‘Alcarràs’: a Espanha brilha em Berlim

‘Alcarràs’: a Espanha brilha em Berlim

Rodrigo Fonseca

15 de fevereiro de 2022 | 07h49

A família de “Alcarràs” une forças e carismas pra ajudar Carla Simón a ganhar um troféu no 72. Festival de Berlim, que revela seus ganhadores nesta quarta

RODRIGO FONSECA
Todas as dores e delícias de uma das instituições mais desgastadas da contemporaneidade – uma tal de família – se inscrevem nas telas da Berlinale, candidatando-se à eternidade e a prêmios (sobretudo o de direção), a partir de vivências catalãs em “Alcarràs”, de Carla Simón, um surpreendente exercício de ficção com os pés fincados do real. Cinco anos após o cult “Verão 1993” (2017), a diretora espanhola regressa ao Festival de Berlim – que lhe deu visibilidade no passado – para narrar o dia a dia dos Solé, um clã agricultor que vive da colheita de pêssegos em uma cidadezinha do interior. Nenhum dos personagens é interpretado por atrizes ou atores com experiências profissionais. Todas e todos foram selecionados em festas populares, antes da pandemia. Após reunir sua trupe, a diretora criou uma célula familiar que gira em torno das pessegueiras e das brincadeiras de um divertidíssimo quarteto de criancinhas.
“Crianças mantêm o filme vivo e dão ao filme um tom casual. A natureza híbrida de documentário já vem do ‘Verão 1993’ e me interessa por me permitir encontrar pessoas como as que levei às telas aqui”, disse Carla ao Estadão.
Sua trama é arquitetada como uma crônica do dia a dia dos Solé. o clã é liderado pelo doce brucutu Quinet (Jordi Pujol Dolcet), que luta contra o abuso dos varejistas no valor pago aos rancheiros por frutos e contra a ocupação das terras ibéricas por painéis solares.
“Há uma crônica de uma morte anunciada de uma tradição de cultivar a terra em família. Mas eu queria que houvesse esperança no filme. Comecei com esse sentimento. Mas para as pequenas famílias de agricultores, não há muito futuro, pelos preços das frutas”, disse Carla à Berlinale, que não deve (mesmo) ignorar sua delicadíssima forma de dirigir pessoas sem qualquer experiência de atuação e arrancar delas interpretações genuínas. “Houve um momento em que eles se sentiram uma família de verdade”.

A cineasta espanhola

Os dois últimos títulos da competição são “Leonora Addio”, no qual o italiano Paolo Taviani narra uma história sobre as cinzas de Luigi Pirandello, e “The Novelist’s Film”, do sul-coreano Hong Sangsoo, acerca do cotidiano de pessoas que se mudam pra periferia de Seoul. Ambos serão projetados ao longo desta terça, pois o resultado da disputa oficial será conhecido nesta quarta, à noite, num anúncio do júri presidido por M. Night Shyamalan
Até o momento, o filme mais potente de todos os 18 longas indicados ao Urso de Ouro é o suiço “Drii Winter” (“A Piece of Sky”), de Michael Koch. Nele, o ator e diretor desconstrói a paisagem de postal dos Alpes ao narrar, numa estrutura de tragédia grega, as angústias de um casal diante de uma doença terminal. Um casal num mundinho rural, onde os animais são parte afetiva da vida dos protagonistas, uma carteira e um rancheiro, encarnados por atores não profissionais.

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