mais do que comunhão com o público (seu ato é mais inteligente). Ali, ela deixa evidente que não estaremos diante de um espetáculo biográfico padrão, careta, e sim de uma cerimônia estética sobre aceitação, tendo por base uma certa Freda Josephine McDonald (1906-1975), também chamada Josephine Baker, a cujos feitos ela foi apresentada por “um tio gay”. Datas, fatos, eventos históricos… tudo isso está no texto de Daguerre, corretinho, com precisão espartana, mas não é nisso a que sua dramaturgia, refinada pelo cinzel do diretor Otávio Müller (um de nossos maiores atores), agarra-se mais. O que mais importa na escolha de falar de uma artista que foi um símbolo da luta pela inclusão racial, é o fato de termos, à frente da cena, uma atriz marcada por um histórico pessoal de “inadequações”, falando de alguém que foi, em vida, a “inadequação” em pessoa. Ali, trançam-se afetos e memórias. Ali, a palavra vira água benta, para benzer o solo pagão das desatenções nossas de cada dia.
Entre olhares de comédia slapstick, frases dignas de anotação (“Uma coisa é entregar meu corpo; outra, é entregar minha confiança”) e cenas de nudez em que Delicadeza e Sensualidade são sinônimos, num olhar sobre liberdade, Aline alcança uma instância em que sai e volta de Josephine, contando a vida dela ora em primeira, ora em terceira pessoa. Ser é estar e estar é transitório… e transitivo, por vezes direto, por vezes preposicionado. O que vemos é a luta de uma cantora que faz História na França e enfrenta o preconceito em sua América Natal.

p.s.: Nos palcos do Brasil, não perca o drama “Onde está Liz dos Santos?”, que encerra sua temporada presencial, neste domingo (28/11), no Teatro Firjan SESI Centro. A peça, que fica em cartaz no canal do Youtube da instituição em dezembro, reflete sobre as relações de poder nas sociedades autoritárias e a memória e força das vítimas nas narrativas históricas. Com texto da autora estreante Beatriz Malcher e direção de Tatiana Tiburcio, espetáculo acompanha o desaparecimento de uma artista engajada politicamente numa cidade dominada por milicianos. O texto foi escrito durante a 6ª turma do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, com coordenação de Diogo Liberano. Sessões na sexta-feira, às 19h, e no sábado e no domingo, às 17h.

p.s.2: Ainda sobre Paris, a a Cinémathèque Française – que opera na Rua Bercy, numa área cercada de verde e pontuada de lirismo com a presença de um carrossel – dedica parte de seu tempo, neste fim de novembro, uma retrospectiva do cineasta Alain Resnais (1922-2014), um especialista nas artificialidades nas relações afetivas, com direito a uma sessão de “Hiroshima, Meu Amor” (1958) neste sábado.

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