‘Albatroz’ alça voo no Rendez-Vous da Unifrance

‘Albatroz’ alça voo no Rendez-Vous da Unifrance

Rodrigo Fonseca

11 de janeiro de 2022 | 13h51

Laurent (Jérémie Renier) cai no mar pra se afastar da brutalidade que o cerca em “Albatroz”

Rodrigo Fonseca
Ainda não se sabe quem vai concorrer ao Urso de Ouro de 2022, na 72ª Berlinale, agendada de 10 a 20 de fevereiro, mas há candidatos ao prêmio alemão do ano passado que ainda andam a fazer barulho indústria audiovisual afora, como é caso de “Albatroz”, de Xavier Beauvois (do aclamado “Homens e Deuses”), um dos mais comoventes filmes da safra francesa recente. Não por acaso, o longa vai integrar o 24º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de debates e de promoção comercial com coordenação da Unifrance, o órgão governamental europeu de defesa do audiovisual. Vai ser a segunda edição desse evento a ser realizada online, por força da pandemia, agendada de 14 a 17 deste mês. Suas cifras impressionam: são esperados 600 compradores que distribuem longas pelo mundo (450 especializados em lançamentos pro cinema e 150 pra TV), de mais de 100 empresas de veiculação de conteúdo audiovisual (45 dedicadas a filmes, 60 à TV), assim como 135 jornalistas internacionais e 135 artistas, entre atrizes, atores, cineastas e equipes de produção. Estima-se que as negociações mais quentes devam envolver o inédito “Feu”, da aclamada Claire Denis, que, possivelmente, será ser um dos concorrentes ao Urso de Ouro da 72ª Berlinale (10 a 20 de fevereiro). É a história de um triângulo amoroso com Juliette Binoche como protagonista. Há olheiros dos exibidores atentos para “Adieu Monsieur Haffmann” – thriller de Fred Cavayé sobre a ocupação de Paris pelos nazistas, em 1942 – e pro drama “Twist à Bamako”, de Robert Guédiguian, sobre os ranços do imperialismo na África, sofridos por um casal de fãs de dança. Esses dois filmes também estão cotados para Berlim. Porém, na lista dos títulos com mais badalação deste Rendez-Vous, destaca-se o ensaio de Beauvois sobre inadequação. Seu protagonista é um ímã de elogios: o belga Jérémie Renier.

Fetiche dos irmãos Dardenne, com quem trabalhou em marcos como “A Criança” (Palma de Ouro de 2005), Renier integra um seletíssimo time de astros europeus cujo prestígio vai muito além das fronteiras do Velho Mundo. E ele faz jus a seu prestígio em “Albatroz”. Chamado de “Drift Away” fora dos mercados francófonos e de “Albatroz” (com s) em seu país natal, o novo e doído filme de Beauvois traz Renier como Laurent, um policial de uma pequena cidade da Normandia cujos sonhos são dragados depois que ele mata, acidentalmente, um fazendeiro suicida que tentava deter. O sujeito queria se matar com uma espingarda e Laurent atirou em sua perna para impedi-lo. Mas o tiro atingiu uma artéria e o sujeito não resistiu. Esse tiro faz com que Laurent seja investigado por colegas e oficiais que sempre admiraram sua conduta ética ilibada. Essa investigação ameaça destruir sua vida em família com a filha e a namorada, com quem sonha se casar.
“Existe uma porosidade singular em personagens silenciosos, de poucas palavras, que costuma ser de difícil desmonte e, por isso mesmo, faz deles figuras mais desafiadoras. O ponto central da composição de um personagem saber buscar sua profundidade afetiva”, disse Renier ao P de Pop na última Berlinale.

Para traduzir esse turbilhão emotivo de Laurent, Renier lança mão de todo o seu ferramental dramático, afiando sua habilidade para esmerilhar o silêncio. É uma destreza que ele traz de filmes de François Ozon (“O Amante Duplo” e “Potiche – Esposa Troféu”), de Olivier Assayas (“Horas de Verão”) e de Pablo Trapero (“Elefante Branco”), que deram a Rerier uma notoriedade global. Ao largo de todo o status que adquiriu atuando (bem), Renier é também respeitado por sua porção cineasta. Em 2018, ele veio ao Brasil, no Festival Varilux, para promover “Carnívoras”, que dirigiu ao lado do irmão, Yannick. Ele está acostumado a filmar em “regime fraterno”.
“Os Dardenne me ensinaram muito e sigo aprendendo com eles na relação com a quietude”, diz Renier, que será visto este ano numa operação antiterrorista em “Novembre”, de Cédric Jimenez. “Foi bom ter dirigido. Só dirigindo você consegue compreender o quão disponível e inteiro um ator precisa estar diante das câmeras”.

p.s.: O Globoplay tá exibindo “Quando Eu Era Vivo” (2014), de Marco Dutra. É um dos longas mais sombrios do cinema brasileiro e foi exibido na abertura da Mostra de Tiradentes, há sete anos. Com Antonio Fagundes e Sandy nas raias do Além, a produção ditou os rumos que o terror tomou em nossa filmografia, desafiando nervos… e crenças. Exibido na competição Mondo Genere do Festival de Roma, em 2014, esse thriller horrorífico é baseado no romance “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, escrito pelo quadrinista Lourenço Mutarelli (de “O Cheiro do Ralo”). Sob a fotografia sombria de Ivo Lopes Araújo, o espectador pega carona na descida de Júnior (Marat Descartes) ao inferno. Após perder seu casamento e seu emprego, Junior se muda para a casa de seu pai (Fagundes), onde vive a inquilina Bruna (Sandy). A descoberta de objetos que pertenciam à sua finada mãe leva Júnior a desbravar a fronteira entre a sanidade, a loucura e a Maldade, em sua dimensão mais satânica. A montagem de Juliana Rojas e Bernardi Barcellos enerva ainda mais a trama.

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