Alexandre Lino, o insubstituível

Alexandre Lino, o insubstituível

Rodrigo Fonseca

19 de outubro de 2019 | 22h24


RODRIGO FONSECA
Não importa se sua orientação política for de direita, de esquerda, de centro ou à deriva – e todo respeito é válido a qualquer uma delas -, mas não há como sair ileso da peça “O Substituto”. Talvez ela seja o mais corajoso gesto de busca por diálogo democrático dos palcos cariocas, na alquimia criativa de uma santíssima trindade de heróis do verbo. A trinca é formada por Maria Maya (direção), Daniel Porto (texto) e um Alexandre Lino capaz de inscrever seu nome na História do Teatro Brasileiro a tripas e efeitos de luz que simulam balas de fuzil. É Spalding Gray puro. Em cartaz no Café Pequeno, no Leblon, em estrutura de aula, a produção bate um papo seco com a tradição da farsa, usando uma equação sem variáveis de alívio para representar o sucateamento do ensino no país. Há um filete de comédia que se alarga e se esgarça até o limite do trágico numa andança pelo deserto tártaro da intolerância institucionalizada. Nos moldes do que fez em sua rascante montagem de “Talk Radio”, em 2015, Maya farpa o espaço cênico de ditongos, tritongos e pronomes pessoais inflamados com o carnegão da polêmica. Mas cabe a Lino, adicionando saliva à pólvora de Porto, transformar TNT em gente… em pessoa… no caso, Humberto Arthur Emílio Ernesto Baptista, um bedel que se finge de educador. O enredo se desenrola na luta dele para ensinar seus alunos a… desaprender. A delicadeza composição de um pitbull do sistema submisso usa um jogo corporal de firmeza mesclado a olhos bovinos, perdidos no pasto do “tu deves… obedeça”. É puro Nietzsche com azeite de oliva, com fôlego e vontade de potência para reescrever a tradição da “arte de protesto” com a pluma da simplicidade.

Tem amanhã, 19h. Perde não… ou a História vai te cobrar por isso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.