‘Ainda temos a imensidão’… do cinema brasiliense

‘Ainda temos a imensidão’… do cinema brasiliense

Rodrigo Fonseca

08 de janeiro de 2020 | 10h19

A trompetista Ayla Gresta vive a música Karen, que deixa Brasília num desterro existencial e territorial, em direção à Alemanha, em “Ainda Temos a Imensidão da Noite” – Foto de @Diego Bresani

Rodrigo Fonseca
Exibido no Festival de Havana e já lançado em SP e no DF, “Ainda temos a imensidão da noite”, joia de Gustavo Galvão, que traz os melhores augúrios para a abertura da temporada 2020 do cinema brasileiro, vai ter uma pré-estreia no Rio, nesta quinta-feira, às 21h30, no Espaço Itaú. O diretor e sua corroteirista e produtora, Cristiane Oliveira (de “Mulher do pai”), vão conversar com o público ao fim da projeção. Sua protagonista, a trompetista Ayla Gresta, é um achado, com uma atuação vívida e cortante. Realizador de “Nove Crônicas para um Coração aos Berros” (2012) e do cult “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa” (2013), Galvão faz nesse novo longa-metragem uma espécie de “Round Midnight” do BRock dos anos 2010. É pura vontade (d)e potência: um ensaio existencial sobre geografias, a de Brasília e a de Berlim, sob acordes do rock. Bonito de ver e viver. A trama: cansada de lutar por um lugar ao sol com sua banda de rock, a vocalista e ás do trompete Karen (Ayla) decide ir embora do Distrito Federal. Ela vai deixar para trás a realidade brasiliense, abandonando a metrópole que seu avô, hoje muito adoentado, ajudou a construir. Ela segue os passos do ex-parceiro de banda Artur (Gustavo Halfed), que tenta a sorte na capital alemã. O convite parte de Martin (Steven Lange), amigo alemão com quem os dois fecham um triângulo imprevisível. Em solo alemão, sob um frio rascante, amores, disputas, porres, solfejos vão marcar o desterro de Karen. Na entrevista a seguir, ao P de Pop, Galvão faz sua cartografia de cicatrizes territoriais.

Qual é o protagonismo que a solidão apresenta em “Ainda Temos a Imensidão da Noite”, a partir do desterro de Karen pelo mundo?
Gustavo Galvão:
Acho curioso você mencionar a solidão na jornada da Karen. Comparado com outros filmes que dirigi, ela tem raízes familiares concretas e relações mais estabelecidas. Com ela, a solidão não é uma questão tão explícita quanto em “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”, por exemplo. Mas existe. E talvez seja uma solidão muito contemporânea. É a solidão de quem luta sozinho, de quem não é ouvido, apesar de ter muito a mostrar e muito a dizer. O deslocamento da personagem para Berlim coloca em evidência o isolamento dela, porque se traduz em imagens: Karen vagando pela cidade, tocando o trompete no parque, sem perspectivas na rua ou em casa. Só que a trajetória dela como um todo é marcada pela ausência de interlocução com pessoas que entendam a luta da personagem – por uma cidade mais aberta à criação, por mais espaço para a atividade artística, por uma sociedade mais tolerante. Luta inglória. Por isso que eu sou fascinado por essa personagem. Ela me dá motivos para seguir ativo no cinema, nesse país, apesar dos pesares.

Qual seria o cinema brasiliense do qual você se origina e a que cinema, de lá ou de outros polos do Brasil, você se conecta hoje?
Gustavo Galvão:
Bebi de muitas fontes na minha vida, do cinema marginal a “Madame Satã” (Karim Aïnouz foi consultor do roteiro do “Imensidão”). Chorei com “Cão Sem Dono” (disse isso ao Beto Brant). E ainda me assombro com “Limite” (Mário Peixoto). Mas acho que nada supera o impacto que Adirley Queirós causou em mim quando vi “A Cidade é uma Só?”. Eu não só me conecto com Adirley como sinto muito orgulho de que esse longa, o primeiro dele, tenha sido produzido pela minha produtora, a 400 Filmes. E ele é um grande ator em potencial! A ponta dele em “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa” é um dos pontos altos do filme para mim.

Seu filme conversa com cults que vão de “Leningrad Cowboys” a “Exílios”, passando por “Round Midnight”. Como você avalia esse casamento dramatúrgico do cinema e da música nos anos 2010?
Gustavo Galvão:
Veja que interessante, nenhum dos exemplos que você levantou são dos anos 2010. Isso me lembra que não me alimentei de muitas referências desta década, ao menos não de filmes de ficção. Há anos, esse casamento que você menciona, entre cinema e música, tem sido mais estimulante no documentário. Não me refiro a cinebiografias, e sim a uma linha mais ensaística, que pode experimentar tanto com a poesia (“20.000 Days on Earth”) quanto com o deboche (“B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989”). Mas preciso fazer uma exceção, um filme de ficção esplêndido e inventivo, que vi quando o meu já estava finalizado: “Verão” (Kirill Serebrennikov, 2018). Voltando aos títulos que você levantou… “Exílios” foi um dos filmes que escolhi a dedo para mostrar como referência para os músicos-atores no processo de preparação de elenco. Queria mostrar para eles toda a musicalidade e a intensidade daqueles dois atores maravilhosos. Também foi uma certa intensidade que busquei em “Contra a Parede” – não por acaso, trouxemos do filme do Fatih Akin o seu production designer, Tamo Kunz, que fez dobradinha com a diretora de arte Valeria Verba no “Imensidão”. Já com Aki Kaurismäki eu tenho uma relação mais antiga: meu primeiro longa não seria o mesmo se não fosse tão devoto do cinema dele. Aki é um modelo que me inspiro sempre. Por fim, “Round Midnight” foi decisivo num aspecto: ele mostrou que aquela ideia que tive no início, de escalar músicos como atores num filme, que muitos julgaram insana, era plenamente viável. Só que nenhuma ficção foi tão marcante para o “Imensidão” quanto as toneladas de documentários musicais que vi e as biografias que li no desenvolvimento do projeto, de 2011 a 2017. Devorei de tudo e guardo com carinho algumas obras: “20.000 Days on Earth” e “B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989”, que citei antes, bem como “Mate-me Por Favor” (o livro, de Legs McNeil e Gillian McCain), “Só Garotos” (Patti Smith), “Transformer” (tanto o livro de Victor Bockris quanto o disco de Lou Reed). Mais que ideias, esse material me encheu de amor pela música. Foi um combustível para criar a partir de músicas e sons, não só com imagens. Esse é o meu filme mais “sonoro”, ao ponto de ter participado na criação das letras da banda criada para o filme (que escrevi com a protagonista, Ayla Gresta) e acompanhar de perto a criação das músicas.

p.s.: Oscar da latinidade, o troféu Platino, já em sai 7ª edição, vai ser entregue, em 2020, no dia 3 de maio, no Gran Teatro Tlachco de Xcaret, no México. O Canal Brasil transmitirá ao vivo com exclusividade para o Brasil, enquanto a TNT (Warner Media) transmitirá o evento para outros países ibero-americanos.
p.s.2: Tem Jim Carrey na “Sessão da Tarde” desta quarta-feira: “Os Pinguins do Papai” (2011) vai ser exibido às 15h10. Dublado por Marco Ribeiro, Carrey é Tom Popper um workaholic que ignora seus filhos, por sua obsessão pelo trabalho. Mas uma exótica herança de seu finado pai – uma família de pinguins – vai mudar sua realidade, amolecendo seu gélido coração. A trama é baseada na literatura de Florence e Richard Atwater.
p.s. 3: Chega ao circuito brasileiro neste fim de semana o excepcional “Retrato de uma Jovem em Chamas” (“Portrait de la jeune fille en feu”), de Céline Sciamma. O prêmio de melhor roteiro em Cannes e a Queer Palm (a láurea LGBTQ+ da Croisette) foram reconhecimentos obrigatórios diante da excelência de dramaturgia deste ensaio sobre sororidade. Uma pintora do século XVIII (Noémie Merlant) tem uma tarefa de retratar uma jovem nobre (Adèle Haenel) forçada pela mãe a um casamento não desejado. Da pintura vai brotar uma paixão cúmplice, e libertadora, traduzida em imagens de uma potência plástica impressionante, graças ao colorido na fotografia de Claire Mathon. O longa disputou o Globo de Ouro no último domingo, o que ampliou seu prestígio internacional. De 16 a 20 de janeiro, a produção será um dos destaques do 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, em Paris.

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