‘Alfazema’: um desfile de campeãs na apoteose de Sabrina Fidalgo

‘Alfazema’: um desfile de campeãs na apoteose de Sabrina Fidalgo

Rodrigo Fonseca

05 de março de 2019 | 10h46

Bianca Joy Porte, Elisa Lucinda, Shirley Cruz, Bruna Linzmeyer e Victor Albuquerque em cena de “Alfazema” (foto de Paula Kossatz/ Divulgação), novo carro alegórico do desfile autoral de Sabrina Fidalgo pela passarela do cinema

Rodrigo Fonseca
Confetes da crítica internacional têm incensado a obra, a coragem e disposição de Sabrina Fidalgo na cena criativa do cinema contemporâneo, e não é por acaso: neste carnaval, tempo de folia, a diretora carioca, que anda arrebatando aplausos mundo adentro com filmes como “Rainha”, partiu pra ação e rodou uma experiência narrativa com fragrâncias autorais da força do feminino. O título já sugere sinestesia: “Alfazema”. Escrito e dirigido por ela, que produziu tudo a seis mãos com Cavi Borges e William D. Massey, o projeto, fotografado por Júlia Zakia, é o segundo tomo de uma trilogia de Momo, em que a cineasta disseca inquietações perpétuas da alma humana em meio a esse parêntese afetivo que são as festas carnavalescas. Na tela, há um elenco invejável: Shirley Cruz, Elisa Lucinda, Bruna Linzmeyer, Bianca Joy Porte e Victor Albuquerque. Essa trupe, com a participação da própria Sabrina (em um devir atriz), cria uma micareta regada a metalinguagem. Na trama,  uma mulher, à espera de um paquera sair de seu chuveiro, depara-se com uma série de representações míticas, até diabólicas. É um convite à poesia. Tomara que festivais como Cannes percebam essa potência poética.

A diretora no Festival de Roterdã (foto Diego Lima/ Divulgação): Sabrina Fidalgo fez parte do bloco de diretores da mostra Soul In The Eye

Prestes a estrear no formato longa metragem com “Cidade do funk”, Sabrina é dona de uma estética na qual a solidão, a inquietude, a sensualidade se conectam num combate a paradigmas de representação do feminino. Seus filmes já foram exibidos em mais de 200 festivais nacionais e internacionais, em eventos cinematográficos em Los Angeles e Nova York (EUA), Tegucigalpa (Honduras), Cidade do México (México), Buenos Aires e Cordoba (Argentina), Tóquio (Japão), Praia (Cabo Verde), Acra (Gana), Maputo e Cabo Delgado (Moçambique), Berlim e Munique (Alemanha). Em março deste ano, ela foi eleita (em oitavo lugar) pela publicação norte-americana “Bustle” como uma das 36 realizadoras de todo o mundo que estão mudando os paradigmas em seus respetivos países. Estudou na Escola de TV e Cinema de Munique, na Alemanha, e fez especialização em argumento na Universidade de Córdoba, em Espanha. Desses estudos brotaram curtas como “Sonar 2006 – Special Report” (2006), “Das Gesetz des Staerkeren” (2007), “Black Berlim” (2009), “Cinema Mudo” (2012) e “Personal Vivator” (2014), além do documentário de média  metragem “Rio Encantado” (2014) e de uma série de videoclipes. É hora de “Alfazema” ganhar as multidões. A montagem começa agora, correndo a todo vapor.

Que cheiro tem essa tua “Alfazema”? É um filme sobre cinema?
Sabrina Fidalgo:
Tem cheiro de loucurinha, de liberdade, de fazer de conta e de brincar de fazer cinema. É minha licença poética para ser apenas artista e livre, sem ter a obrigação de levantar bandeiras, bem longe de antropologias e sociologias impostas que nos são cobradas enquanto artistas mulheres… sobretudo, artistas mulheres e negras. “Alfazema” é a segunda parte da “Trilogia do Carnaval”, que começou com o filme “Rainha”, de 2016: um ensaio carnavalesco em branco e preto mais soturno e melancólico. Ao contrário disso “Alfazema” explora as cores e a sexualidade da folia. É um filme dionisíaco.

De que forma a representação do feminino de Alfazema dialoga com seus filmes anteriores?
Sabrina Fidalgo: Em “Alfazema”, as mulheres estão em maioria e conduzem a história. Aqui temos apenas um personagem masculino, Lucas, interpretado por Victor Albuquerque, que fica nu o filme inteiro. Mas essa nudez não é a vingança feminina contra a hiperssexualização dos corpos. Nada disso. Já as mulheres do filme representam papéis da “mitologia judaico-cristã”, que são tradicionalmente representados pelo viés masculino. Ainda assim não quis que elas perdessem a essência feminina ou híbrida. O filme brinca com o não-binarismo nas representações de gênero também e, neste sentido, deixei os atores bem livres para pirarem nessas construções. Acho que as representações femininas aqui estão mais próximas do meu penúltimo filme, a ficção-científica “Personal Vivator”, de 2014, do que de “Rainha”. A mocinha de “Alfazema”, Flaviana, vivida por Shirley Cruz, é muito diferente da heroína Rita de “Rainha”. Colocar corpos negros sempre nesses lugares de luta e dificuldades também é uma forma de aprisionamento e opressão do racismo estrutural. Tenho pavor de termos como “guerreira” e “lutadora”, por exemplo. E geralmente esses são termos muito comumente dirigidos às mulheres negras. Uma mulher negra não precisa ser uma “guerreira” se ela assim não o quiser. Claro que a sociedade e as estruturas sociais, historicamente, acabam levando a isso, mas podemos começar a refletir sobre a autonomia de nossos corpos nesse sentido. Podemos e devemos almejar a leveza. E, dessa vez, não quero falar de sofrimentos e enfatizar mazelas e dificuldades. Quero mostrar um feminino divertido, cheio de tesão e alegria.

De que maneira o carnaval se expressa na tua obra?
Sabrina Fidalgo:
  De diferentes maneiras. Eu criei essa “Trilogia” justamente para poder me debruçar nas várias subjetividades do carnaval que podem ir da alegria extrema à tragédia, passando por muitas outras nuances. O carnaval é uma festa pagã trazida da Europa pelos portugueses, mas o samba dos africanos moldou essa expressão de uma maneira única. O samba, originalmente, é um lamento, que advém da tristeza profunda da escravidão e da necessidade de sobreviver à barbárie. É o nosso blues ritmado. As letras dos sambas, principalmente dos mais antigos, são sempre muito tristes, falam de tragédias e dissabores, como “Antonico”, de Ismael Silva, ou “Zelão”, de Sérgio Ricardo. Por outro lado, o carnaval é a válvula de escape do povo, que se permite ser rei e rainha, livre  e feliz, mesmo em meio a tantas dificuldades no percurso. A efemeridade da euforia de um desfile numa escola de samba, em contraste com os meses de sacrifício para construir aquilo tudo, é também algo de muito fascinante. Todas essas contradições, idiossincrasias e dualidades me interessam e, a partir desse ensaio da trilogia de filmes, consigo expressar todo o meu sentimento e o meu olhar em relação às pluralidades do carnaval.

Em janeiro, você integrou a mostra Soul in the Eye, seção do Festival de Roterdã, ligada ao cinema negro brasileiro… o de hoje, o de ontem, o de sempre. Que novas conexões vieram desse encontro holandês com a matriz afrobrasileira de nossas telas?
Sabrina Fidalgo:
Foi um marco importantíssimo o acontecimento da Soul in the Eye, no Festival de Cinema de Roterdã, apresentando devidamente a obra de Zózimo Bulbul (ator e diretor precursor na abordagem mais experimental e combativa da exclusão racial) em um grande evento de cinema internacional, junto à obras de cineastas contemporâneos. Roterdã é um festival muito acostumado a receber olhares brasileiros, mas por um viés branco e burguês. Há algo de muito urgente e importante acontecendo agora no Zeitgeist global e pudemos perceber a urgência disso lá. O mundo, apesar da ameaça iminente de uma onda neoconservadora de ultradireita, está rompendo paradigmas. Estamos vivendo um momento histórico e muito importante onde as ditas minorias estão se colocando como nunca antes na história. Antigas formas de pensamento, conceitos e ideias estão caindo sob terra. Nós não aceitamos mais uma única versão dos fatos, um único lado, um único padrão. Todos querem se libertar das velhas imposições, seja em relação a padrões de beleza, ao eurocentrismo vigente, ao pós-colonialismo, às limitações impostas à sexualidade etc. E acho que ter tido uma curadora negra brasileira lá, como foi o caso da historiadora Janaina Oliveira, ao lado dos programadores holandeses Peter van Hoof e Tessa Boerman, mostram que a mudança chegou no mundo e não tem volta.

Qual foi o saldo dessa quebra de paradigmas para o Brasil?
Sabrina Fidalgo:
Janaína, Peter e Tessa trabalharam entendendo e fomentando, juntos, todo esse momento crucial, assim como fez o diretor-geral do festival, Bero Beyer, que explicitou isso já na sua fala da noite de abertura do festival, que ainda exibiu o curta   “Travessia”, da Safira Moreira, uma diretora negra e brasileira. O Brasil me parece ainda anos-luz atrasado, mas, ainda assim, já estamos confabulando grandes  mudanças estruturais no porvir. Só espero que não demore muito. Enfim, não será mais possível enfatizar, elevar, fomentar  e mostrar sempre os mesmos olhares a partir do ponto de vista branco, heterossexual e masculino em nenhum lugar. Isso está bem claro. A própria cerimônia do Oscar, com seus erros e acertos, vem evidenciando isso a cada ano. Enfim, a comitiva de realizadores brasileiros e, especialmente, a comitiva de realizadores negros brasileiros, em Roterdã foram, grandes e muito bem recebidas. Sessões cheias, debates longos  após as sessões de cada filme, uma prosa incrível, painéis gigantes com os rostos dos realizadores. Era nítido o grande interesse nesse “outro cinema”, por parte dos críticos, curadores, vendedores, produtores e do próprio público cinéfilo de Roterdã, que, ao final das contas, é o cinema brasileiro verdadeiro. Muitas pessoas choraram nas três sessões de “Rainha”. Numa delas, ficamos mais de duas horas respondendo perguntas após as sessões do público. A última sessão ocorreu num horário horrível, às 9 horas da manhã de um domingo chuvoso e cheio de neve. Só compareci à sessão por uma questão protocolar, mas durante o percurso eu me perguntava o que estava fazendo, já que não haveria ninguém numa sessão marcada para aquele horário. Ao chegar ao Kino Rotterdam, eu me deparei com uma sala lotada e fiquei perplexa.  Até hoje falo com algumas pessoas que viram o “Rainha” em uma dessas sessões e que se encantaram com o filme.  Falamos através das redes sociais do filme. São jovens voluntários holandeses que trabalhavam no festival, estudantes de cinema norte-americanos de uma escola de cinema em Paris, programadores de outros festivais. Enfim, o saldo foi muito positivo.