‘Alcarràs’ se candidata à Eternidade

‘Alcarràs’ se candidata à Eternidade

Rodrigo Fonseca

01 de agosto de 2022 | 05h50

Sob a direção de Carla Simón, uma menininha corre nos pessegueiros de “Alcarràs”, longa ganhador do Urso de Ouro de 2022

RODRIGO FONSECA
Faltam dois dias para começar o Festival de Locarno, com a projeção de “Trem-Bala”, e uma participação do Brasil na disputa pelo Leopardo de Ouro (com “Regra 34”, de Julia Murat), e alguns títulos de Berlim e de Cannes se espalham pela streaminguesfera, via MUBI (“Terminal Norte” e “Crimes of the Furture”), enquanto o ganhador do Urso de Ouro de 2022, o tocante “Alcarràs” firma seu legado pelo mundo. Graças a esse filme de Carla Simón, todas as dores e delícias de uma das instituições mais desgastadas da contemporaneidade – uma tal de família – se inscreveram na premiação oficial da Berlinale, em fevereiro, candidatando-se à Eternidade na memória cinéfila, a partir de vivências catalãs. Trata-se de um surpreendente exercício de ficção, com os pés fincados do real, que corre telas Velho Mundo adentro. Cinco anos após o cult “Verão 1993” (2017), a diretora espanhola regressa ao Festival de Berlim – que lhe deu visibilidade no passado – para narrar o dia a dia dos Solé, um clã agricultor que vive da colheita de pêssegos em uma cidadezinha do interior. Nenhum dos personagens é interpretado por atrizes ou atores com experiências profissionais. Todas e todos foram selecionados em festas populares, antes da pandemia. Após reunir sua trupe, a diretora criou uma célula familiar que gira em torno dos pessegueiros e das brincadeiras de um divertidíssimo quarteto de criancinhas.
“Crianças mantêm o filme vivo e dão ao filme um tom casual. A natureza híbrida de documentário já vem do ‘Verão 1993’ e me interessa por me permitir encontrar pessoas como as que levei às telas aqui”, disse Carla ao Estadão.

Sua trama é arquitetada como uma crônica do dia a dia dos Solé. o clã é liderado pelo doce brucutu Quinet (Jordi Pujol Dolcet), que luta contra o abuso dos varejistas no valor pago aos rancheiros por frutos e contra a ocupação das terras ibéricas por painéis solares.
“Há uma crônica de uma morte anunciada de uma tradição de cultivar a terra em família. Mas eu queria que houvesse esperança no filme. Comecei com esse sentimento. Mas para as pequenas famílias de agricultores, não há muito futuro, pelos preços das frutas”, disse Carla à Berlinale, que não deve (mesmo) ignorar sua delicadíssima forma de dirigir pessoas sem qualquer experiência de atuação e arrancar delas interpretações genuínas. “Houve um momento em que eles se sentiram uma família de verdade”.

p.s.: Nesta segunda, a TV Globo exibe “Creed II” na “Tela Quente”, com Michael B. Jordan e Sylvester Stallone.

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