‘Alices’: um espetáculo maduro sobre desatenções

‘Alices’: um espetáculo maduro sobre desatenções

Rodrigo Fonseca

20 de junho de 2017 | 11h28

Mitzi Evelyn e Carolina Stofella encarnam as muitas Alices do Brasil em peça dirigida por Leo Gama, no Teatro Leblon

RODRIGO FONSECA
Pias brancas, daquelas de louça lavada, perfumadas a lavanda, servem como metáfora de dor no jorro de memórias (algumas vividas, outras sofridas e muitas só imaginadas) trocadas entre uma cabeleireira e uma garota de programa no limbo onde se passa a peça Alices, um exercício de delicadeza (plástica e verbal) na discussão sobre como se ama errado. Tá lá no Teatro Leblon, até 28 de junho, sempre às terças e às quartas, a abrir reflexões acerca da violência contra a mulher – transcendendo para um ensaio sobre fragilidades e dependências. A tal da pia branca é dura. A cabeça que nela se esfacela, não. O esfacelamento não é voluntário: é agressão, é jogo de poder. Dói ouvi-lo. Mas dói mais a certeza de que ele não é apenas alegoria de teatro, mas também uma contingência social de brutalidade, uma P.A. e uma P.G. de abusos. A solidez do espaço cênico, delineado pelo diretor Leo Gama a partir do jogral de gesto e saliva que se arma entre as atrizes Mitzi Evelyn (a idealizadora do projeto) e Carolina Stofella, dá a medida do abismo de desatenções e rudezas em volta daquelas duas pessoas. Um abismo vivo, em brasa, que contrasta com a assepsia de breu e escassez de elementos no qual as protagonistas conversam, trocando desabafos emotivos tipo “toda mulher tem vocação pra ser puta, mas a gente a reprime” ou “toda mulher deveria ser uma mocinha de cinema, nem que seja por cinco minutos”.

 

Fala-se um bocado no espetáculo escrito por Jarbas Capusso Filho, mas nunca em demasia. Uma hora acaba e você nem sente, porque o fluxo da conversa é pautado de imagética: signos, signos e mais signos temperam uma fala que começa realista e vai para o simbólico, pousando no porto do alarmismo sempre que necessário. Há um ponto de tensão e de fratura com a inércia do viver no qual percebemos estar diante de duas almas penadas, que se encontram em um lugar de penumbra para conversar sobre o que levou cada uma até lá. Parece um inventário de cicatrizes duplicado. Cada uma fala de si e as experiências não se comungam. Tromba d’água humana (pela febril maneira como mescla volúpia e carência), Mitzi encarna ali a “mulher da rua”, enquanto a mondiglianesca Stofella dá conta do arquétipo da “bela, recatada e quase do lar”. É o que parece, pelo menos até metade da encanação, enquanto rosários de mágoa são desfiados. Mas, a dado ponto, as narrativas se emparelham, conjugam-se, estabelecem uma relação especular de complementaridade. Mitzi e Stofella viram metades de um ente só, um ente de feições femininos… demasiadamente aberto a amar.

A medida do entroncamento se dá quando as duas travam uma amizade. Ali deixa de ser bifurcação e passa a reinar um trilho comum, a ser percorrido por elas, agora como amigas, e por nós, como testemunhas de uma comédia humana de humores variados. Ali, a direção de Gama faz jus aos ecos de Persona (filme de Bergman de 1966) e embaralha almas, certezas fugidas e preconceitos. Formalmente, esse embaralhar é operacionalizado com uma leveza invejável, que torna palatáveis descrições sobre a crueldade física e sobre perdas. Conjuntos de frases como “perder a visão é como perder alguém: você nunca se acostuma com a saudade, apenas finge que aceita e segue…” batem fundo, arranham e laceram, mas o fazem sem tortura, com a elegância de uma condução cênica que convida o olhar, que reza pela cartilha do entendimento. A luz de Aurélio de Simoni é fundamental para o clima de bonança que vem na esteira da arrebentação das catarses. A luz branda arrefece ânimos resfolegados, valorizando os quatro objetos geométricos e os quilos de plásticos bolha trazidos por Pati Faedo para o palco. A luz ressignifica os figurinos antinaturalistas de Marie Salles. A luz revela a intenção de Gama de suspender tempo e espaço e transmitir uma sensação de “eternidade que cabe numa noite inteira”.

Alices é um país sem maravilhas, erguido através de um espelho de desconsertos, no qual palavra é água benta: cura chagas expostas pela superexposição do osso, do osso do gostar, do osso do precisar, do osso do abraço, do afago interrompido pelo tapa. Alices é um recital dos afetos que perdemos pelo caminho. Alguns deles, Gama encontrou, colou os cacos e nos ofereceu como uma peça que deixa esperanças, mas alerta dos perigos da estrada.
Vai lá ver…