‘Alair’: instantâneos poéticos do desejo

‘Alair’: instantâneos poéticos do desejo

Rodrigo Fonseca

04 de junho de 2017 | 12h03

Edwin Luisi recria trechos da vida do fotógrafo Alair Gomes, referência mundial no registro poético do nu masculino, na peça (de dar nó na garganta) “Alair”, em cartaz no Teatro Laura Alvim

RODRIGO FONSECA

Feito água benta, daquela que sacraliza o passado como um instante de eternidade, a saliva que rega cada palavra ruminada por Edwin Luisi na peça Alair umedece uma reflexão sobre a imagem como um latifúndio para o desejo, em seus vértices mais transgressores. Algumas (poucas) fotos são projetadas no palco do Teatro Laura Alvim – onde este nó na garganta segue em cartaz até o dia 2 de julho – não como uma mera ilustração das virtudes de seu personagem central, Alair Gomes (1921-1992), artesão maior do nu masculino nas artes visuais do Brasil -, mas como um adereço metonímico e metafórico do universo ali retratado. Cada foto é a parte de um todo: um imaginário desejante que imortaliza a nudez de jovens homens como um renascentismo tardio, como o antropocentrismo do querer. Cada foto simboliza um ritual estético: a busca do Belo no mundano dos dias. E juntas, numa galeria cênica, ritualizada a partior de um rosário de lembranças desfiadas por Edwin no limite de uma recitação, essas fotos compõem algo de proustiano, a cruzada por um tempo perdido neste Tempo que perdemos entre conservadorismos. Temos em cena um jogral. Um jogral de saudades, de flashes, de paqueras, de suores. Tudo isso é derramado num jogo onde o árbitro é a necessidade de pertencimento histórico de um artista de exceção. E, nesse jogo, a peça escrita por Gustavo Pinheiro e dirigida por César Augusto – dupla responsável pelo feérico A Tropa, hoje em montagem em São Paulo – espelha as fraturas do masculino (tema recorrente do Teatro Nacional) a partir das certezas e dos silêncios da homoafetividade. Edwin superlativa os atributos criadores de Alair, ao mesmo tempo em que sublinha sua curiosidade faminta, de mundo, de cores, de abraços que possam se converter em abrigos. A luz (de Tomás Ribas) é sinuosa e discreta, como o fotógrafo por trás de painéis de pêlos abundantes e músculos salientes. Menos não é mais aqui. Menos é tudo: as carícias lacunares, as passagens biográficas nunca explicadas de modo didático, as viagens pelo mundo recortadas entre soluços e ofertas de ToddyDanoninho. E, ao lado de Edwin, os atores André Rosa e (o ótimo) Raphael Sander se imolam como cordeiros divinos na adoração do protagonista ao Corpo, este deus imperfeito, mortal… mas capaz de uma epifania demasiadamente humana: o gozo.