‘Alcarràs’:Urso de Ouro pra estética catalã

‘Alcarràs’:Urso de Ouro pra estética catalã

Rodrigo Fonseca

16 de fevereiro de 2022 | 19h47

A produtora María Zamora e a cineasta Carla Simón com o Ursi de Ouro dado pelo júri de M. Night Shyamalan ao longa catalão “Alcarràs” – Foto de @Alexander Janetzko

RODRIGO FONSECA
Existem camisetas, canecas, máscaras e toda a sorte de memorabília de “La Casa de Papel” à venda pela Europa – assim como no Brasil – ilustrando o sucesso que uma narrativa talhada na indústria audiovisual espanhola alcançou além das fronteiras de sua pátria, graças ao esforço estatal pra tratar a cultura como um produto tipo exportação. Essa mesma indústria hoje abre champanhe para comemorar a conquista de um Urso de Ouro, que coroa sua fase de apogeu audiovisual: “Alcarràs”, de Carla Simón, ganhou o prêmio mais cobiçado da Berlinale 2022. No passado, em 1978, quando a cineasta paulista Ana Carolina Teixeira Soares (“Mar de Rosas”) foi do júri, o evento germânico deu seu troféu dourado a dois longas da pátria de Goya: “As Palavras de Max”, de Emilio Martínez Lázaro, e “Las Truchas”, de José Luis García Sánchez. O calor daquele momento era político, numa ressaca de franquismo, em dias em que Pedro Almodóvar começava a aparecer. O calor de agora, em que a suarenta paisagem catalã do longa de Carla ferve, é econômico, coroando a bonança midiática daquela país. Na TV, eles bombaram na HBO com “Pátria” e têm alcançado êxito global, em circuito, com “El Buen Patrón”, de Fernando León Aranoa. Inclua nessa trajetória de consagrações a boa recepção ao almodrama “Madres Paralelas”, indicado a dois Oscars (via Penélope Cruz, como Melhor Atriz, e Alberto Iglesias, por Melhor Trilha Sonora). O aplauso berlinense para Carla veio trazer uma estampa de prestígio a um momento ascendente de uma filmografia que nos deu titãs como Isabel Coixet, Bigas Luna, Luis García Berlanga, Victor Erice e Carlos Saura.

Todas as dores e delícias de uma das instituições mais desgastadas da contemporaneidade, uma tal de família, inscreveram-se nas telas da Berlinale a partir de vivências catalãs vistas em “Alcarràs”, um surpreendente exercício de ficção com pés fincados do real. Cinco anos após o cult “Verão 1993” (2017), a diretora espanhola regressa ao Festival de Berlim – que lhe deu visibilidade no passado – para narrar o dia a dia dos Solé, um clã agricultor que vive da colheita de pêssegos. Nenhum de seus personagens é interpretado por atrizes ou atores com experiências profissionais. Todas e todos foram selecionados em festas populares, antes da pandemia. Após reuni-los, a diretora criou uma célula familiar que gira em torno dos pessegueiros e das brincadeiras de um divertido quarteto de criancinhas.
“Crianças mantêm o filme vivo e dão ao filme um tom casual. A natureza híbrida de documentário já vem do ‘Verão 1993’ e me interessa por me permitir encontrar pessoas como as que levei às telas aqui”, disse Carla ao Estadão.

Sua trama é arquitetada como uma crônica do dia a dia dos Sole. o clã é liderado pelo doce brucutu Quinet (Jordi Pujol Dolcet), que luta contra o abuso dos varejistas no valor pago aos rancheiros por frutos e contra a ocupação das terras ibéricas por painéis solares.
“Há um tom de crônica de uma morte anunciada de uma tradição de cultivar a terra em família. Mas eu queria que houvesse esperança no filme. Comecei com esse sentimento. Mas para as pequenas famílias de agricultores, não há muito futuro, pelos preços das frutas”, disse Carla à Berlinale, que não deve (mesmo) ignorar sua delicadíssima forma de dirigir pessoas sem qualquer experiência de atuação e arrancar delas interpretações genuínas. “Houve um momento em que eles se sentiram uma família de verdade”.

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