‘Alien: Covenant’ traz o velho e bom Ridley Scott de volta

‘Alien: Covenant’ traz o velho e bom Ridley Scott de volta

Rodrigo Fonseca

07 Maio 2017 | 12h50

Katherine Waterston encara ácido no sci-fi “Alien: Covenant”, que estreia nesta quinta

RODRIGO FONSECA
Dono de um equilíbrio pleno entre ação e reflexão, apesar de causar certa modorra do minuto 20 ao minuto 45, prejudicado por um quarto de hora de edição desencontrada, Alien: Covenant se alterna entre a condição de fliperama e uma instância de reflexão, encontrando um espaço de convivência confortável para ambas as suas naturezas. É, como narrativa o mais elegante e coeso exercício de direção de Ridley Scott desde seu seminal Gladiador (2000). E, mais do que isso, é quase uma bula para quem quer entender a série Alien – que, goste ele ou não, tem o terceiro filme, o David Fincher, seu momento de maior transcendência. Mas, comparações à parte, temos aqui um sci-fi interestelar com as características básicas do filão, somadas a muita ação e a um elenco com carisma para fisgar plateias. E temos Michael Fassbender em seu apogeu, dividindo-se em dois papeis, ambos andróides, construindo um vilão capaz de se candidatar à Eternidade. Um vilão de demasiada humanidade, apesar de sua forma metálica. É ele quem, numa tomada de abertura darwinista, dividida entre ele e Guy Pearce, ajuda o público a compreender o equívoco nietzschiano que foi Prometheus. Um equívoco mediado pela vaidade de seu realizador.

 

Reza a lenda que o maior ponto fraco de Scott é sua vaidade, expressa não só pela grandiloquência de suas produções para por um desejo de alcançar um lugar que os cineastas filósofos do cinema (Stanley Kubrick, Terrence Malick) conquistaram pela transcendência de seus cógitos. Não por acaso dizem que Prometheus foi a tentativa dele de fazer um A Árvore da Vida ou um 2001. Mas, na prática, a fragilidade maior do diretor inglês está em seu joelho. Em 2010, quando Robin Hood foi escalado para abrir o Festival de Cannes, ele não teve como comparecer à abertura por conta de uma operação às pressas de sua rótula. Aliás, esta se fez doer em muitos de seus sets, como o de Perdido em Marte (2015), seu último sucesso de público e crítica.

A fragilidade de sua integridade óssea já foi manchete de jornal várias vezes, mais até do que sua mão podre para a escolha de projetos: projetos como Hannibal (2001) ou Rede de Mentiras (2008) comprometeram – e muito – sua imagem como campeão de bilheteria e como um realizador refinado. Só não fizeram mais estrago porque – bem assessorado – Scott fez de sua perna bichada um assunto que rendia mais pano pra manga nos jornais do que seus deslizes estéticos. Só nos anos 1990, quando GI Jane – Até o Limite da Honra (1997) saiu, não houve assessor ou publicista que pudesse livrar sua cara, frente a toda a ironia que cercou a versão Rambo de Demi Moore, apesar de as boas cifras que esta Barbie no booty camp arrecadou.

 

Mas os ataques sazonais não dilapidaram o patrimônio milionário que Scott construiu vendendo ingressos e fazendo publicidade, tornando-se um rei dos comerciais. Para ficar só na esfera do cinema, seus longas ultrapassam com frequência a fronteira dos US$ 100 milhões de arrecadação, sendo que alguns obtiveram prestígio tão alto quanto seu faturamento. Foi o caso de American Gangster (2007) e de Falcão Negro em Perigo (2001), projetos nos quais ele exercitou seu belicismo com mais requinte plástico e estofo político. Artesania, ele tem, de modo inquestionável. O problema em relação a Scott é enxergar sua autoralidade. Embora tenha iniciado sua carreira como diretor com três filmes magistrais – Os Duelistas (1977); Alien – O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner (1982) -, que influenciaram a estética comercial de Hollywood nos anos que os seguiram, ele nunca encontrou para si uma identidade autoral, seja em tema ou em forma, que o pusesse entre os gigantes.

Essa dor é a maior do que a se seu joelho.

Existe um Scott que domina o realismo com brutalidade e secura (Perigo na Noite; Chuva Negra; Os Vigaristas) e outro que sai bem no épico, seja na linha da fabulação (A Lenda) seja na trilha da História (Cruzada; 1492). Mas nenhum deles vai além do âmbito do bom artesão. Alien Covenant é, uma vez mais, um triunfo de artesanato.

O monstro real: Fassbender

Apesar de fragilizado pela construção de personagens em excesso (a maioria sem função outra que não servir de vítima a um mostro cuspidor de ácido), Alien Covenant é uma aventura galáctica com timbre de suspense, estruturada a partir de uma missão de resgate. Na trama, uma nave colonizadora de transporte de passageiros é sacudida por uma tragédia em que seu capitão (James Franco, numa aparição pífia) é morto. A mulher deste, Daniels (Katherine Waterston, ótima e autêntica mesmo quando Scott força fazer dela uma nova Ripley), tem que lidar com a dor da perda e com o comando confuso de um novo timoneiro, o beato Oram (Billy Crudup, cujo fervor religioso não se explica). Esta tripulação desse num planeta colônia atraída por um estranho sinal, de vida. Além de Oram e Daniels, eles contam com as manhas científicas e com a coragem do piloto Tennessee, vivido pelo comediante Danny McBride, o destaque do elenco, capaz de roubar cada cena para si.

 

Neste cenário de estranhas estátuas, fedido a morte, os astronautas vão se deparar com vários aliens, alguns de fisionomia diferente da que conhecemos, mas ainda cheios de ácido. Com os mocinhos vai o robô Walter e lá, entre os ETs, está o também maquínico David, ambos Fassbenders. Lá, o construto que sobrou de Prometheus vai revelar o que existe sob sua pele sintética, numa virada arrebatadora de roteiro, que engorda o filme de platonismo. A atuação do eterno Magneto evoca Rutger Hauer na chuva ácida de Blade Runner em seu desabafo sobre a finitude.